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No Castelo

Eu era apenas uma criança quando, certo dia, despertei no castelo, sem possuir nenhuma idéia de como tinha chegado lá. Também não tinha um nome, ou outra lembrança que antecedesse aquele momento em que meus olhos pela primeira vez apreenderam a imensidão opressora das muralhas de pedra que me cercavam. Ainda assim presumo que, em minha existência, já devo ter conhecido outra coisa que não a rocha do castelo. Senão como poderia explicar essa vaga que me preenchia, essa vontade tão vasta de me achar enfim fora dali, andando ao ar livre e olhando para um céu limpo, não bloqueado pelas abóbadas tão distantes de minha misteriosa prisão?

Nunca encontrei outra pessoa no castelo. Ainda jovem, intrigado por minha bizarra situação, me dediquei a buscar outros habitantes dessa insólita construção, tão volumosa quanto labiríntica. No entanto, em todo tempo que aqui passei e que agora já deve somar mais de trinta anos, o máximo que me aproximei de ter contato com outra presença humana foi um indistinto som de passos distantes, acompanhados de rumores que podem muito bem não ter sido nada mais que produtos de minha imaginação excitada, e, às vezes, a inconfortável sensação de estar sendo vigiado, que me assaltava de forma inesperada e logo desaparecia ante a esmagadora evidência de minha solidão. Ainda assim, todo dia, na sala de jantar um lauto banquete me esperava, com comida fresca e variada e bebida forte e doce. Quem preparava essa mesa, não sei. Tentativas de esperar na sala de jantar pelo aparecimento dos meus criados invisíveis sempre foram infrutíferas, e só fizeram atrasar ou até comprometer totalmente minha refeição. A comida só surgia quando eu não estava na sala de jantar e nunca fui sequer capaz de determinar de onde ela vinha. Ligada ao salão monumental por uma porta, sem outros corredores ou saídas, só posso concluir que a sala de jantar deveria possuir alguma passagem secreta, por onde os elusivos espectros que preparam meus pratos iam e vinham sem se anunciarem. Mas nunca a localizei.

Não demorou muito para que eu desistisse de vez da busca por outros hóspedes, ou prisioneiros, do castelo. Me acostumei logo a minha singularidade e solidão e, por alguns anos, até mesmo passei a me sentir confortável entre os múltiplos e idênticos recintos de minha morada. As únicas janelas ficavam na distante abóbada do teto, e só permitiam a passagem de uma luz branca, difusa, de um sol que até então eu jamais conhecera. Assim, toda minha paisagem se resumia aos tijolos das paredes de pedra, aos arcos das várias entresalas, à escuridão assombrosa de corredores que se estendiam por milhas. Não existiam portas, nem saídas. O castelo era como um mundo infinito de antecâmaras e caminhos, no qual eu era o único morador. Em minhas explorações descobri muitos desses locais, apenas para constatar, decepcionado, que nunca traziam nada de novo… apenas a mesma rocha nua das paredes, o mesmo lusco-fusco entibado servindo de iluminação, a mesma sensação sufocante de uma antiguidade quase alienígena que permeava cada centímetro de rocha ao meu redor. Eu berrava, então, para que meu eco me servisse de conforto, para que minha própria voz refletida nos malditos muros que me cercavam criasse a ilusão tão necessária de multiplicidade.

Uma única surpresa, certa vez: foi quando, no topo de uma das escadarias que entrecruzavam as alas que cercavam o salão monumental, achei uma biblioteca. Era vasta, tão vasta quanto os infinitos corredores do castelo, com suas estantes monolíticas se erguendo imponentes vários metros acima de meu então diminuto corpo juvenil. Seus tomos, invariavelmente empoeirados, me encaravam altivos, como me desafiando a conquistá-los. Cansado do marasmo daquela fortaleza, me atirei aos livros com avidez, ainda que não pudesse precisar, e ainda não posso, como ou quando aprendi a ler. Mas tornei aqueles volumes incunábulos meus companheiros, meus parceiros de viagem, de convivência e de brinquedo. Foi lá que aprendi sobre o mistério desconhecido das árvores e dos cursos d´água, li sobre a sensação inédita da brisa contra o rosto e dos raios de sol repousando gentilmente sobre a pele. Perdido entre as estantes que nunca se acabavam, equilibrando romances e obras de referência entre os gravetos miúdos de meus braços, tomei a decisão que determinaria o curso e o fim da minha vida. Teria que abandonar o castelo. Descobrir uma saída.

Eu deveria ter pouco mais que quinze anos quando parti em minha primeira expedição. No impulso da juventude, cuja força motriz é tanto a confiança quanto a ignorância, me aventurei por aqueles corredores que não se acabavam mais, cobrindo milhas pelos caminhos impossíveis que quebravam e volteavam como serpentes em volta de sua presa. Depois de um dia andando por trilhas que não pareciam mudar ou ter fim, compreendi o erro que tinha cometido e, com fome e sede, busquei o caminho de volta para a sala de jantar e para os ambientes mais familiares onde eu tinha crescido. O castelo, cujo tamanho me humilhava com sua impossibilidade, seria um desafio bem mais complexo do que eu pensara a princípio. Com esforço, e não sem percalços criados pela frustrante semelhança entre as passagens e pela natureza labiríntica de sua arquitetura, consegui, após um dia e meio de viagem, retornar ao salão monumental que me servia de habitat principal e saciar, com sofreguidão, minha dolorosa fome e sede com a bem-vinda refeição que me aguardava na sala de jantar.

O desapontamento que me afligiu então fez com que eu desistisse de repetir qualquer empreitada do tipo por um período não inferior a dois anos… A natureza hercúlea da tarefa era por demais esmagadora para minhas sensibilidades de menino, e posterguei uma nova empreitada, enquanto permitia que meus dias passassem entre a biblioteca que não terminava, o banquete fantasmagórico e passeios inócuos entre os ambientes do castelo que já conhecia tão bem. Beirando meus anos de adulto, reuni finalmente a fortitude para tentar mais uma vez localizar e atravessar os limiares da construção que se erguia à minha volta. Preparei um gordo farnel com a comida obtida no jantar, e usei as páginas em branco de um livro, mais talheres e vinho para improvisar um mapa. Com cuidado e me sentindo confiante, parti para uma segunda expedição, novamente me entranhando nos corredores do castelo. Não me surpreendi ao ver que, mesmo após dois dias de viagem ainda não parecia ver nem sinal de uma saída ou coisa que valhesse no horizonte. Era apenas os mesmos arcos, as mesmas paredes e o mesmo teto, sempre se repetindo, virando em esquinas ou se estendendo langorosamente além do que minha visão podia alcançar. Após três dias de viagem, cansado e temendo o fim de minhas provisões, decidi tomar o caminho de volta, mas somente para me preparar ainda melhor e definitivamente mais determinado a resolver o enigma daquela cidade de rocha que, no fundo eu temia, podia até mesmo cobrir o mundo.

Durante os meses seguintes, fui construindo uma significativa reserva de comida, aproveitando boa parte dos banquetes milagrosos. Para minha fortuna, descobri que não apenas a comida e a bebida eram repostos milagrosamente a cada dia, mas também os talheres e a roupa de mesa ressurgiam se eu os subtraísse da sala de jantar. Pude assim confeccionar um largo saco que usaria não só para guardar minhas provisões mas também para arrastá-las em meu longo e difícil caminho, de forma que muito diminuíra a velocidade da minha exploração, mas me proporcionaria a possibilidade de carregar suprimentos suficientes para passar meses distante daquele festim misterioso. Após um ano, ou algo assim, reunindo comida e me preparando, parti novamente, resoluto e férreo em meus objetivos.

Não existe sentido em reviver em detalhes o enfado daqueles dias que se seguiram. Como mencionei, todos os corredores eram iguais, todos os caminhos confusos, complexos e arbitrários. Salas vazias sucediam salas vazias, trilhas ligavam salões vastos (mas sempre menores que o salão monumental de onde eu tinha partido) e a escuridão se adensava conforme me afastava cada vez mais do meu ponto de partida. Mas a idéia de retornar ao âmago do castelo, de dar meia-volta para a vida que eu vivera até então, me causava uma ânsia e uma profunda repulsa. Comendo muito pouco, para preservar ao máximo a duração de meu estoque de comida, eu me sentia frequentemente cansado e irrequieto, e não raro, no limite de minhas forças. Mas a possibilidade de sair dali, de enfim abandonar o castelo, me enchia de novas forças, me revitalizava de forma possante e assustadora. Mais do que tudo, eu tinha que fugir, entrar em contato com o mundo e deixar para trás a repetição insana de meu confinamento. Não me passava pela cabeça o perigo mortal que corria, de que minhas provisões acabariam muito antes de conseguir chegar a alguma saída, caso sequer existisse tal criatura. Ou melhor, me passavam sim essas idéias, mas apenas em um plano racional e prático, tão logo obnubilado por minha obsessão descontrolada em escapar.

