Eu era apenas uma criança quando, certo dia, despertei no castelo, sem possuir nenhuma idéia de como tinha chegado lá. Também não tinha um nome, ou outra lembrança que antecedesse aquele momento em que meus olhos pela primeira vez apreenderam a imensidão opressora das muralhas de pedra que me cercavam. Ainda assim presumo que, em minha existência, já devo ter conhecido outra coisa que não a rocha do castelo. Senão como poderia explicar essa vaga que me preenchia, essa vontade tão vasta de me achar enfim fora dali, andando ao ar livre e olhando para um céu limpo, não bloqueado pelas abóbadas tão distantes de minha misteriosa prisão?
Nunca encontrei outra pessoa no castelo. Ainda jovem, intrigado por minha bizarra situação, me dediquei a buscar outros habitantes dessa insólita construção, tão volumosa quanto labiríntica. No entanto, em todo tempo que aqui passei e que agora já deve somar mais de trinta anos, o máximo que me aproximei de ter contato com outra presença humana foi um indistinto som de passos distantes, acompanhados de rumores que podem muito bem não ter sido nada mais que produtos de minha imaginação excitada, e, às vezes, a inconfortável sensação de estar sendo vigiado, que me assaltava de forma inesperada e logo desaparecia ante a esmagadora evidência de minha solidão. Ainda assim, todo dia, na sala de jantar um lauto banquete me esperava, com comida fresca e variada e bebida forte e doce. Quem preparava essa mesa, não sei. Tentativas de esperar na sala de jantar pelo aparecimento dos meus criados invisíveis sempre foram infrutíferas, e só fizeram atrasar ou até comprometer totalmente minha refeição. A comida só surgia quando eu não estava na sala de jantar e nunca fui sequer capaz de determinar de onde ela vinha. Ligada ao salão monumental por uma porta, sem outros corredores ou saídas, só posso concluir que a sala de jantar deveria possuir alguma passagem secreta, por onde os elusivos espectros que preparam meus pratos iam e vinham sem se anunciarem. Mas nunca a localizei.
Não demorou muito para que eu desistisse de vez da busca por outros hóspedes, ou prisioneiros, do castelo. Me acostumei logo a minha singularidade e solidão e, por alguns anos, até mesmo passei a me sentir confortável entre os múltiplos e idênticos recintos de minha morada. As únicas janelas ficavam na distante abóbada do teto, e só permitiam a passagem de uma luz branca, difusa, de um sol que até então eu jamais conhecera. Assim, toda minha paisagem se resumia aos tijolos das paredes de pedra, aos arcos das várias entresalas, à escuridão assombrosa de corredores que se estendiam por milhas. Não existiam portas, nem saídas. O castelo era como um mundo infinito de antecâmaras e caminhos, no qual eu era o único morador. Em minhas explorações descobri muitos desses locais, apenas para constatar, decepcionado, que nunca traziam nada de novo… apenas a mesma rocha nua das paredes, o mesmo lusco-fusco entibado servindo de iluminação, a mesma sensação sufocante de uma antiguidade quase alienígena que permeava cada centímetro de rocha ao meu redor. Eu berrava, então, para que meu eco me servisse de conforto, para que minha própria voz refletida nos malditos muros que me cercavam criasse a ilusão tão necessária de multiplicidade.
Uma única surpresa, certa vez: foi quando, no topo de uma das escadarias que entrecruzavam as alas que cercavam o salão monumental, achei uma biblioteca. Era vasta, tão vasta quanto os infinitos corredores do castelo, com suas estantes monolíticas se erguendo imponentes vários metros acima de meu então diminuto corpo juvenil. Seus tomos, invariavelmente empoeirados, me encaravam altivos, como me desafiando a conquistá-los. Cansado do marasmo daquela fortaleza, me atirei aos livros com avidez, ainda que não pudesse precisar, e ainda não posso, como ou quando aprendi a ler. Mas tornei aqueles volumes incunábulos meus companheiros, meus parceiros de viagem, de convivência e de brinquedo. Foi lá que aprendi sobre o mistério desconhecido das árvores e dos cursos d´água, li sobre a sensação inédita da brisa contra o rosto e dos raios de sol repousando gentilmente sobre a pele. Perdido entre as estantes que nunca se acabavam, equilibrando romances e obras de referência entre os gravetos miúdos de meus braços, tomei a decisão que determinaria o curso e o fim da minha vida. Teria que abandonar o castelo. Descobrir uma saída.
