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O Nome Dele Era Brasileiro

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira nasceu em 1954, em Belém do Pará. Dez anos depois, um golpe militar dirigido por setores conservadores da sociedade brasileira poriam fim ao que, até então, tinha sido a mais autêntica experiência democrática que esse país tinha conhecido. Seguiu-se então um recrudescimento cada vez mais autoritário e violento do regime. Pessoas foram exiladas de sua terra natal. Estudantes e professores foram caçados como criminosos e forçados à clandestinidade. Enquanto a propaganda oficial cantava as glórias de um Brasil, País do Futuro e campeão na Copa do Mundo, a camarilha suja que se instalara no poder passava leis como o infame Ato Institucional Numero 5 que, entre outras aberrações, autoriza o governo a prender cidadãos sem informar porque ou do que estavam sendo acusados. E, no meio disso tudo, Sócrates aprendeu a jogar futebol.

Mais que isso. Aprendeu a jogar futebol como ninguém. Como um dos melhores. Como uma lenda, que passaria para a história do esporte como um dos melhores meio-campo de todos os tempos. Sócrates era rápido, seu tamanho impunha respeito, mas o destaque do seu jogo era sua inteligência: dono de uma visão de jogo rara em sua agudeza, Sócrates via os adversários e os companheiros se movimentando em campo como peças de um xadrez veloz e complexo. Seu longos passes que atravessavam o campo para botar a bola no pé do jogador ideal para fazer o gol já lhe valeriam todo renome que alguém pode querer. Mas, na primeira vez em que Sócrates deu seu famoso passe para trás com o calcanhar, sem ver mas sabendo que o pessoal do time tinha movido como ele queria… Foi quando o mundo soube que Sócrates era um gênio da bola como não haveria outro.

Se revelou no Botafogo de Ribeirão Preto, onde, coisa rara para o futebol de ontem e de hoje, dividia seu tempo entre jogo e os estudos. Se formou em Medicina, em uma das nossas melhores faculdades, e ganhou o apelido de “Doutor” que carregaria pelo resto da carreira. No final da década de 70, entrou para o Corinthians. O time vinha de uma má fase. O folclórico e personalista dirigente Vicente Matheus acabara de deixar de vez a administração do clube, depois de oito mandados consecutivos, sem contar um mandato-fantoche feito através de sua esposa. Foi a oportunidade que Sócrates, Casagrande, Palhinha e o novo diretor de futebol, Adilson Monteiro Alves, precisavam para instalar um ousado modelo de autogestão, em que todo mundo, jogador, funcionário e dirigente, tinha direito a voto, e com o mesmo peso. Sob um regime ditatorial, em um ambiente que sempre fora marcado pelo autoritarismo e personalismo, Sócrates e seus amigos criaram um sistema que se destacava pela igualdade e pelo respeito: era a Democracia Corinthiana.

E não foi pouca coisa. A ditadura do final de 70-80 já tinha realizado concessões… mas não avanços. Embora alguns exilados estivessem sendo permitidos de volta, e artistas e escritores encontrassem mais leniência entre os censores, a democracia ainda era para inglês ver, a censura ainda existia, a tortura ainda grassava nos porões das delegacias. Apenas um ano antes da estreia de Sócrates no Corinthians, ocorrera o atendado no Riocentro, quando agentes militares tentaram, e falharam, plantar uma bomba em meio a um show comemorativo de Primeiro de Maio. O plano era matar e mutilar uns civis, culpar grupos guerrilheiros e usar isso como justificativa para apertar a repressão no país. A bomba explodiu antes do previsto, porém, e foi ouvida em todo Brasil.

E foi nesse contexto, com censura em vigor e a generalada insistindo que tudo estava bem, o comunismo era o mal e o Brasil era grande (embora o cheiro do povo fosse pior que o de cavalos, segundo o então presidente Figueiredo), que a Democracia Corinthiana tomou campo. E foram dois campeonatos paulistas seguidos, e passes mágicos, e gols fantásticos. E nas camisetas alvinegras, além do brasão náutico do primeiro time popular do Brasil, a segunda maior torcida do país, formada por operários e estudantes e donas de casa e jovens e velhos e empresários e intelectuais, via estampada frases como “Queremos votar para presidente”, “Democracia” e “Dia 15- Vote”. E empresas como a Globo, cujo vetusto Jornal Nacional fechava os olhos, calava a boca e fingia que milhares de pessoas não tinham marchado pela Praça da Sé pedindo pelo fim das eleições indiretas, era obrigada a ver o time corinthiano mandando sua mensagem para casa de cada espectador: “Diretas Já”. E, com isso, fez mais para levar o debate pela democracia ao povo do que qualquer artista, político ou intelectual.