Foram três meses de busca até que, finalmente, cheguei em uma porta. Minha surpresa transcendia minha capacidade de destilar emoções em palavras. Nunca antes, nos meandros do castelo, eu tinha encontrado uma porta. Ela era alta, larga, feita de madeira negra e robusta. Uma única alça de ferro, desprovida de adereços, surgia no meio de seu corpo. Tentei puxá-la, apliquei toda minha força, chegando mesmo a escorar meus pés contra a parede e usar todo o meu peso na tentativa de abrir aquele obstáculo tão fantástico quanto estático. Inútil… a maciça porta permanecia fechada, imóvel, desafiadora e altiva como uma esfinge. Ofegante, lembro-me de ter me largado ao chão, buscando fôlego enquanto revia minhas poucas opções. Não me parecia restar outra possibilidade que arrombar a porta, abrir meu caminho pela força e violência, uma vez que os métodos mais comuns tinham se mostrado falhos. Por sorte, tendo previsto a chance de um empecilho deste tipo surgir, eu tinha partido para minha viagem carregando um peculiar arsenal de talheres, amarrados e entrelaçados em conjunto até tomarem forma de algum tipo novo e inaudito de arma, uma fera exótica de metal e pano, infinitamente dentada e que, bem alimentada por minha fúria, se lançou com selvageria contra a sólida estrutura sombria que barrava minha passagem. Os golpes me exauriam, e causavam pouco dano, mas eu compreendia que aquela era minha melhor e, até então, única chance de descobrir uma saída de minha estranha situação. Assim, não permiti que as poucas ranhuras que meus ataques produziam provocassem em mim desânimo ou dessem voz à incipiente vontade de desistir. Perseverei, desferindo contra a porta ataque após ataque, até minhas armas se despedaçarem, até minhas mãos rasgarem. Após não sei quantos dias insistindo nesse embate infrutífero, compreendi que minhas provisões minguavam e não teria como sustentar meu cerco por muito mais tempo. Reuni minhas coisas e parti, mas não sem antes detalhar cuidadosamente o caminho que tinha seguido até ali. Pretendia voltar, com mais comida, mais ferramentas, e retomar minha luta contra a madeira que pressupunha inimiga de minha tão sonhada liberdade.

O caminho do meu retorno não foi dos menores dos meus suplícios. Minha trilha era marcada pelo sangue que fluía aos poucos, mas constantemente, de minhas mãos e pés. A fome aumentava na proporção em que a comida diminuía, e logo percebi que teria que me privar por dias de qualquer alimento, se desejasse que minha ração durasse o suficiente para permitir que eu retornasse vivo à sala de jantar. Cansado, sedento, eu alucinava vozes e galhofas semi-ouvidas, que me enchiam de terror e expectativa, mas não eram mais que o som de meus próprios passos e murmúrios loucos ressoando por aquelas galerias imortais. Quando finalmente entrevi as colunas familiares do salão monumental, se erguendo além da vista para sustentar a abóbada tão distante, minha alma foi preenchida de uma alegria e satisfação que nunca antes sentira nos dias de meu aprisionamento. Desabei no chão, aliviado e satisfeito, livre de todas as minhas forças e medos e esperanças, e dormi. Dormi profundamente, dormi de verdade talvez pela primeira vez no mundo. Na obliteração de minha consciência, que tanto já me pesava, não percebi os dias passarem, ou o corpo se curar. Apenas despertei quando minha fome já me causava dor, e segui para a sala de jantar, onde, sem dúvida, minha refeição me esperava. Saciei vontades há muito reprimidas e indulgi em um banquete farto, além mesmo das capacidades de meu estômago suportar, já que ele estava então acostumado às porções mais mínimas ou inexistentes de comida por dia.

Dediquei as semanas seguintes a uma lenta recuperação do duro ordálio ao qual tinha me submetido. Mas não podia, não conseguia tirar da minha mente aquela porta, cuja existência me estimulava tanto ódio quanto esperança. Logo iniciei os preparativos para mais uma bandeira, reunindo comida, saúde e coragem. Quebrei as cadeiras da sala de jantar, que sempre tinha considerado como uma piada insultosa… Afinal, para quê mais de uma cadeira, se naquele castelo eu era o único habitante, convidado e comensal? Ainda assim, elas existiam, circundando a mesa e rindo de minha ermida, sendo substituídas quando destruídas, no mesmo minuto velado em que a comida era distribuída, a mesa posta, e novos talheres eram colocados em seus lugares. Mas não as tinha quebrado apenas por raiva, ou algum tipo de diversão destrutiva e juvenil. Eu desejava suas pernas, seu espaldar, os feixes de lenha em cujas pontas eu prendia talheres de aço, improvisando diversas picaretas, mais apropriadas para a violência do meu intento. Estudei os livros da biblioteca, e me dediquei a um regime estrito de exercícios físicos, fortalecendo meus músculos para que meus golpes fossem mais potentes. Já tinham se passado então mais de vinte anos em que vivia daquela forma, e minha impulsividade juvenil por muitas vezes tinha me feito cogitar abreviar meus longos preparativos, partir logo para a distante paragem penumbrosa onde o portal me esperava, impávido. Mas, não, eu refreava meus impulsos, montava mais uma ferramenta de destruição, reunia mais comida. Enfim, quando eu me sentia forte e seguro, bem preparado e com muito mais suprimentos armazenados do que em todas as minhas viagens anteriores, me despedi mais uma vez de minhas salas usuais, e segui o mapa que me levaria, depois de três longos meses, ao local onde seria decidido meu destino.

O ímpeto da juventude, a audácia, a minha própria ansiedade em pôr aquela porta abaixo e desvendar os segredos que ela guardava fez com que a viagem de ida durasse muito menos daquela vez. Após parcos dois meses e meio, eu já retornava ao local de minha pitoresca descoberta. E a porta permanecia lá, aparentando não ter sido movida, como se nunca tivesse sido movida, como se fosse apenas uma estrutura natural que crescera, já trancada e muda, no corpo do monstro que era aquele castelo. A única mudança eram as marcas que eu mesmo tinha deixado na madeira negra e que denunciavam a fúria e a irregularidade de meus ataques. Já segurando a picareta na mão, e respirando fundo, eu decidira concentrar meus golpes em um só lugar, tentando abrir aos poucos um buraco ou fresta que eu usaria para abrir então uma passagem maior na monstruosidade de ébano, e que me permitiria vislumbrar, mesmo que de relance, que glórias ou mistérios aguardavam do outro lado.

Meus esforços se estenderam por anos a fio. Minhas ferramentas caseiras eram menos do que eficientes para a realização de minhas ambições. Não raro elas se partiam após poucos golpes, e o dano que causavam provou ser menor do que o esperado. Perdi muito tempo consertando minhas ferramentas, outro tanto planejando e confeccionando novas armas capazes de sustentar com maior propriedade meu assalto insistente contra aquela porta inimiga. Quando a comida começava a escassear era hora de iniciar o longo e doloroso caminho de volta para as salas onde primeiro tomei consciência de meu suplício, e novos meses passavam, enquanto eu dava início mais uma vez ao ciclo de preparação, expedição e retorno. Mas, não sem um certo orgulho, e não sem um amargo ressentimento, confesso que, em nenhum momento minha fé fraquejou. Alimentado por minha esperança, minha vontade permanecia resoluta. Vez por vez eu retornava aquele local amaldiçoado, e retomava minha furiosa peleja contra a aberração lenhosa em meu caminho. Aquela não era, afinal, apenas minha melhor chance de descobrir uma saída da fortaleza que me prendia e fustigava. No meu entender de então, era a única, já que a mera perspectiva de iniciar uma outra exploração por aqueles corredores e passagens que não acabavam mais me enchiam de profundo terror, dada a vastidão da tarefa e a incerteza do sucesso. Quantas vidas poderiam ser necessárias, eu pensava, para um homem se desincumbir da tarefa de vasculhar cada caminho naquela fortaleza desprovida de começo ou fim?