Eu deveria ter pouco mais que quinze anos quando parti em minha primeira expedição. No impulso da juventude, cuja força motriz é tanto a confiança quanto a ignorância, me aventurei por aqueles corredores que não se acabavam mais, cobrindo milhas pelos caminhos impossíveis que quebravam e volteavam como serpentes em volta de sua presa. Depois de um dia andando por trilhas que não pareciam mudar ou ter fim, compreendi o erro que tinha cometido e, com fome e sede, busquei o caminho de volta para a sala de jantar e para os ambientes mais familiares onde eu tinha crescido. O castelo, cujo tamanho me humilhava com sua impossibilidade, seria um desafio bem mais complexo do que eu pensara a princípio. Com esforço, e não sem percalços criados pela frustrante semelhança entre as passagens e pela natureza labiríntica de sua arquitetura, consegui, após um dia e meio de viagem, retornar ao salão monumental que me servia de habitat principal e saciar, com sofreguidão, minha dolorosa fome e sede com a bem-vinda refeição que me aguardava na sala de jantar.
O desapontamento que me afligiu então fez com que eu desistisse de repetir qualquer empreitada do tipo por um período não inferior a dois anos… A natureza hercúlea da tarefa era por demais esmagadora para minhas sensibilidades de menino, e posterguei uma nova empreitada, enquanto permitia que meus dias passassem entre a biblioteca que não terminava, o banquete fantasmagórico e passeios inócuos entre os ambientes do castelo que já conhecia tão bem. Beirando meus anos de adulto, reuni finalmente a fortitude para tentar mais uma vez localizar e atravessar os limiares da construção que se erguia à minha volta. Preparei um gordo farnel com a comida obtida no jantar, e usei as páginas em branco de um livro, mais talheres e vinho para improvisar um mapa. Com cuidado e me sentindo confiante, parti para uma segunda expedição, novamente me entranhando nos corredores do castelo. Não me surpreendi ao ver que, mesmo após dois dias de viagem ainda não parecia ver nem sinal de uma saída ou coisa que valhesse no horizonte. Era apenas os mesmos arcos, as mesmas paredes e o mesmo teto, sempre se repetindo, virando em esquinas ou se estendendo langorosamente além do que minha visão podia alcançar. Após três dias de viagem, cansado e temendo o fim de minhas provisões, decidi tomar o caminho de volta, mas somente para me preparar ainda melhor e definitivamente mais determinado a resolver o enigma daquela cidade de rocha que, no fundo eu temia, podia até mesmo cobrir o mundo.
Durante os meses seguintes, fui construindo uma significativa reserva de comida, aproveitando boa parte dos banquetes milagrosos. Para minha fortuna, descobri que não apenas a comida e a bebida eram repostos milagrosamente a cada dia, mas também os talheres e a roupa de mesa ressurgiam se eu os subtraísse da sala de jantar. Pude assim confeccionar um largo saco que usaria não só para guardar minhas provisões mas também para arrastá-las em meu longo e difícil caminho, de forma que muito diminuíra a velocidade da minha exploração, mas me proporcionaria a possibilidade de carregar suprimentos suficientes para passar meses distante daquele festim misterioso. Após um ano, ou algo assim, reunindo comida e me preparando, parti novamente, resoluto e férreo em meus objetivos.