Sócrates não ficou só no Corinthians. Jogou na Seleção de 1982, um dos melhores times de futebol de todos os tempos (e que perdeu, numa importante lição, tantas vezes esquecida, que vitórias não são a medida de um homem, mas sim o quanto ele tenta sem sacrificar sua integridade). Também fez parte do Flamengo e do Santos. Eu não vi nenhum dos seus jogos, pelo menos não na época em que ocorreram. Nasci em 1980. Quando me interessei por futebol, na década de 90, Sócrates já tinha se aposentado do campo, dedicando seus dias às atividades de comentarista esportivo e político e ao exercício da Medicina. Mas eu vi o que ele fez. Eu vi a coragem de levar a um povo que era mantido enganado pelo conluio de um governo e uma mídia corruptas a mensagem de que existia um outro jeito de se fazer as coisas. Que democracia funcionava, que igualdade era possível. Que o autoritarismo e a opressão são errados, e devem ser combatidos o tempo todo, seja com palavras, atos ou belas jogadas de futebol. Sócrates era um gênio da bola e um subversivo; ensinou que entretenimento pode também ser conscientização e não teve medo de arriscar a carreira e a vida pelo que acredita. Transformou o campo de futebol no campo de batalha, não de times, mas dos direitos e da liberdade de cada brasileiro. Vai ter gente que vai tentar transformar sua história em um conto caucionário sobre o vício, reduzir sua batalha a uma moral da história simplista e simplória. Mas não se engane. A história de Sócrates é essa: a de um homem que permitiu e teve fibra de fazer com que sua integridade e valor brilhasse em cada um dos seus atos, fosse um passe ou uma palavra. Que ensinou a um povo que não importa ganhar, traindo a si mesmo, e que há derrotas e vitórias maiores que as da batalha mundana do dia-a-dia, seja no campo ou em qualquer outro lugar.

Sócrates viveu, e hoje, Sócrates morreu. E eu sou grato a ele, por ter lutado por mim.

Notícias de Uma Guerra Pública, ou Como Aprendi a Parar de Me Preocupar e Passei a Amar o BOPE

* No momento em que eu escrevo, a polícia pôs em cerco um grupo revoltoso e armado, que resiste com violência insana e sem direção contra um massacre orquestrado por forças governamentais mais bem preparadas e que invadem o território em massa, contando inclusive com apoio do exército. Importante deixar claro: o momento em que escrevo é 2010. Porque o que acabo de descrever poderia se aplicar, sem nenhuma mudança, também à Revolta da Vacina em 1904, à Guerra de Canudos em 1897, à Revolta dos Quebra-Quilos em 1874, à Revolta dos Malês em 1835, à Guerra dos Mascates em 1710, a Comuna de Manaus de 1924 ou a Revolução de 24 em São Paulo… Querem que eu continue? Por que isso é só o que eu lembro de cabeça. Se precisar, posso fazer uma pesquisa. Material não falta.

* A conclusão a que podemos chegar diante desse triste cenário é vulgar de tão óbvia. Diferente do que o senso comum costuma ditar, a política brasileira jamais foi “leniente com bandido”. O uso de repressão violenta para conter grupos armados dissonantes é tradição brasileira das mais antigas e uma de suas instituições mais firmes. E se, apesar disso, grupos armados continuam se formando e a situação permanece se repetindo… Bom, desculpa estragar o clima insano de oba-oba, mas ouso sugerir é que talvez seja porque repressão violenta não funciona. Mandar o BOPE tomar favela não funciona. Cercar morro não funciona. Matar bandido não funciona. Eu sei que é legal ver os traficantes correndo, mas quer saber? Eles vão voltar ou, se não eles, algum outro grupo que vai tomar seu lugar, não menos arbitrário, ilegal e criminoso. Isso acontecerá porque o problema, o problema real, permanece intocado. Não são os traficantes, não é as drogas, nem sequer é a pobreza. O problema é que a favela é uma terra de ninguém, resultado do fato de que o Brasil tem muito governo e pouco Estado.