Era com esses pensamentos flutuando no mar revolto da minha mente que, cansado e exangue eu me deitava toda noite ao pé da porta, ou levantava acampamento, mal esperando o momento de retornar e retomar meu projeto de destruição. E, ah, até hoje não deixo de sentir o aguilhão cruel e ardido daquele dia marcado à fogo em minha memória, do dia da minha melancólica vitória e descoberta. Após tantos anos e tanto esforço, após longos estudos para aperfeiçoar cada vez mais o desenho e brutalidade de minhas picaretas, após abrir, aos poucos e pacientemente, como a gota d´água corroía a rocha, um buraco no monolito negro que tanto se opunha a minha passagem, finalmente eu atingira as margens da vitória, a minha maior vitória no que era, até aquele momento, uma coleção de confrontos fúteis contra a imensidão impossível de minha prisão. No corpo volumoso da porta uma profunda ferida se manifestava, resultado de dias e meses, anos e pouco menos de uma década de ataques precisos, fortes e furiosos. E, enfim, quando a picareta feita à partir de um pé de cadeira e talheres cruzou o ar e se chocou contra meu alvo ela finalmente fez o que por tanto tempo eu esperara. Um buraco se abria, uma pequena brecha, pouco maior que um dedo, mas que me permitiria vislumbrar o que eu desejava com ardor inimaginável, o que me fazia tremer de antecipação e fascínio. O outro lado, quiçá, a liberdade. Com vagar, repousei minha ferramenta no chão e me aproximei, as mãos suadas e trêmulas tocando devagar a porta, enquanto meu coração explodia repetidas vezes em meu peito. Com um suspiro longo, e tomando um profundo fôlego, encostei meu rosto cansado contra a porta e vislumbrei. E vi uma dor profunda, de um machucado que me fere até hoje.

Do outro lado da porta havia apenas outro salão monumental, com as mesmas colunas, os mesmos pórticos, capitéis e arcos a que eu estava tão acostumado. Em minha confusão, na insanidade que me tomou por um momento diante daquela visão infausta, cheguei até a cogitar que aquele salão era o mesmo de onde eu saíra, que minhas voltas e avanços por aquelas esquinas que não acabavam mais tinham apenas me enganado, feito eu andar em círculos e retornado ao ponto de minha desgraçada partida. Com o sal das lágrimas queimando em meu olhos, conferi meus mapas e não foi nenhum alívio verificar que eles estavam certos. Não, ao que parecia, aquele era mesmo um segundo salão monumental, uma segunda ala de um castelo que não parecia ter fim. Exausto, sem forças para me erguer ou viver, desabei no chão duro e, mais uma vez, dormi um sono sem sonhos e de repouso total. Mas dessa vez já não era por um cansaço do corpo, e sim do espírito.

Quando despertei, minha infelicidade era montuosa. A visão da porta, do dano que eu causara a ela e do rombo que eu abrira através dos anos, me repugnava. Mais motivado pela náusea profunda que tomava ao permanecer ali, levantei acampamento e parti. Durante a longa jornada de volta, cogitei desistir, rasgar o mapa e me perder naqueles labirintos, permitindo que a fome , aos poucos, me concedesse a única liberdade a que podia aspirar. Mas nunca o fiz. Parte de mim ainda pensava em si mesmo como jovem e forte, e ainda sustentava, embora talvez tolamente, esperanças. Quando retornei ao salão monumental original, e a tão conhecida sala de jantar, descansei. E dediquei os próximos meses a ponderar sobre minha situação.

Se tornava claro para mim que meu fracasso se devia ao fato de que ignorara a verdadeira natureza daquele castelo. Mesmo meu status lá dentro era de todo incerto. Eu era um prisioneiro? Ou o rei daquele lugar? Seria aquilo uma fortaleza para minha proteção, ou uma maldição que me afligia? Se eu suportava uma punição, porque meus algozes se preocupavam em me fornecer o melhor da comida e bebida, a mais completa biblioteca e não se preocupavam em coibir meus indisfarçados esforços para fugir dali? Talvez porque não houvesse possibilidade de fuga, eu assim concluía, diante da magnitude inverossímel daquela morada. Afinal, nenhum castelo existia no mundo que tomasse tantos milhares de quilômetros em sua extensão. Que pedreira poderia fornecer tanta matéria-prima? Que país poderia ter gerado braços o suficientes para construir aquele colosso? Como num relance de espírito, uma constatação chocante se lançou sobre mim. Não havia no mundo força ou nação capazes de perpetrar aquela construção, não sem esgotar seus recursos naturais, não sem fomentar a mais violenta revolução. Eu era, portanto, vítima de um encanto, um maligno embruxamento de natureza desconhecida. Aquela fortaleza era de todo mágica, com seus criados invisíveis, seu tamanho infindo e disposição cruel. Um ardil, do qual não era possível escapar.

Ou talvez tivesse. Cheguei a essa conclusão inesperadamente, em um dia em que, há muito conformado com meu destino, repousava em meio a livros dispersos no chão do salão monumental, saboreando ainda os prazeres de uma demorada refeição. Olhando para cima, para a abóbada longínqua sobre minha cabeça que deixava a luz de um sol abscôndito escorrer preguiçosamente até minha pele, percebi finalmente qual seria a rota de minha fuga, qual era a falha na insidiosa arapuca na qual eu havia crescido. Sim, talvez o castelo se estendesse de forma aberrante e impossível para todos os lados conhecidos pelo homem… mas não para todas as alturas. Acima de mim, a cúpula de cristal da abóbada reluzia, frágil e convidativa como as virgens paradisíacas que só conhecia dos contos. A altura, era verdade, anunciava um feito de coragem e força muito mais fatal do que qualquer um de meus confrontos anteriores. Mas, naquele momento, isso não se configurou para mim como nada mais que um irrelevante somenos… o desespero e a loucura de quem não tinha o que perder era que decidia por mim, e pedia para que eu me erguesse do meu pó e do meu chão, e alçasse vôo para a liberdade final.

Seguiu-se um novo período de preparação e treino, em que mais uma vez minha engenhosidade visava compensar minha falta de meios. A toilette de mesa e os talheres tomaram forma de cordas e aguilhões, capazes de me prender à parede rochosa do salão monumental e sustentar parte do meu peso. Ainda assim, logo percebi que maior porção do esforço dependeria de mim mesmo, da capacidade física de erguer minha massa com meus próprios braços e me movimentar com presteza pelas parcas ranhuras daquelas muralhas. Treinei exaustivamente, em alturas seguras, até me sentir preparado para mais uma aventura, a mais louca, a mais temerária. Não vejo razão, nas circunstâncias atuais, para dourar a verdade. Minha preparação tinha deixado muito a desejar, tanto em tempo total de treino quanto em desenvolvimento de técnica. Mas de que me importava? Se os anos de choque infrutífero contra uma porta tinham me rendido apenas desilusão, não perderia nem mais um segundo em implementar um plano que, embora dificultoso, me oprimia o peito com a simplicidade cristalina de sua execução.

Parti, segurando firmemente com minhas mãos cada fresta, cada protuberância nos tijolos rochosos contra os quais me espremia. Aqui e ali, prendia um conjunto de garfos ou facas, preparava um nó de segurança. Não precisei usar nenhum. Esquadrinhava cuidadosamente a parede em busca do meu próximo apoio, e me movia com cuidado e vagar. Antes que eu desse por mim, já estava diversos metros acima do solo, em posição perigosa e letal. Naquele momento me ocorreu um breve rompante de lucidez, e percebi que não possuía nenhum plano de descida. Mas não fazia diferença… ainda que minha escalada fosse forçosa e dolorida, que a pele de meus dedos rompesse rapidamente em chagas que marcavam a rocha com o sangue advindo do meu esforço, ainda assim eu subia, cada vez mais lépido, cada vez com maior precisão e a certeza de que não deveria voltar. Eu suava frio e meu pulso batia irregularmente, tomado de alegria, quando finalmente percebi a gigantesca abóbada translúcida sobre mim, a pouco menos de um braço de distância. Decorada com arabescos ininteligíveis, pouco se podia divisar através dela, mas eu percebia uma bola de luz, branca e distante, que só poderia ser o tão aguardado sol que iluminara tantos sonhos febris de minha infância. Sem olhar para baixo, temendo que a visão da altitude vertiginosa a qual minha angústia tinha me alçado pudesse me fazer fraquejar e cair, mantive meus olhos fixos em meu objetivo, enquanto apalpava cuidadosamente minhas costas, onde a última das picaretas aguardava seu uso. Eu a ergui no ar, sem perder um momento com hesitação ou temor. Sabia que um único momento de dúvida poderia me destruir. E estilhacei a maldita coisa com um único e certeiro golpe, os pedaços de vidro se dispersando pelo ar como uma mirabolante chuva de cristal. Vingado, remido pelo som da abóbada se estilhaçando naquele solo tantas vezes maldito, eu me ergui pela borda da abertura que criara e me preparei pela primeira vez para sentir o toque gentil do ar livre.