Não existe sentido em reviver em detalhes o enfado daqueles dias que se seguiram. Como mencionei, todos os corredores eram iguais, todos os caminhos confusos, complexos e arbitrários. Salas vazias sucediam salas vazias, trilhas ligavam salões vastos (mas sempre menores que o salão monumental de onde eu tinha partido) e a escuridão se adensava conforme me afastava cada vez mais do meu ponto de partida. Mas a idéia de retornar ao âmago do castelo, de dar meia-volta para a vida que eu vivera até então, me causava uma ânsia e uma profunda repulsa. Comendo muito pouco, para preservar ao máximo a duração de meu estoque de comida, eu me sentia frequentemente cansado e irrequieto, e não raro, no limite de minhas forças. Mas a possibilidade de sair dali, de enfim abandonar o castelo, me enchia de novas forças, me revitalizava de forma possante e assustadora. Mais do que tudo, eu tinha que fugir, entrar em contato com o mundo e deixar para trás a repetição insana de meu confinamento. Não me passava pela cabeça o perigo mortal que corria, de que minhas provisões acabariam muito antes de conseguir chegar a alguma saída, caso sequer existisse tal criatura. Ou melhor, me passavam sim essas idéias, mas apenas em um plano racional e prático, tão logo obnubilado por minha obsessão descontrolada em escapar.
Foram três meses de busca até que, finalmente, cheguei em uma porta. Minha surpresa transcendia minha capacidade de destilar emoções em palavras. Nunca antes, nos meandros do castelo, eu tinha encontrado uma porta. Ela era alta, larga, feita de madeira negra e robusta. Uma única alça de ferro, desprovida de adereços, surgia no meio de seu corpo. Tentei puxá-la, apliquei toda minha força, chegando mesmo a escorar meus pés contra a parede e usar todo o meu peso na tentativa de abrir aquele obstáculo tão fantástico quanto estático. Inútil… a maciça porta permanecia fechada, imóvel, desafiadora e altiva como uma esfinge. Ofegante, lembro-me de ter me largado ao chão, buscando fôlego enquanto revia minhas poucas opções. Não me parecia restar outra possibilidade que arrombar a porta, abrir meu caminho pela força e violência, uma vez que os métodos mais comuns tinham se mostrado falhos. Por sorte, tendo previsto a chance de um empecilho deste tipo surgir, eu tinha partido para minha viagem carregando um peculiar arsenal de talheres, amarrados e entrelaçados em conjunto até tomarem forma de algum tipo novo e inaudito de arma, uma fera exótica de metal e pano, infinitamente dentada e que, bem alimentada por minha fúria, se lançou com selvageria contra a sólida estrutura sombria que barrava minha passagem. Os golpes me exauriam, e causavam pouco dano, mas eu compreendia que aquela era minha melhor e, até então, única chance de descobrir uma saída de minha estranha situação. Assim, não permiti que as poucas ranhuras que meus ataques produziam provocassem em mim desânimo ou dessem voz à incipiente vontade de desistir. Perseverei, desferindo contra a porta ataque após ataque, até minhas armas se despedaçarem, até minhas mãos rasgarem. Após não sei quantos dias insistindo nesse embate infrutífero, compreendi que minhas provisões minguavam e não teria como sustentar meu cerco por muito mais tempo. Reuni minhas coisas e parti, mas não sem antes detalhar cuidadosamente o caminho que tinha seguido até ali. Pretendia voltar, com mais comida, mais ferramentas, e retomar minha luta contra a madeira que pressupunha inimiga de minha tão sonhada liberdade.
O caminho do meu retorno não foi dos menores dos meus suplícios. Minha trilha era marcada pelo sangue que fluía aos poucos, mas constantemente, de minhas mãos e pés. A fome aumentava na proporção em que a comida diminuía, e logo percebi que teria que me privar por dias de qualquer alimento, se desejasse que minha ração durasse o suficiente para permitir que eu retornasse vivo à sala de jantar. Cansado, sedento, eu alucinava vozes e galhofas semi-ouvidas, que me enchiam de terror e expectativa, mas não eram mais que o som de meus próprios passos e murmúrios loucos ressoando por aquelas galerias imortais. Quando finalmente entrevi as colunas familiares do salão monumental, se erguendo além da vista para sustentar a abóbada tão distante, minha alma foi preenchida de uma alegria e satisfação que nunca antes sentira nos dias de meu aprisionamento. Desabei no chão, aliviado e satisfeito, livre de todas as minhas forças e medos e esperanças, e dormi. Dormi profundamente, dormi de verdade talvez pela primeira vez no mundo. Na obliteração de minha consciência, que tanto já me pesava, não percebi os dias passarem, ou o corpo se curar. Apenas despertei quando minha fome já me causava dor, e segui para a sala de jantar, onde, sem dúvida, minha refeição me esperava. Saciei vontades há muito reprimidas e indulgi em um banquete farto, além mesmo das capacidades de meu estômago suportar, já que ele estava então acostumado às porções mais mínimas ou inexistentes de comida por dia.