* Apesar de serem frequentemente usados de forma intercambiável, governo e Estado não são a mesma coisa. Governo, em sentido estrito, se refere ao poder de polícia, à força física, à coerção. É o autoritas, o poder que alguém tem de te forçar a obedecer e te dar um cacete doído se você se recusar. Elemento político dos mais básicos, governo existe em todo lugar. Estado é fera diversa. Estado é o conjunto de instituições administrativas, é a cidadania, é a lei, é quem detêm o direito de governar. Governo é a polícia e o exército, Estado é unidade básica de saúde, escola, saneamento básico, cartório e correio. Governo é um partido político, Estado é a nação. Governo é uma ação, Estado é um projeto. Governo é o Presidente, Estado somos todos nós. No Brasil, por razões históricas que vêem em seguida, o governo sempre foi avantajado… nunca faltou fiscal, milico, meganha e porrada. Mas o Estado permaneceu atrofiado, hesitante e, em alguns locais, ausente.

* Para entender melhor isso, preciso desmantelar outro mito brasileiro. Acontece que a chamada “elite brasileira” nunca existiu, salvo em inflmados discursos populistas e simplificações téoricas de esquerda. O que o Brasil sempre teve são elites, plural, um grupo não-homogêneo, com interesses distintos e cambiantes. A história do Brasil é a história dos embates entre essas elites, cada uma buscando preponderância para defender seus próprios interesses e lucros. No clássicaço fundamental “Os Donos do Poder”, Raymundo Faoro narra de forma detalhada e incrivelmente chata toda essa história… mas para poupar o saco de todo mundo, apelo pro resumidão básico: o Brasil, desde a colônia consistiu de uma elite local, com o poder fundamentado na ascendência econômica (senhores de engenho, fazendeiros do café, empresários da FIESP), e uma elite política, com o poder fundamentado na burocracia estamental (governador-geral, senadores do império, excelentíssimo senhor deputado). Embora muitas vezes essas duas elites tenham agido em concerto (alguns diriam conluio), seus objetivos primários, essenciais, sempre diferiram. A elite local sempre teve pouco interesse na criação de um Estado de grandes proporções, e fez de tudo para impedir, atrasar e sustar esse feito. Pela lógica, faz sentido. Um Estado de direito abarcando todo mundo e conferindo cidadania e lei para todo lugar acabaria com a discricionaridade do coronel local, do senhor de engenho, do fazendeiro de gostava de gozar do arbítrio supremo e único sobre suas terras. Por outro lado, a elite política brasileira surgiu a partir da burocracia estatal portuguesa, cujo único interesse era arrecadar impostos sobre a produção nacional e, claro, impedir que mercadorias escoassem sem dar seu devido quinhão ao el-Rei luso. Assim, o movimento da elite política sempre foi de se espalhar, centralizar, fiscalizar e diminuir o poder da elite local. Após a Independência, não houve grandes diferenças na atitude da elite política que permaneceu mais interessada em perpetuar a pilhagem do que repensar estruturas remanescentes do pacto colonial. E, embora a cara das coisas tenha mudado, essa dinâmica permanece quase inalterada até os dias de hoje. As falas sobre autonomia colonial deram lugar ao discurso pelo federalismo, durante o Império, e aos loas à favor do liberalismo, durante a República e até hoje… mas o sentido é o mesmo. As classes abastadas querem o governo longe de seus negócios. Já o governo, composto por políticos de carreira, gente que já nasceu deputado e que nunca fez mais nada na vida, defendeu a colonização, a centralização imperial e o desenvolvimentismo… Tudo código para a mesma noção de que a principal empresa no Brasil é o governo do Brasil, e seu peso econômico deve ser sentido em todo lugar, com todas outras atividades subjugadas ao lucro e crescimento do erário. Quinhentos anos de um cenário desses, só podia dar merda. E deu.