De imediato, fui tomado por uma intensa e lancinante dor. A luz do sol maligno incinerava minha carne, o ar frio e ríspido rasgava meus pulmões. Desnorteado, soltei a picareta, e me desequilibrei. Não esperava aquele ataque tão completo aos meus sentidos, nem imaginara que uma vida de reclusão nas profundezas do castelo poderia ter me tornado tão frágil, tão despreparado para a existência fora de meu casulo. Quedei-me como o Ãcaro das lendas, meus olhos cegos lacrimejando de infelicidade e dor, minha face e pele tomada por bolhas. No meio da queda, minha corda de proteção se rompeu com um estalo, e me choquei pesadamente contra a parede. Pude ouvir nitidamente o momento em que os ossos de meu ombro se despedaçaram, e voltei a cair, chocando-me com um baque surdo no chão. O gosto férreo e viscoso de meu próprio sangue tomou minha boca e percebi que não podia mais me mexer. A dor sumira, já não sentia mais meu corpo senão como um estranho peso frio amarrado à minha consciência, mas tampouco podia movê-lo. Percebi que caíra sobre algo e, com um esforço inumano, pude erguer minha cabeça apenas o suficiente para entrever o grande fragmento de vidro que trespassava meu tronco, se erguendo no meio do meu peito como um promontório escarlate e terrível. E relaxei.

Agora, permaneço inerme, esperando a morte que não deve tardar em chegar. A respiração exige cada vez mais esforço, cada fôlego sendo resultado de um verdadeiro feito atlético. Posso sentir meu sangue se espalhando por debaixo de mim, empapando meus cabelos longos, e o frio se aproxima, rastejante, como se uma bola de gelo no lugar de meu coração espalhasse ondas de inverno pelos restos do que um dia foi eu. Morrerei sem ter desfrutado a liberdade por mais que um instante e sem saber se estava, afinal, condenado a uma prisão eterna ou sendo protegido de um mundo que me era infenso. Não importa. Fosse para fugir ou me proteger, em ambos os casos, fracassei. Daqui onde estou posso apenas mover levemente meu pescoço, o suficiente para ver na cozinha a comida que deixei para trás sem experimentar. Seu fedor me ofende, sua aparência me enoja… ela apodrece, coisa que nunca aconteceu antes. É sem dúvida vítima de bactérias que adentraram essa fortaleza pela primeira vez quando destruí o vidro e agora consomem seu repasto, e logo, consumirão meu corpo também. Não posso deixar de encontrar nisso um certo alento. As únicas coisas vivas nesse castelo além de mim, na decomposição e na morte eu tenho companhia, afinal.

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A História do Príncipe Encantado

Era uma vez um príncipe encantado. Ele era encantado porque em sua mãe não era uma mãe normal… ela era uma fada e por isso o princípe, desde quando era só um principezinho, era muito mais bonito que os outros príncipes, tinha cabelo de cor diferente da dos outros príncipes, e era mais rápido, valente e forte que os outros príncipes.

Mas nada disso deixava o príncipe contente. Muito pelo contrário, o príncipe achava que todo mundo invejava ele e por isso ele vivia sozinho e sem amigos. Até que um dia, já crescido, alto e forte, o príncipe decidiu que deveria achar uma boa esposa que pudesse lhe fazer companhia e em quem pudesse confiar. Mas, como ele era um príncipe encantado, ele não podia casar com uma mulher qualquer. Tinha que ser a mais bela, mais graciosa mulher de todos os reinos, um prêmio digno do príncipe encantado e cuja conquista envolvesse desafios que tornassem ainda mais valorosa sua vitória.

O príncipe então viajou e viajou pelo mundo. Ele visitou terras frias e desertos quentes, cidades nos altos das montanhas e abaixo do nível do mar. Nenhuma princesa que ele encontrava era bonita o suficiente e, quando eram, se mostravam logo apaixonadas pelo príncipe e não valiam a pena ser conquistadas. Mas então o príncipe ouviu falar de uma princesa diferente das demais: uma menina tão linda que nenhum exagero era grande o suficiente para fazer justiça à sua beleza, de cabelos dourados e brilhantes como novelos feitos de raios de sol, feições suaves e delicadas como ade uma pintura, mas que vivia presa em um castelo além do tempo, onde todos dormiam sob o efeito de um poderoso feitiço há centenas de anos. Fascinado coma história e com a descrição dos encantos da bela princesa adormecida, o príncipe encantado partiu para o castelo amaldiçoado. Lá ele descobriu que a princesa e a família real, todos os cortesãos e os animais na floresta próxima dormiam profundamente, intocados pelo tempo graças à proteção de uma fada que queria preservá-los de um terrível feitiço. O princípe encantado não se importou com a história e atacou a tal fada que guardava o castelo. Ela virou um espinheiro para tentar afastá-lo, mas o príncipe cortou pelos ramos sem nem sentir uma picada dos espinhos. Daí ela virou um poderoso dragão para convencer o príncipe a fugir. Mas ele matou o dragão, e entrou no castelo banhado em seu sangue. Lá ele encontrou uma jovem de beleza sem igual, a mais bonita que já tinha visto, dormindo profundamente em uma vasta cama. Sem nem esperar que ela acordasse, o princípe a segurou nos braços e beijou seus lábios, fazendo com que a princesinha despertasse assustada de seu sono de séculos. O príncipe sorriu e avisou que ela estava salvo, e iria morar com ele em seu castelo.

Porém, os anos passaram, e a bela princesa adormecida desapontou o princípe encantado. Ele então ouviu falar de uma outra princesa, de cabelos negros como a noite avançada, e pele branca como a neve das mais altas montanhas. Essa princesa também dormia, vítima do encanto de uma rainha fada que sentira inveja do fato de que era a princesinha mortal, enão ela, o mais belo dos seres que viviam. Mas não era em um castelo que a princesa branca como a neve descansava, mas sim no centro de uma floresta mágica, protegida por espíritos da terra que a guardavam de novos ataques da criel rainha fada. Determinado a conhecer tamanha beleza, que superava os encantos das próprias fadas e de sua primeira esposa, o príncipe rumou para a floresta dos duendes, onde a encontrou envolta em um belo caixão de cristal. Os duendes protestaram que a princesa tinha um contrato com eles, prometendo fazer serviços domésticos em troca de abrigo, e portanto seu corpo adormecido também lhes pertencia. Mas o príncipe logo resolveu o assunto com um dois, três, até sete golpes bem aplicados de sua fiel espada e tomou para si o caixão da princesa branca como a neve. Ao erguer o pesado invólucro, porém, o príncipe fez com que o corpo adormecido da princesinha se mexesse, liberando o pedaço de maçã envenenada que estava alojado em sua garganta e a impedia de respirar. Recuperando o folêgo e a consciência, a princesa branca como a neve olhou confusa para o príncipe e para os corpos mortos de seus guardiões anteriores espalhados para o chão. Mas o príncipe falou para ela não se preocupar pois ela estava segura e iria morar com ele em seu castelo. E a beijou.