Dediquei as semanas seguintes a uma lenta recuperação do duro ordálio ao qual tinha me submetido. Mas não podia, não conseguia tirar da minha mente aquela porta, cuja existência me estimulava tanto ódio quanto esperança. Logo iniciei os preparativos para mais uma bandeira, reunindo comida, saúde e coragem. Quebrei as cadeiras da sala de jantar, que sempre tinha considerado como uma piada insultosa… Afinal, para quê mais de uma cadeira, se naquele castelo eu era o único habitante, convidado e comensal? Ainda assim, elas existiam, circundando a mesa e rindo de minha ermida, sendo substituídas quando destruídas, no mesmo minuto velado em que a comida era distribuída, a mesa posta, e novos talheres eram colocados em seus lugares. Mas não as tinha quebrado apenas por raiva, ou algum tipo de diversão destrutiva e juvenil. Eu desejava suas pernas, seu espaldar, os feixes de lenha em cujas pontas eu prendia talheres de aço, improvisando diversas picaretas, mais apropriadas para a violência do meu intento. Estudei os livros da biblioteca, e me dediquei a um regime estrito de exercícios físicos, fortalecendo meus músculos para que meus golpes fossem mais potentes. Já tinham se passado então mais de vinte anos em que vivia daquela forma, e minha impulsividade juvenil por muitas vezes tinha me feito cogitar abreviar meus longos preparativos, partir logo para a distante paragem penumbrosa onde o portal me esperava, impávido. Mas, não, eu refreava meus impulsos, montava mais uma ferramenta de destruição, reunia mais comida. Enfim, quando eu me sentia forte e seguro, bem preparado e com muito mais suprimentos armazenados do que em todas as minhas viagens anteriores, me despedi mais uma vez de minhas salas usuais, e segui o mapa que me levaria, depois de três longos meses, ao local onde seria decidido meu destino.
O ímpeto da juventude, a audácia, a minha própria ansiedade em pôr aquela porta abaixo e desvendar os segredos que ela guardava fez com que a viagem de ida durasse muito menos daquela vez. Após parcos dois meses e meio, eu já retornava ao local de minha pitoresca descoberta. E a porta permanecia lá, aparentando não ter sido movida, como se nunca tivesse sido movida, como se fosse apenas uma estrutura natural que crescera, já trancada e muda, no corpo do monstro que era aquele castelo. A única mudança eram as marcas que eu mesmo tinha deixado na madeira negra e que denunciavam a fúria e a irregularidade de meus ataques. Já segurando a picareta na mão, e respirando fundo, eu decidira concentrar meus golpes em um só lugar, tentando abrir aos poucos um buraco ou fresta que eu usaria para abrir então uma passagem maior na monstruosidade de ébano, e que me permitiria vislumbrar, mesmo que de relance, que glórias ou mistérios aguardavam do outro lado.
Meus esforços se estenderam por anos a fio. Minhas ferramentas caseiras eram menos do que eficientes para a realização de minhas ambições. Não raro elas se partiam após poucos golpes, e o dano que causavam provou ser menor do que o esperado. Perdi muito tempo consertando minhas ferramentas, outro tanto planejando e confeccionando novas armas capazes de sustentar com maior propriedade meu assalto insistente contra aquela porta inimiga. Quando a comida começava a escassear era hora de iniciar o longo e doloroso caminho de volta para as salas onde primeiro tomei consciência de meu suplício, e novos meses passavam, enquanto eu dava início mais uma vez ao ciclo de preparação, expedição e retorno. Mas, não sem um certo orgulho, e não sem um amargo ressentimento, confesso que, em nenhum momento minha fé fraquejou. Alimentado por minha esperança, minha vontade permanecia resoluta. Vez por vez eu retornava aquele local amaldiçoado, e retomava minha furiosa peleja contra a aberração lenhosa em meu caminho. Aquela não era, afinal, apenas minha melhor chance de descobrir uma saída da fortaleza que me prendia e fustigava. No meu entender de então, era a única, já que a mera perspectiva de iniciar uma outra exploração por aqueles corredores e passagens que não acabavam mais me enchiam de profundo terror, dada a vastidão da tarefa e a incerteza do sucesso. Quantas vidas poderiam ser necessárias, eu pensava, para um homem se desincumbir da tarefa de vasculhar cada caminho naquela fortaleza desprovida de começo ou fim?