* Durante os primeiros trezentos anos, a época da Colônia, não havia interesse nenhum em implantar um Estado no Brasil. A ideia era só garantir o quinto da Coroa, e para isso bastava governo, muito governo, quanto mais autoritário melhor. Nem precisava diferenciar competências, era só botar todo mundo fiscalizando e cobrando, e pronto. Benfeitorias seriam por conta das Câmaras Municipais (Senados das Câmaras é o termo não-anacrônico), que não fizeram muita coisa, seja por falta de grana, iniciativa ou planejamento. Quando a colônia acabou, percebeu-se a necessidade de criar um Estado no país, mas encontrou-se aí a forte oposição das elites locais… que acabaram vencendo o embate de um século em 1889. A República, porém, também acabou tendo que ceder a necessidade de ao menos fingir tentar transformar o Brasil em um país de verdade… Mas os esforços foram tíbios, falhos, tímidos, equivocados, principalmente graças à grande resistência da elite econômica. O resultado direto disso é a infraestrutura esdrúxula desse país. Analfabetismo grassando, falta de hospitais, moradias. Até a década de 80, uma viagem rodoviária pelo Mato Grosso demorava algo por volta de três SEMANAS. Até hoje, o sistema de comunicações brasileiro é um dos mais custosos e menos eficientes entre as grandes economias mundiais.

Em grande parte, a culpa é dessa divisão das elites que descrevi. Uma de suas características é que ambos grupos são basicamente autosuficientes, até certa medida. As elites governantes sempre puderam prescindir do apoio econômico e impôr sua vontade, quando acharam conveniente (vejam a Revolução de 30, e a Ditadura Militar, para ficar nos exemplos recentes). Por outro lado, as elites econômicas também sempre puderam existir sem estado. A ausência de escolas não importa para quem pode exportar estudantes para Coimbra, e a ausência de estradas é problema que se resolve aumentando o preço do produto a ser vendido. Mesmo na República esse comportamento se manteve, perene. É fácil identificar, no Brasil de hoje, uma indústria paralela, à serviço das elites econômicas, e que funciona substituindo funções estatais: escolas particulares, hospitais particulares, segurança particular, transporte particular. O serviço público, esse é visto com ojeriza e desprezo… quando era professor, vi muito pai que preferia deixar o filho estudando em escola particular tosca e completamente inadequada a botá-lo em uma escola pública de qualidade (sintoma da obsessão por status que é um dos mais tristes traços do brasileiro). E, agora, nós vamos voltando à favela e se aproximando do ponto crucial… A criação de uma infraestrutura estatal é um processo caro, que envolve inversão permanente de valores. E, como o governo brasileiro é orientado como uma empresa, ele age da mesma forma que todos os outros serviços privados do Brasil: deixa de lado investimentos para as classes remediadas e pobres, dando preferência no oferecimento de serviços para quem pode pagar mais e bem. Ao invés de metrô, rodovias, ao invés de Conjunto Habitacionais, especulação imobiliária. No caso do governo, o pagamento não é direto, vindo na forma de tributação e taxas, mas a conclusão é a mesma: É mais rentável tributar uma escola particular do que gastar dinheiro com uma pública. Essa é a definição da privatização, como é aplicada no Brasil: atribuir ao setor privado a realização da função do Estado.

E quem não pode pagar? Como com tantos outros grupos sociais, pela história do Brasil afora, no Rio esse pessoal foi abandonado. Sem onde morar, foram se enfiar nos morros que não interessavam os ricos. Lá, ficaram sem saneamento básico, sem energia elétrica, sem serviços de comunicação, sem policiamento, sem opções de lazer e cultura, sem educação, sem atendimento de saúde, sem registro civil, sem formalização de emprego, sem cidadania. A favela nasceu e prosperou à revelia do Estado que, no pouco que existia, atendia com muita ineficiência e só para inglês ver (com forte ênfase no faraônica, em detrimento do prático e efetivo). Mais grave ainda, a falência institucional brasileira resultou em uma postura generalizada que faz com que o pessoal na favela, assim como as classes ricas, confundissem Estado com o governo, e passassem a se considerar alheios a um devido ao ódio ao outro. Não há necessidade de seguir leis ou respeitar instituições, pois tudo que é do governo é ruim. Exemplo lapidar desse fenômeno é a ameaça dos traficantes sob cerco no Alemão de que revidariam aos ataques da polícia destruindo Unidades Básicas de Saúde e obars do PAC. Ora, em nenhum outro lugar do mundo, um grupo territorial revoltoso combateria forças invasoras destruindo sua própria infraestrutura… Mas, no Brasil, a presença do Estado é a invasão. O teleférico, o hospital, eles são a primeira vanguarda do ataque, pois tentam recuperar para o governo funções que há muito foram usurpadas por traficantes… devido ao próprio desinteresse inicial do governo em assumí-las em primeiro lugar.