Porém, os anos passaram e a princesa branca como a neve desapontou o princípe encantado. Ele então decidiu que estava cansado de procurar princesas e, ao invés disso, organizaria um grande baile para trazer até ele as maiores belezas de todos os reinos do mundo. O príncipe encantado enviou seus mensageiros pelas terras próximas e além, pelo mar e pelo ar, por todas as estradas e caminhos, até que todo mundo em todo lugar sabia da grande festa do príncipe e sua busca por uma nova esposa para um dia reinar ao seu lado em seu reino encantado. Mas quem ficou mais interessada na história foi uma pobre princesinha, que tinha perdido pai e mãe e toda fortuna, e vivia agora com a madrasta e as meia-irmãs, tendo que ajudar nos trabalhos de casa pois não podia mais pagar serviçais. Toda suja com as cinzas da lareira, a bela princesa borralheira decidiu que conquistaria a qualquer preço o coração do príncipe encantado. Na noite do baile, enquanto suas irmãs se arrumavam o melhor que podia e partiam para tentar a sorte, a princesa borralheira ficou para trás e invocou a ajuda de uma fada, que a vestiu com ilusões de fada, realçou suas feições com ilusões de fada e pôs em seus pézinhos delicados dois sapatinhos de cristal que eram a única coisa real na arrumação inteira. A princesa borralheira partiu então para o baile e, lá chegando, logo conquistou o coração do príncipe encantado, que não quis mais saber de nenhuma outra mulher e dançou com ela a noite inteira. Mas, chegada a meia-noite, os feitiços da fada foram desaparecendo. Seu vestido começou a se soltar, seu cabelo fugia das tranças que prendiam o belo penteado, e as maracs de borralho começavam a se tornar visíveis por debaixo das unhas. A princesa fugiu em pânico, enganada pelo truque malicioso da fada e deixando para trás apenas um sapatinho de cristal. O princípe, intrigado, apaixonado e descontente, decidiu então que descobriria quem era aquela bela moça e a tornaria sua esposa. Envou seus agentes e soldados por todos os reinos, entrevistou princesas de todas as partes e obrigou mulheres de todos lugares e idades, jeitos e trejeitos a vestirem o sapatinho de cristal. Estava tão enlevado de amor, o pobre príncipe, que chegava até a ordenar que arrancassem os dedinhos das mocinhas que se recusavam a usar o sapatinho. Até que, finalmente, o príncipe descobriu a casa da princesa borralheira e, embora ela se fizesse de tímida e desentendida, eis que o sapatinho de cristal coubera perfeitamente em seu pezinho. E o príncipe anunciou feliz que ela não iria mais viver naquelas condições pobres e iria morar em seu castelo.

Porém, os anos passaram e a princesa borralheira desapontou o príncipe encantado. Agora ele já era homem maduro, de barba crescida e sentindo o peso da idade. Não se sentia mais disposto a caçar aventuras ou se esforçar muito para encontrar uma princesa para desposar. Concordou em casar com uma jovem nobre de uma família de terras próximas. Mas, depois do caso da princesa borralheira, que tinha usado mágica para fazê-lo se apaixonar, e depois tê-lo decepcionado, o príncipe decidiu que sua próxima esposa teria que passar por um teste de confiança. O príncipe encantado avisou então sua jovem esposa de que ele partiria para uma longa viagem e deixaria com ela o molho de chaves para abrir as portas de seu castelo. Ela poderia abrir e visitar todas as dependências da enorme casa, exceto um único quartinho, que ficava no porão, depois de uma escada estreita e mal-iluminada, passando pelo depósito de lixo e pela fossa. A jovem princesinha concordou e prometeu ser obediente, mas a curiosidade era demais! Logo no primeiro dia sozinha, suspeitando dos segredos do seu marido, a princesinha desceu a escada estreita e mal-iluminada, atravessou o depósito de lixo e a fossa e chegou ao quartinho no porão. Usando sua chavinha, ela abriu a porta e quase desmaiou de horror… na sala de torturas, manchada de sangue e recheada de aparelhos cheios de correntes, tornos, grilhões, lâminas e espetos, havia também os corpos das três princesas que o antecederam: a bela adormecida, a branca como a neve e a borralheira, despedaçados, deformados e destruídos pela fúria do príncipe. Tremendo, a jovem princesa se preparou para fugir, mas logo atrás de si estava o príncipe encantado, espada em punho, com sua vasta barba azul emoldurando os olhos brilhantes de malícia…

E, depois daquela noite, ela nunca mais desobedeceu. E, como com as outras, eles foram felizes para sempre.

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Com Legendas!

“Matei com minhas próprias mãos, ó Senhor das Trevas. Acha que vale mais uns mil anos de extensão em nosso pacto?”

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Agradeço A Santo Expedito Pela Graça Alcançada

O Garagem voltou. Para quem não conhece, é apenas o melhor programa de rádio do Brasil. Porra, talvez um dos melhores do mundo. Sério, Garagem é genial. É um sopro de ar puro na névoa da mediocridade do show biz brasileiro. E agora retornou como um programa semanal de webradio na UOL.

O Garagem começou na Gazeta FM, um milhão de anos atrás. Não existia internet, o compact disc tinha chegado para ficar, e as gravadoras não acreditavam em quanto dinheiro estavam fazendo. O jabaculê rolava solto e o Garagem era um dos poucos minutos na programação da rádio que não estavam loteados para alguém. O som que tocava era escolha pessoal, arbitrária e, geralmente muito boa, de seus apresentadores: André Barcinski e Paulo César Martin (na época ainda acompanhados do Ãlvaro Pereira Júnior, da Folhateen e do Fantástico).

Não demorou muito e o Garagem foi espirrado da Gazeta. Voltou à vida em 1999, na Brasil 2000, uma rádio de São Paulo que, na época, era vinculada à Universidade Anhembi-Morumbi. Garagem ficou uns seis anos por lá. E, com exceção de um programa ou dois, ouvi quase todos. Não é pouco dizer que foi com o Garagem que aprendi a apreciar música e entender qual era o verdadeiro espírito contraventor, desafiador e tosqueira do rock. Garagem me ensinou o que realmente era Johnny Cash, The Beatles, Jesus & Mary Chain, The Clash, Oingo Boingo, The Fall, Nelson Gonçalves… e me apresentou The Mummies, Division of Laura Lee, The 6th´s, Pussy Galore, Backyard Babies, Delays, Audio Bullys, Mercury Rev… Sem mencionar os episódios especiais, como o inteiramente dedicado a músicas sobre chuva (suscitado por uma noite de enchente catastrófica em São Paulo) e o último programa, em 2005, de quando a Brasil 2000 foi vendida e todas as músicas eram de despedida, encerrando com “Last Goodbye” de Jeff Buckley. Foi foda.

Porque Garagem não é só sobre música. Era sobre música, comportamento, cinema, arte, mídia… Garagem era umas duas horas por semana em que o véu de hipocrisia e marmelada que permeia as relações culturais do Brasil caia por Terra. Os caras desciam o cacete em todos aqueles artistas de merda que a MTV, a Globo e a programação das rádios cooptadas pelas gravadoras tentam te convencer que prestam. Falavam a real, sem se importar com consequências ou proteger o rabo preso. Destruíam os discos da multidão de cantores picaretas, riam da tolice do mundo, desenterravam e tocavam algumas das coisas mais horríveis já gravadas nesse mundo, e proferiam todo um mundo de besteiras cabeludas e irreproduzíveis, tudo para o divertimento do povo e risadas dos ouvintes. Eu curtia a música, mas acima de tudo eu admirava o Garagem pela postura crítica coerente, corajosa, explícita e firme, sem perder o bom-humor. Em um país em que o clientelismo ainda é a principal moeda de troca cultural, e, Garagem me parecia uma lição crucial sobre integridade artística.

Engraçado, som de qualidade e dando voz a tudo aquilo que você sempre pensou mas nunca ouviu na mídia convencional. Como disse o convidado especial Fábio Massari na última edição do Garagem: “Pára de falar e vamos ouvir música.”

http://www.tvshowlivre.com.br/garagem/

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Homenagem a Uma Pessoa Que Morreu

Pode não parecer, mas esse blog tem certas regras implícitas. Uma é “Jamais publicar letras de música.” Além de brega, esse é um dos mais contundentes sinais de que o assunto de um blog acabou. Poesia, tudo bem. Faz parte da missão deste Retrato favorecer o contato com literatura pouco conhecida, e nos dias de hoje poesia, qualquer poesia, satisfaz o critério.

Mas vocês sabem como eu sou… Eu não estou disposto a respeitar nem minhas próprias regras.

James Dennis “Jim” Carroll foi jogador de basquete semiprofissional, poeta, escritor, músico, roteirista dos filmes de Andy Warhol, viciado em heroína e prostituto. Ele teve uma vida rica, fascinante e deixou para trás muita coisa genial. Ele morreu semana passada, enquanto escrevia.