Era com esses pensamentos flutuando no mar revolto da minha mente que, cansado e exangue eu me deitava toda noite ao pé da porta, ou levantava acampamento, mal esperando o momento de retornar e retomar meu projeto de destruição. E, ah, até hoje não deixo de sentir o aguilhão cruel e ardido daquele dia marcado à fogo em minha memória, do dia da minha melancólica vitória e descoberta. Após tantos anos e tanto esforço, após longos estudos para aperfeiçoar cada vez mais o desenho e brutalidade de minhas picaretas, após abrir, aos poucos e pacientemente, como a gota d´água corroía a rocha, um buraco no monolito negro que tanto se opunha a minha passagem, finalmente eu atingira as margens da vitória, a minha maior vitória no que era, até aquele momento, uma coleção de confrontos fúteis contra a imensidão impossível de minha prisão. No corpo volumoso da porta uma profunda ferida se manifestava, resultado de dias e meses, anos e pouco menos de uma década de ataques precisos, fortes e furiosos. E, enfim, quando a picareta feita à partir de um pé de cadeira e talheres cruzou o ar e se chocou contra meu alvo ela finalmente fez o que por tanto tempo eu esperara. Um buraco se abria, uma pequena brecha, pouco maior que um dedo, mas que me permitiria vislumbrar o que eu desejava com ardor inimaginável, o que me fazia tremer de antecipação e fascínio. O outro lado, quiçá, a liberdade. Com vagar, repousei minha ferramenta no chão e me aproximei, as mãos suadas e trêmulas tocando devagar a porta, enquanto meu coração explodia repetidas vezes em meu peito. Com um suspiro longo, e tomando um profundo fôlego, encostei meu rosto cansado contra a porta e vislumbrei. E vi uma dor profunda, de um machucado que me fere até hoje.
Do outro lado da porta havia apenas outro salão monumental, com as mesmas colunas, os mesmos pórticos, capitéis e arcos a que eu estava tão acostumado. Em minha confusão, na insanidade que me tomou por um momento diante daquela visão infausta, cheguei até a cogitar que aquele salão era o mesmo de onde eu saíra, que minhas voltas e avanços por aquelas esquinas que não acabavam mais tinham apenas me enganado, feito eu andar em círculos e retornado ao ponto de minha desgraçada partida. Com o sal das lágrimas queimando em meu olhos, conferi meus mapas e não foi nenhum alívio verificar que eles estavam certos. Não, ao que parecia, aquele era mesmo um segundo salão monumental, uma segunda ala de um castelo que não parecia ter fim. Exausto, sem forças para me erguer ou viver, desabei no chão duro e, mais uma vez, dormi um sono sem sonhos e de repouso total. Mas dessa vez já não era por um cansaço do corpo, e sim do espírito.
Quando despertei, minha infelicidade era montuosa. A visão da porta, do dano que eu causara a ela e do rombo que eu abrira através dos anos, me repugnava. Mais motivado pela náusea profunda que tomava ao permanecer ali, levantei acampamento e parti. Durante a longa jornada de volta, cogitei desistir, rasgar o mapa e me perder naqueles labirintos, permitindo que a fome , aos poucos, me concedesse a única liberdade a que podia aspirar. Mas nunca o fiz. Parte de mim ainda pensava em si mesmo como jovem e forte, e ainda sustentava, embora talvez tolamente, esperanças. Quando retornei ao salão monumental original, e a tão conhecida sala de jantar, descansei. E dediquei os próximos meses a ponderar sobre minha situação.