* Como sempre, eu não peço, e tampouco desejo, que vocês acreditem em mim. Antes, prefiro que ouçam em primeira mão. Basta assistir o definitivo documentário Notícias de Uma Guerra Particular, obra-prima brilhante de um dos melhores cineastas brasileiros, João Moreira Salles. Lá, um dos fundadores do Comando Vermelho, Carlos Gregório, o Gordo, diz exatamente com essas palavras: “O projeto era, todos os buracos deixados pelo poder, o Comando Vermelho entrar. [E fazer] tudo que o governo não faz.” O tráfico de drogas simplesmente foi a conveniente base econômica para esse paraestado se sustentar. Isso aliás explica porque a legalização das drogas não resultaria em nenhuma mudança positiva de larga escala no cenário brasileiro. Diferente do que alguns pensam, a legalização não geraria um paraíso de paz e amor rasta, com favelado e playboy de mão dadas viajando na esquina. O tráfico, cuja existência está condicionado ao vácuo de poder existente nas favelas, simplesmente buscaria outra forma de se pagar: contrabando, arregos, tanto faz. O que importa, o que gera a violência e favorece a criação do tráfico é a ausência de Estado na favela. É a ausência de cidadania e institucionalização. É o fato de que os favelados precisam fazer parte de algum país, mas o nosso, infelizmente, não tem interesse em integrá-las a ele.

* É por isso que a celebração midiática em torno dos ataques do Rio é de uma estupidez absurda, que só pode ser fruto de má-fé concatenada ou de ignorância de proporções épicas. O cerco do BOPE e da polícia apenas eliminam sintomas, sem causar sequer um arranhão no problema principal. Pior. Não existe nenhum sinal de planos para instauração de políticas públicas no Complexo do Alemão após a tomada da área. Ou seja, a polícia vai botar os traficantes para correr, colocando no local… quem? Bom, tendo em mente outro filme iluminado, Tropa de Elite 2, dá para se ter uma boa ideia. Para quem ainda tem a infelicidade de não ter assistido um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos, Tropa de Elite 2 narra a história de uma operação policial de larga escala no Rio de Janeiro, que termina eliminando traficantes de drogas no morro… mas para dar lugar a milícias comandadas por policiais corruptos, que assumem para si as funções paraestatais, com muito achaque, violência e coação. Profético? Não. Óbvio. Basta ler o texto referente aos episódios no Rio feito por Luiz Eduardo Soares. Ex-Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, Soares é também um dos co-autores de “Elite da Tropa” e “Elite da Tropa 2″, livros que serviram de base para os dois filmes de José Padilha. O post, Crise no Rio e o Pastiche Midiático, não só traz à luz diversos fatores e elementos que não tratei aqui, como deixa clara a situação: não se trata aqui de uma vitoriosa campanha para salvar a cidade. É uma simples transição de poder, em que um tipo de bandido está sendo substituído por outro, em nada melhor. Mesmo que, pressupondo no melhor estilo Poliana que a situação não é o que parece, e as forças envolvidas estão agindo com a mais impecável probidade em mente, ainda assim, nem o exército, nem o BOPE, nem a PM do Rio tem condições de ocupar a favela e preservarem o estrito cumprimento dos deveres ao mesmo tempo. As forças de ocupação, fatalmente, se veriam obrigadas a tomarem para si as funções estatais, para as quais não tem competência… Ou, se se recusassem, teriam de fechar os olhos para quem assumisse a tarefa. De um jeito ou de outro, o ovo da serpente choca.

Mas, é claro, eu sou só um diletante estudado. Se você preferir uma opinião semi-analfabeta, tem a Veja, anunciando que “O Brasil começa a vencer o crime”, ou o Jornal Nacional apresentando na tevê uma cartinha de moradora, saudando os “nossos heróis” da força militar. Sobre as vítimas civis, nada, em nenhum lugar.

Crime não se combate com crime. E doença não se cura tratando o sintoma. Não se enganem: o Brasil não está vencendo nada. É só mais uma iteração da mesma derrota de sempre.

* Por fim, só uma última coisinha. Muita gente em São Paulo observa os fatos no Rio com a tranquilidade e soberba pitoresca de uma população que acha que os problemas do Complexo do Alemão são tão distantes e alienígenas quanto uma conflagração na Faixa de Gaza. Mas quer saber? O Comando Vermelho começou do mesmo jeito que o PCC, que permanece plenamente operacional em terras bandeirantes. E toda aquela população do São Vito, da Cracolândia, das desapropriações dos últimos dez anos por conta da especulação imobiliária em São Paulo, bom, elas não simplesmente desapareceram no ar, sabe?