Em homenagem à Jim Carroll, e devido ao fato de que “People Who Died” é uma canção da mais pura pungência e poder punk, com letras que refletem a poesia urgente e desgraçada de Carroll abro exceção à minha regra e reproduzo aqui, em versão porcamente traduzida por mim, a letra de sua música:

Teddy cheirando cola, 12 anos de idade
Caiu pela laje na Leste com a Vinte e Nove
Cathy tinha 11 quando desligou o plugue
Com 26 vermelhos e uma garrafa de vinho pobre
Bobby contraiu leucemia, 14 anos
Tinha cara de 65 quando morreu
Ele era amigo meu

Essas são pessoas que morreram, que morreram
Eram todas minhas amigas, e morreram

G-berg e Georgie deixaram seus bagulhos apodrecerem
E morreram de hepatite na alta Manhattan
Sly no Vietnã levou uma bala na cabeça
Bobby pifou pra cima do Drano na noite que ia casar
Eram dois outros amigos meus
Dois outros amigos meus que morreram

Essas são pessoas que morreram, que morreram
Eram todas minhas amigas, e morreram

Mary saltou pro nada de um quarto de hotel
Bobby se enforcou em uma cela nas tumbas
Judy pulou na frente do metrô
Eddie pegou a veia e cortou
E Eddie, sinto sua falta mais que a de qualquer um
E te saúdo meu irmão

Essas são pessoas que morreram, que morreram
Eram todas minhas amigas, e morreram

Herbie empurrou Tony do teto do Boy´s Club
Tony achou que sua bronca era só moda
Mas Herbie deu pro Tony uma prova foda
“Ei”, disse o Herbie, “Consegue voar no céu?”
Mas Tony não podia, e Tony morreu

Essas são pessoas que morreram, que morreram
Eram todas minhas amigas, e morreram

Brian levou um enquadro numa blitz da Entorpecentes
Ele escapou caguetando uns motoqueiros
Ele disse “Tá certo que é perigoso, mas é melhor que ir pro fundão”
E no dia seguinte os mesmos motoqueiros passaram o irmão

Essas são pessoas que morreram, que morreram
Eram todas minhas amigas, e morreram

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Da Série Estranhos Diálogos

“Eu gosto de bolo de chocolate embebido em guaraná.”

“… bolo de chocolate embebido em guaraná? Por quê?”

“É gostoso, ué. Fica com sabor de banana.”

“E porque então você não come banana?”

“Eu não gosto de banana.”

Baudrillard explica.

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A História de Outra Cinderela

Era uma vez, em um reino muito distante, uma bela e rechonchudinha menina chamada Cinderela. Ela era a filha querida de um nobre e sua esposa e desde cedo tinha demonstrado um grande e feliz apetite. Com cinco anos ela já corria pela grande cozinha de sua casa, provando um pouco da calda do bolo que ainda esquentava no caldeirão, se fartando nos profiteroles que seriam servidos aos convidados da casa (mas que sempre acabavam antes) e saboreando devagar os cheiros vários dos cozidos, dos assados e das frituras que eram feitas na casa.

Mas, um dia, a tragédia mais terrível aconteceu. A mãe de Cinderela, que sempre tinha um biscoitinho na manga para servir sua sempre faminta filha, ficou muito doente e morreu. O pai da menina, que nunca teve cabeça muito boa para negócios logo se viu muito endividado. Incapaz de pagar as contas (principalmente as do padeiro, do confeiteiro, do verdureiro e a do açougueiro) ele se viu obrigado a casar com a mais famosa editora de moda do reino, uma mulher muito, muito rica, mas também muito, muito má, e que só se interessava pelo título de nobreza do pai de Cinderela. Poucos anos depois, outra desgraça aconteceu e o pai da Cinderela também morreu, deixando a pobre menina nas mão da madrasta e de suas malvadas e magérrimas meio-irmãs: Ana e Mia.

A madrasta, que nunca gostou de Cinderela (nem de ninguém) logo a forçou a fazer dieta. A coitadinha da menina, que gostava tanto de bolos e pizzas, de assados e tortas, agora tinha que se contentar só com uma folha de alface por dia, acompanhada de uma azeitona, dia sim, dia não. Cinderela logo perdeu peso e ficou magrinha, magrinha, mas também infeliz. Para piorar a Madrasta sempre insistia que, por mais magra que fosse, Cinderela ainda estava muito gorda, com pneuzinhos ou batatas da perna inchadas. As irmãs de Cinderela também não ajudavam, fazendo brincadeiras malvadas, comentários maldosos e todo tipo de piada humilhante em cima da coitadinha. (Mas coitadas, a Madrasta também dizia que ela eram gordas, apesar de juntas não pesarem mais que quarenta quilos!)

Porém, acontece que nesse Reino havia um príncipe bonachão, que adorava uma boa festa, ainda mais se regada de muita bebida e com muita comida. Glutão famoso, o princípe tinha dedicado sua vida a comer todo prato que existia, importando cozinheiros e chefs dos países mais distantes para preparem refeições para ele e sua corte. E um dia ele decidiu dar uma grande festa, com todos os pratos que mais gostava e mais alguns, feitos pelos melhores cozinheiros do mundo. Tinha sushi e feijoada, mexilhões e churrasco, smorgasbord e batata frita, bratwurst e macarronada. Sem falar nos bolos e nas entradas, nos sorvetes e nas sobremesas, nos aperitivos e nos quitutes. Tinha tanta comida que o Princípe percebeu que nem ele conseguia comer aquilo tudo e convidou todas as pessoas do reino para comerem com ele naquela data tão especial.

A Madrasta, claro, não queria comer nada, mas sabia que o Princípe era solteiro e queria empurrar uma de suas filhas para ele. No dia do grande banquete, ela vestiu as duas com Vera Wang e Prada, Manolo Blahnik e bolsas Birkin e mandou que elas fossem encantadoras e lindas e roubassem o coração do Princípe. A Cinderela, pobrezinha, ficou para trás, porque a Madrasta disse que não tinha sapatos que combinassem com seus “kankles” e, de qualquer forma, sua bunda era muito grande não cabia no carro. A coitadinha da Cinderela, cuja bunda nem estava tão grande assim, ficou em casa chorando num canto, e resolveu procurar um último pacote de biscoitos recheados que escondia para esse tipo de emergência. E foi mexendo no esconderijo, uma rachadura entre duas paredes da casa que a pobre menina percebeu uma coisa estranha… uma pequena vozinha, tão pequenininha que parecia alguém falando de um lugar distante ou cochichando um segredo de adulto para alguém. Com um puxão Cinderela tirou seu pacote de biscoitos de dentro da rachadura na parede, mas agarrado a ele estava um pequeno duende, com uma grande e redonda pança, longos bigodes vermelhos como maçã do amor e bochechas rosadas como leitão assado. “Esse biscoito é meu!” disse o pequeno elfo, ao que Cinderela respondeu que não era dela, mas ela aceitaria dividir (pois Cinderela era gulosa mas nunca foi fominha, e, menina esperta, sempre soube que não come bem quem come sozinho).

O duende, grato pela bondade da menina, ficou curioso em saber porque ela parecia tão triste enquanto saboreava biscoitos tão gostosinhos e com recheio tão cremoso. Cinderela contou sua triste história e o duende, comovido, não hesitou. Com um salto, pulou vários metros no ar até a janela e soltou um assovia tão agudo que todas as janelas da vizinhança tremeram. Quando Cinderela que, assustada, tapara olhos e ouvidos para se proteger de som tão penetrante, abriu novamente os olhos, viu em sua volta todo uma cidade de duendes, todos tão pançudos, sorridentes e bigodudos quanto seu amigo original. “Você vai ao banquete!” disse então o duende! “Não tem como, não tenho carro” respondeu Cinderela. E os duendes saíram correndo para todos os lados e voltaram logo em seguida dentro de um Cadillac Fletwood Sixty Special Sedan Rosa de 1959, com bancos felpudos, buzinando sem parar. “Você vai ao banquete!”, falaram então vários duendes. “Não tem como, não tenho vestido”, disse então Cinderela. E os duendes, em segundos costuraram para ela um largo vestido cheio de babados e cetins e outras firulas. “Você vai ao banquete!” gritaram então vários duendes. “Não tem como, estou magra demais para esse vestido!” choramingou Cinderela. Os duendes então pularam todos em cima dela, a jogaram no chão e encheram sua goela de pastas e recheios e cremes especiais de duendes, até que Cinderela se viu tão cheinha quanto como era quando criança, e cabendo no vestido perfeitamente.