Se tornava claro para mim que meu fracasso se devia ao fato de que ignorara a verdadeira natureza daquele castelo. Mesmo meu status lá dentro era de todo incerto. Eu era um prisioneiro? Ou o rei daquele lugar? Seria aquilo uma fortaleza para minha proteção, ou uma maldição que me afligia? Se eu suportava uma punição, porque meus algozes se preocupavam em me fornecer o melhor da comida e bebida, a mais completa biblioteca e não se preocupavam em coibir meus indisfarçados esforços para fugir dali? Talvez porque não houvesse possibilidade de fuga, eu assim concluía, diante da magnitude inverossímel daquela morada. Afinal, nenhum castelo existia no mundo que tomasse tantos milhares de quilômetros em sua extensão. Que pedreira poderia fornecer tanta matéria-prima? Que país poderia ter gerado braços o suficientes para construir aquele colosso? Como num relance de espírito, uma constatação chocante se lançou sobre mim. Não havia no mundo força ou nação capazes de perpetrar aquela construção, não sem esgotar seus recursos naturais, não sem fomentar a mais violenta revolução. Eu era, portanto, vítima de um encanto, um maligno embruxamento de natureza desconhecida. Aquela fortaleza era de todo mágica, com seus criados invisíveis, seu tamanho infindo e disposição cruel. Um ardil, do qual não era possível escapar.
Ou talvez tivesse. Cheguei a essa conclusão inesperadamente, em um dia em que, há muito conformado com meu destino, repousava em meio a livros dispersos no chão do salão monumental, saboreando ainda os prazeres de uma demorada refeição. Olhando para cima, para a abóbada longínqua sobre minha cabeça que deixava a luz de um sol abscôndito escorrer preguiçosamente até minha pele, percebi finalmente qual seria a rota de minha fuga, qual era a falha na insidiosa arapuca na qual eu havia crescido. Sim, talvez o castelo se estendesse de forma aberrante e impossível para todos os lados conhecidos pelo homem… mas não para todas as alturas. Acima de mim, a cúpula de cristal da abóbada reluzia, frágil e convidativa como as virgens paradisíacas que só conhecia dos contos. A altura, era verdade, anunciava um feito de coragem e força muito mais fatal do que qualquer um de meus confrontos anteriores. Mas, naquele momento, isso não se configurou para mim como nada mais que um irrelevante somenos… o desespero e a loucura de quem não tinha o que perder era que decidia por mim, e pedia para que eu me erguesse do meu pó e do meu chão, e alçasse vôo para a liberdade final.
Seguiu-se um novo período de preparação e treino, em que mais uma vez minha engenhosidade visava compensar minha falta de meios. A toilette de mesa e os talheres tomaram forma de cordas e aguilhões, capazes de me prender à parede rochosa do salão monumental e sustentar parte do meu peso. Ainda assim, logo percebi que maior porção do esforço dependeria de mim mesmo, da capacidade física de erguer minha massa com meus próprios braços e me movimentar com presteza pelas parcas ranhuras daquelas muralhas. Treinei exaustivamente, em alturas seguras, até me sentir preparado para mais uma aventura, a mais louca, a mais temerária. Não vejo razão, nas circunstâncias atuais, para dourar a verdade. Minha preparação tinha deixado muito a desejar, tanto em tempo total de treino quanto em desenvolvimento de técnica. Mas de que me importava? Se os anos de choque infrutífero contra uma porta tinham me rendido apenas desilusão, não perderia nem mais um segundo em implementar um plano que, embora dificultoso, me oprimia o peito com a simplicidade cristalina de sua execução.