História. É sempre a mesma.

USP GREVE NÃO! IMOLAÇÃO SIM!

Todo ano a USP tem eleições para o DCE, Diretório do Centro Acadêmico. Todoa nos, as chapas concorrentes apresentam os mais diversos graus de alienação da realidade. Algumas vezes é divertido.

O assunto esse ano é a chapa da União Conservadora Cristã. Vocês podem se inteirar da história aqui. Vai lá ler, depois você volta. Voltou? Beleza.

Claro, até o momento eu não entendi muito claramente a proposta ideológica da chapa. Aparentemente, tem algo a ver com uma teoria do Ronald Reagan de que se nós imolarmos Fernando Henrique, Lula, Dilma, o cadáver do Gramsci e o Chico Burque, as greves na USP vão parar. Pô, faz sentido! E quer saber mais!? Tô dentro.

(Sempre achei Chico Buarque superestimado mesmo. É isso mesmo, falei.)

Sóa choq ue, se vamos queimar nossos ídolos, a lista atual da fraca. Assim, para ajudar a mais nova organização que apoio, para colaborar com meus camaradas, desculpe, confrades da União Conservadora Cristã, providenciei um novo pôster, mais abrangente, mais relevante, mais up to date:

Ajuda aí gente! Divulgue a causa Conservadora Cristã!

Minha Posição Sobre A Polêmica Envolvendo Monteiro Lobato

Sinceramente?

Monteiro Lobato era um velho reaça que esteve errado sobre absolutamente tudo em que meteu o bedelho. Tipo um Diogo Mainardi da Velha República. Nenhuma criança vai ter a vida intelectual comprometida por não ter contato com a obra dele. Eu não tive.

Mas, por outro lado, e considerando a polêmica mais recente envolvendo o livro “Cem Melhores Contos da Literatura Brasileira” eu desconfio que existe uma mafiazinha a mal-organizada da patrulha intelectual por aí… Eu sei como fato que as denúncias referentes aos “Cem Contos…” deram um belo passeio por aí, buscando algum juiz, promotor de justiça ou autoridade qualquer que fosse que tomasse a infeliz decisão de alimentar a polêmica. O fenômeno todo não é nem sequer pautado por ideologia. É mais resultado da acéfala união de governo e sociedade civil para tomar más decisões, cada um querendo eliminar o que mais lhe desagrada, seja sexo, racismo ou qual for o problema da vez. As crianças, claro, mal tem a ver com a história.

Não interessa o tema, censura é sempre a pior opção. É esconder debaixo do tapete, fingindo que é possível ignorar aquilo que é absurdamente evidente. Racismo existe no Brasil: não ler sobre Tia Nastácia na escola não vai impedir nenhuma criança brasileira, negra ou branca, de perceber isso, podem confiar em mim. Sexo existe no mundo inteiro: também não vai ser tirando um livro das mãos da molecada que eles vão ser encaminhados à abstinência e à continência. Melhor seria aproveitar a oportunidade única fornecida por esses livros para falar sobre esses assuntos, estimular uma leitura analítica, favorecer o desenvolvimento de uma capacidade crítica nos estudantes… enfim, EDUCAR. Que é a razão pela qual esses livros deveriam estar lá para início de conversa.

Censura nunca ajuda em nada. Censura, só estimula a ignorância.

E de ignorância, o Brasil já está bem.

Literatura Marginal

Dia desses estava andando por aí quando vi um cartaz que anunciava um debate sobre “Literatura Marginal”. Achei engraçado, sei lá. Afinal, “literatura marginal” é um termo esquisito. Ela indica a produção literária de autores que não fazem necessariamente parte do canône ocidental… Gente da contracultura ou de minorias oprimidas (de de países ricos… maiorias oprimidas pertencentes a nações subdesenvolvidas não são literatura marginal, é literatura “pós-moderna”).

Mas, e se lessêmos “literatura marginal” literalmente? Como a literatura produzida por marginais?