Enquanto isso, no banquete, as irmãs de Cinderela só davam vexame. As pobrezinhas não tinham conseguido mal terminar os ovos de codorna cozidos no azeite com alho e manjericão que servia de entrada, quanto mais encarar um dos vários pratos principais. E ninguém queria ouvir suas histórias chatas sobre Paris. O Príncipe, aborrecido, também ficava decepcionado ao ver que cada vez mais de seus súditos iam embora, ou caiam desabados debaixo das mesas, incapazes de acompanhar seu apetite. E ele nem tinha ainda mandado entrar o cordeiro assado no espeto, com recheio de miúdos cozidos no vinho tinto! Mas foi então que o grande refeitório real ficou todo em silêncio: pelas portas entrara uma linda garota, que ninguém do Reino reconhecia. Ela era fofinha como o Príncipe, seu rosto redondo tinha uma grande e belo sorriso e ela logo atacou os melhores pratos do banquete, enchendo a pança com os chocolatinhos, os pãezinhos, os ensopados, os quiches, os refogados, as carnes, os queijos, os pudins, as geleias, até as saladas não escaparam. Impressionado com tanta disposição para a comilança, o Príncipe pediu para que ela se sentasse logo à sua frente e dividisse com ele a pièce de résistance, o melhor prato da noite: o pernil de cinco quilos no molho picante de ervas. Com um sorriso cheio de bondade, a jovem, que não era ninguém menos que nossa Cinderela, pediu ao Príncipe permissão para comer primeiro. O Príncipe, caridoso deu permissão, achando que aquela menina logo se cansaria de toda aquela carne. Mas nada! Deliciada, Cinderela não só papou todo o pernil sozinha, como ainda esfregou um pãozinho no prato e fez um sanduíche com o molho.

O Príncipe estava apaixonado. As irmãs e a Madrasta de Cinderela, mordidas de fúria. Mas antes que sua Alteza pudesse perguntar o nome daquela jovem tão cheia de apetite, o relógio do castelo deu sua primeira badalada. Lembrando que ficar acordada de madrugada fazia mal para a digestão, Cinderela saiu correndo, ou andando rápido, tanto faz, para fora do castelo, deixando para trás o Príncipe que ficou entalado no trono e não conseguiu se levantar a tempo de impedí-la. Chegando em casa, Cinderela ainda descobriu que estava magrinha de novo… o feitiço dos duendes desaparecera, assim como todos os biscoitos, barras de chocolate e salgadinhos que tinha escondido pela casa, levados pelos duendes tratantes enquanto ela estava na festa!

Tudo teria acabado assim para Cinderela… se não fosse a obstinação do Príncipe, que não conseguia parar de pensar naquela linda moça, tão vivaz e bem disposta para comer! Ele nem olhava mais para as modelos magrinhas, atrizes de Holywood esqueléticas e princesinhas de dieta que eram enviadas ao palácio para conquistarem sua mão em casamento. Ele só pensava na beleza rechonchuda de Cinderela e no seu estômago sem fundo. Decidido, ele então declarou que iria ele mesmo localizar aquela misteriosa menina, atravessando o país para testar o apetite de cada menina no Reino.

Ao saber disso a Madrasta logo pensou que era essa a oportunidade para desencalhar as filhas e se livrar de vez de Cinderela. Por coisas do destino, a casa de nossa heroína foi justamente a última que o Príncipe visitaria, depois de ter se decepcionado meses à fio, visitando casa após casa habitadas por mocinhas com apetites tão pequenininhos, tão fraquinhos, que não conseguiam comer nem um peruzinho assado inteiro, ou que já se sentiam empapuçados com uma única fornada de empadinhas. A Madrasta, temendo a fome de Cinderela, ordenou que ela fosse mexer um cozido no grande caldeirão da cozinha, antes que o Príncipe chegasse e, quando a menina se inclinou sobre o pesado caldeirão de ferro, a cruel Madrasta a empurrou para dentro, tapando logo depois com a grande e pesada tampa de ferro que Cinderela, justamente por estar de dieta e se sentir tão fraquinha, não conseguia remover. Apresentou então ao Príncipe suas filhas Ana e Mia. O Príncipe, desanimado, ofereceu à Mia um prato de torresminhos com cebolinhas envoltas na sardinha de acompanhamento. A menina comeu um, fez cara de nojo, tentou comer e outro e já na primeira mordida, perdeu o controle, correndo para o banheiro enquanto a Madrasta malvada a xingava. Chegou então a vez de Ana que não teve mais sorte… ao encarar a lasanha quatro queijos com molho branco e carpaccio a pobre meninazinha até tentou e tentou… mas seu estômago não estava pronta para suportar tanto sabor e explodiu, isso mesmo, explodiu, deixando só uns fiapinhos da Ana flutuando no ar.

(”Mas, pelo menos, nunca esteve tão magra”, contemporizou a Madrasta malvada.)

Mais uma vez desapontado, o Príncipe já se conformava com a ideia de passar seu futuro sozinho. Triste, abaixou a cabeça e suspirou… e foi nesse suspiro que ele sentiu um cheiro leve, de algo cozinhando por perto. E como não vale a pena ficar chorando e de barriga vazia, o Príncipe decidiu que não custava fazer uma boquinha antes de ser infeliz para sempre, e correu para a cozinha, onde percebeu que o cheirinho vinha de dentro do caldeirão. Abrindo-o, que surpresa!, ele achou Cinderela que, presa lá dentro, decidiu que pelo menos podia fazer um lanchinho e sacou do bolso um pedacinho de bolo de cenoura e chocolate que guardava para emergências. A Madrasta ainda protestou que Cinderela era apenas uma criada, que não merecia a atenção de sua alteza e que não poderia ser ela a garota procurada, mas o Príncipe nem ligou. Ordenou que servissem logo àquela moça um strogonoff de filé mignon, acompanhado de rodízio de churrasco completo, com maionese e vinagrete. Feliz da vida, Cinderela papou tudo e, para a surpresa do séquito real, para o desgosto da Madrasta e felicidade completa do Príncipe, pediu sobremesa.

Daí, você já sabe. O Príncipe casou com Cinderela e tiveram muitos filhos, todos tão rechonchudinhos e gulosos quanto eles. A Madrasta malvada perdeu seu emprego e passou a trabalhar como vendedora externa de uma loja prêt-à-porter. Ana e Mia se recompuseram, fizeram terapia, ganharam peso, e hoje são casadas, gordinhas e felizes. E os duendes… esses foram presos por direção perigosa, roubo e estelionato, mas foram perdoados pelo rei e hoje trabalham fazendo doces, entradas e pratos magníficos para os concorridos banquetes reais.

E todos foram felizes e satisfeitos para sempre!

(Menos a madrasta).

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O blog está de volta.

Não, não devo satisfação nenhuma a vocês.

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Falta Cultura Para os Especialistas de Cultura da FOLHA

Não precisa acreditar em mim. Vocês podem conferir por si mesmos. Aliás, devem fazê-lo.

Folha de S. Paulo, domingo 12 de julho de 2009. No infográfico “Isto é Radcliffe”, na página E3 da Ilustrada, um dos supostos cretinos que trabalham no jornal lista os papéis do ator Daniel Radcliffe (o Harry Potter). E lá está escrito, exatamente assim: “Aos 9, representou o papel do mágico David Copperfield quando criança em uma série de TV”.

O que suscita duas perguntas:

- Que tipo de jornalismo cultural é praticado pela Folha, que emprega repórteres que nem sequer conhecem Charles Dickens?

- Que tipo de capacidade investigativa se pode esperar de um jornalista que vê “David Copperfield - série de tv inglesa” e ao invés de fazer a óbvia ilação com um dos maiores clássicos da literatura daquele país, chega a conclusão de que a BBC deve ter gasto tempo e dinheiro para fazer uma minisérie sobre a vida de um ilusionista norteamericano?

Aliás, o fato de que Radcliffe trabalhou em uma adaptação de Dickens não é segredo algum. É mencionado tanto no artigo sobre ele na Wikipedia quanto na Internet Movie Database. Pesquisa simples, de nem três minutos.