Parti, segurando firmemente com minhas mãos cada fresta, cada protuberância nos tijolos rochosos contra os quais me espremia. Aqui e ali, prendia um conjunto de garfos ou facas, preparava um nó de segurança. Não precisei usar nenhum. Esquadrinhava cuidadosamente a parede em busca do meu próximo apoio, e me movia com cuidado e vagar. Antes que eu desse por mim, já estava diversos metros acima do solo, em posição perigosa e letal. Naquele momento me ocorreu um breve rompante de lucidez, e percebi que não possuía nenhum plano de descida. Mas não fazia diferença… ainda que minha escalada fosse forçosa e dolorida, que a pele de meus dedos rompesse rapidamente em chagas que marcavam a rocha com o sangue advindo do meu esforço, ainda assim eu subia, cada vez mais lépido, cada vez com maior precisão e a certeza de que não deveria voltar. Eu suava frio e meu pulso batia irregularmente, tomado de alegria, quando finalmente percebi a gigantesca abóbada translúcida sobre mim, a pouco menos de um braço de distância. Decorada com arabescos ininteligíveis, pouco se podia divisar através dela, mas eu percebia uma bola de luz, branca e distante, que só poderia ser o tão aguardado sol que iluminara tantos sonhos febris de minha infância. Sem olhar para baixo, temendo que a visão da altitude vertiginosa a qual minha angústia tinha me alçado pudesse me fazer fraquejar e cair, mantive meus olhos fixos em meu objetivo, enquanto apalpava cuidadosamente minhas costas, onde a última das picaretas aguardava seu uso. Eu a ergui no ar, sem perder um momento com hesitação ou temor. Sabia que um único momento de dúvida poderia me destruir. E estilhacei a maldita coisa com um único e certeiro golpe, os pedaços de vidro se dispersando pelo ar como uma mirabolante chuva de cristal. Vingado, remido pelo som da abóbada se estilhaçando naquele solo tantas vezes maldito, eu me ergui pela borda da abertura que criara e me preparei pela primeira vez para sentir o toque gentil do ar livre.
De imediato, fui tomado por uma intensa e lancinante dor. A luz do sol maligno incinerava minha carne, o ar frio e ríspido rasgava meus pulmões. Desnorteado, soltei a picareta, e me desequilibrei. Não esperava aquele ataque tão completo aos meus sentidos, nem imaginara que uma vida de reclusão nas profundezas do castelo poderia ter me tornado tão frágil, tão despreparado para a existência fora de meu casulo. Quedei-me como o Ícaro das lendas, meus olhos cegos lacrimejando de infelicidade e dor, minha face e pele tomada por bolhas. No meio da queda, minha corda de proteção se rompeu com um estalo, e me choquei pesadamente contra a parede. Pude ouvir nitidamente o momento em que os ossos de meu ombro se despedaçaram, e voltei a cair, chocando-me com um baque surdo no chão. O gosto férreo e viscoso de meu próprio sangue tomou minha boca e percebi que não podia mais me mexer. A dor sumira, já não sentia mais meu corpo senão como um estranho peso frio amarrado à minha consciência, mas tampouco podia movê-lo. Percebi que caíra sobre algo e, com um esforço inumano, pude erguer minha cabeça apenas o suficiente para entrever o grande fragmento de vidro que trespassava meu tronco, se erguendo no meio do meu peito como um promontório escarlate e terrível. E relaxei.
Agora, permaneço inerme, esperando a morte que não deve tardar em chegar. A respiração exige cada vez mais esforço, cada fôlego sendo resultado de um verdadeiro feito atlético. Posso sentir meu sangue se espalhando por debaixo de mim, empapando meus cabelos longos, e o frio se aproxima, rastejante, como se uma bola de gelo no lugar de meu coração espalhasse ondas de inverno pelos restos do que um dia foi eu. Morrerei sem ter desfrutado a liberdade por mais que um instante e sem saber se estava, afinal, condenado a uma prisão eterna ou sendo protegido de um mundo que me era infenso. Não importa. Fosse para fugir ou me proteger, em ambos os casos, fracassei. Daqui onde estou posso apenas mover levemente meu pescoço, o suficiente para ver na cozinha a comida que deixei para trás sem experimentar. Seu fedor me ofende, sua aparência me enoja… ela apodrece, coisa que nunca aconteceu antes. É sem dúvida vítima de bactérias que adentraram essa fortaleza pela primeira vez quando destruí o vidro e agora consomem seu repasto, e logo, consumirão meu corpo também. Não posso deixar de encontrar nisso um certo alento. As únicas coisas vivas nesse castelo além de mim, na decomposição e na morte eu tenho companhia, afinal.
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