E reclamam que não é necessário mais diploma específico para ser jornalista… eu me contentaria se eles tivessem um ensino médio decente…

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Grey Gardens

* Grey Gardens é uma pequena joia do documentário mundial. Nem tanto pelo que mostra, mas por como ele faz para mostrar.

* A história de Grey Gardens começou com um pequeno escândalo de jornal. Em 1971 o departamento de vigilância sanitário do condado de Suffolk, Nova Iorque, realizou inspeções em uma velha propriedade litorânea, conhecida como Grey Gardens (os Jardins Cinzentos, em vernáculo). Composta por grandes jardins e um velho casarão, a casa estava tomada por lixo, detritos, gatos pestilentos e pulgas… além de duas moradoras idosas, Edith “Edie” Bouvier e sua mãe, Edith Bouvier Beale. Sozinhas na casa e incapazes de sustentar as necessidades de manutenção do casarão, elas deixavam a velha mansão ruir à sua volta enquanto vivam em condições precárias. Mas até aí a história não tinha nada de particularmente inédito. Coisas assim acontecem, em toda parte do mundo. O que conferiu publicidade ao caso e transformou a situação de Grey Gardens em um breve escândalo nacional foram os laços de sangue das Bouvier… elas eram nada menos que tia e prima de Jacqueline Bouvier… que na época já era mais conhecida como Jacqueline Kennedy Onassis.

* Foi aí que entraram na história os Irmãos Maisley. Considerados dois dos melhores documentaristas norteamericanos da época, Albert e David ainda colhiam os louros do sucesso alcançado por seu trabalho anterior, o seminal Gimme Shelter, que cobria a turnê da banda inglesa Rolling Stones que culminou na tragédia de Altamont. Ao tomarem nota do caso das Bouvier e de Grey Gardens, os Maisley acharam que seria interessante partir para a mansão novaiorquina e dedicar algum tempo de câmera para gravar o dia-a-dia daquelas duas mulheres. O documentário resultante alcançou aclamação crítica universal, por expôr não só a estranha e dramática existência das Bouvier, mas a própria natureza dos documentários.

* Na década de 60 e 70 existiam duas principais tendências documentais, que frequentemente se confundiam. O que os Irmãos Maisley faziam era “documentário direto”, um estilo de filme que tomou forma nas experiências do também norteamericano Robert Drew, autor de Crisis e Primárias. A proposta do documentário direto era realizar um registro sem interferência sobre o objeto documentado. Diferente de Robert Flaherty, que encenou passagens do clássico Nanook, o Esquimó, ou de Dziga Vertov que usava recursos visuais e de montagem para criar o objeto do seus documentários, a proposta originada por Drew era usar equipes mínimas de filmagem, gravando tudo da forma mais naturalista possível e sem influenciar o objeto filmado. Isso era possibilitado pelo desenvolvimento tecnológico da época, que proporcionava pela primeira vez acesso à câmeras de filmagem leves o suficiente para serem carregadas de um lado para o outro sem problemas, além da criação do Nagra, uma espécie de gravador do tamanho de uma maleta, que podia ser carregado preso à uma alça e foi o primeiro aparelho capaz de gravar som em cenas externas de forma eficiente.

Junto ao documentário direto, existia na França uma outra vertente documental: o cinéma vérité, ou cinema verdade, capitaneado por Jean Rouch e posto em prática em um dos mais importantes documentários de todos os tempos: Crônica de um Verão. Até hoje, críticos e jornalistas tendem a usar “documentário direto” e “cinéma vérité” como termos intercambiáveis, dado as semelhanças de execução dos mesmos. Mas Grey Gardens torna evidentes as diferenças entre as duas vertentes, por ser o filme que marca a transição dos Maisley de uma para a outra.

* A filmagem dos Maisley em Grey Gardens não pegou duas pobres velhotas desprevinidas que não sabiam muito bem o que estava acontecendo. As Bouvier tinham sido criadas em uma América de sonhos, nos Estados Unidos que hoje só se encontra nos livros de F. Scott Fitzgerald, Tennessee Williams ou filmes de Holywood. Edie mãe cantava, Edie filha tinha sido modelo e tentado ser atriz. Ao serem filmadas pelos Irmãos Maisley, o que elas revelaram não era tanto seu comportamento cotidiano, mas um esforço consciente de recriar uma certa aura de glamour sobre si mesmas. E é a contraposição entre esse senso de estilo anacrônico e datado e a evidente deterioração de Grey Gardens que gera o verdadeiro drama do filme, e torna pungente a situação das Bouvier. Os Maisley resumem bem a coisa ao abusar da imagem da bela pintura a óleo de Edie-mãe, que revela uma jovem de beleza ímpar, e que no momento do filme permanecia jogado em um canto do quarto, servindo como esconderijo para os gatos fazerem cocô.

E é nessa grande sacada de Grey Gardens que está a diferença entre a escola de Drew e a de Jean Rouch. O cineasta francês, ao criar o cinéma vérité, sabia que “documentário direto” não existia. Jean Rouch era antropólogo, tinha toda uma carreira em etnografia. Entendia muito bem que só o ato de observar um grupo de pessoas já bastava para mudar a forma como eles agiam. Observar com uma câmera então… Para Rouch a única forma de capturar o comportamento real de uma pessoa sendo gravada seria revelando o processo de gravação e usar esse processo para provocar reações que revelassem ações e atitudes espontâneas. Crônica de um Verão foi o ensaio da técnica; Grey Gardens sua brilhante aplicação.

Em Grey Gardens os Maisley se afastaram do ideal de objetividade imparcial do mentor Robert Drew. A presença deles na casa das Bouvier é evidente desde o princípio. Eles interpelam as documentadas, e aparecem em frente da câmera. E, em pelo menos em um momento, eles utilizam a montagem para criar uma cena que não existe. É no finalzinho, quando a Edie-filha está tendo uma longa discussão com a mãe, finalmente confrontando as bases da relação das duas que permitiram que a estranha situação de Grey Gardens persistisse. Enquanto Edie responsabiliza a mãe por tê-la obrigado a ficar na casa e afastado dela todos os pretendentes que teve quando jovem, ela olha para o lado e a câmera corta para um quadro na parede, com a imagem de Edie filha adolescente, bela e com um futuro brilhante. Ao voltar para a envelhecida e ressentida Edie da época, sempre coberta por véus que escondem sua calvície, o espectador não pode resistir a associar inconscientemente a cena a uma ideia geral de perda… perda da juventude, da beleza, de um universo de possibilidades. Mas é puro truque. Análise das outras cenas revela que a posição do quadro na parede torna impossível que Edie estivesse olhando para ele naquele momento.

Mas não se trata de enganação. Os Irmãos Maisley tinham percebido, como Jean Rouch, que a verdade não é algo que simplesmente se evidencia quando ninguém está olhando. A verdade tem que ser provocada a sair. A montagem daquela cena é uma inverdade factual; Edie não estava olhando para aquele quadro. Mas que revela uma verdade imanente: Edie sofria porque a vida tinha passado e abandonado ela e a mãe para trás, entre os muros decadentes da decrépita casa da família. Essa é a beleza de Grey Gardens. Quando Edie surge, mais de uma vez, dançando e cantando para as câmeras o que temos não é apenas encenação. É encenação contextualizada, cujo choque com as outras cenas, de briga, de manha, de desolação, forja um panorama completo sobre o desalento das Bouvier. É uma estrutura até romanesca, teatral, mas que é bem mais real e caridosa do que apenas documentar a miséria, o que criaria uma impressão de pena ou repulsa que não faria jus a personalidade rica e intrigante das duas mulheres. E tampouco recai na apologia pura e simples, ao permitir que o próprio espectador descubra, pouco à pouco, quem são as moradoras de Grey Gardens e desvende por si mesmo, por pedaços da história contados aqui e ali, como a situação delas chegou naquele ponto.

* Apenas um aviso final: ao procurarem o filme para assistir, e eu espero que tenha conseguido incentivá-los a isso, cuidado para não se confundir. Grey Gardens, o documentário, é uma obra-prima de 1975 lançado no Brasil pela VideoFilmes. Grey Gardens, a ficção, é um telefilme feito pela HBO com a Drew Barrymore e a Jessica Lange, que conta de forma “acessível” (i.e. mastigada e sem graça) a história das Bouvier, incluindo a produção do documentário dos Maisley. Se você quer melodrama bem-feito, fique com o segundo. Se você quer pungência, prefira o primeiro.

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