Bom, adivinha só, seria um campo literário razoavelmente vasto, e com vários luminares entre seus membros. Levando a ideia para frente, eu compilei uma lista com diversos autores famosos que, por uma razão ou outra, passaram um tempo no xilindró (ou pior), devido a algum entrevero com a lei. Seja por causa de dissensão política, perseguição por parte dos hômi ou por razões bem menos nobres, esses caras são os verdadeiros marginais da literatura. Vai vendo:

Ovídio (Publius Ovidius Naso)
Quem?: Talvez o mais famoso poeta latino depois de Vergílio, Ovídio é o cara que nos legou o clássico “As Metamorfoses”, base de onze entre dez livros de mitologia de hoje em dia… bem como os poeminhas safados de “A Arte de Amar”.
Acusação: Taí uma boa pergunta.
Pena: Exílio, em caráter permanente, para um buraco esquecido por Jove na Romênia.
Mereceu?: Vai saber. O problema com a história de Ovídio é que ninguém sabe ao certo POR QUÊ ele foi exilado. Simplesmente, um belo dia, o Imperador Augusto, muito de saco cheio da fuça do velho poeta, e sem consultar o Senado, usou da discricionaridade imperial para mandar Ovídio catar seus trapos e tomar o rumo da roça. As razões? Ovídio, que talvez achasse que era muito melhor ser um exilado quieto do que um morto falante, nunca abriu o bico. Teorias, claro, não faltam… é possível que Augusto tenha perdido a paciência com os versos sacanas do poeteiro, ou que Ovídio tenha tido um caso com quem não devia (a neta do imperador?). Uma teoria muito em voga é que Ovídio tivesse conhecimento sobre uma conspiração contra Augusto… e o exílio seria punição por sua participação, ainda que tímida, na intentona. O fato é que não sabemos. Só sabemos que Ovídio morreu no exílio, a verdade sobre sua desgraça caindo no silêncio junto a ele.

Dante Alighieri
Quem?: Escreveu a “Divina Comédia”, talvez o maior poema épico da humanidade. E, para todos os efeitos, criou a língua italiana.
Acusação: Aparentemente, pertencer ao partido errado.
Pena: Exílio perpétuo, com ameaça de morte no fim do período.
Mereceu?: Debatível. Nos dias de hoje, como nossa tradição democrática de pluralismo político, diria que não. Mas a Florença do século XIV era muito mais sangue nos óio. O fato de que Dante era um insigne aliado dos “Guelfos Brancos” fez a coisa ficar pequena para ele quando a cidade foi tomada pelos “Guelfos Pretos”, que defendiam uma forte aliança papal e pouca tolerância com adversários políticos. Por estar em uma missão diplomática em Roma quando a cidade foi tomada, Dante escapou do fio da espada, mas foi exilado de Florença e multado, o que lhe fez perder todas as posses na cidade. De quebra, enviados dos Guelfos Pretos deixaram claro que o retorno de Dante à cidade provavelmente envolveria morte agônica, com o poeta sendo amarrado e incinerado numa estaca. Fazer o quê? Dante morreu em Ravena, ainda exilado de sua amada cidade natal, que só o perdoou em 2008. Hoje em dia, Dante tem dois túmulos. Um em Ravena, onde está seu corpo, e um em Florença, vazio, que ainda aguarda, quem sabe um dia, o retorno do filho que expulsou.

Miguel de Cervantes Saavedra
Quem?: O autor de “Dom Quixote” é considerado o maior escritor da língua espanhola e inventor (ocidental) do gênero do romance.
Acusação: corrupção.
Pena: Alguns meses de cadeia
Mereceu?: Sim! Além de um gênio literário, Cervantes era também muito criativo em questões de contabilidade, principalmente quando envolvia o erário público. Quando trabalhou como fiscal para o rei, a falta constante de um noves fora acabou chamando atenção das autoridades, que o mandaram para o xilindró em pelo menos duas ocasiões distintas. Desagradável, mas nada que desanimasse Cervantes, que já tinha passado três anos como escravo após ser capturado por piratas argelinos. Depois do sucesso do Quixote, Cervantes saiu da falência e, até onde se sabe, fez as pazes com o fisco.

Luís Vaz de Camões
Quem?: Como assim “quem?”. Você não fez segundo grau? O gajo que escreveu “Os Lusíadas”, ora pois.
Acusação: agressão, indecência, apropriação indébita… a lista é vasta.
Pena: No total foram dois exílios, uma multa e algum tempo na prisão.
Mereceu?: Sim. Deixando de lado a visão romanceada do Almeida Garrett, que popularizou a imagem de Camões como herói romântico e um tanto byroniano, o fato é que Luisão era um portuga sacana. Foi exilado pela primeira vez em 1548, para aprender a parar de escrever poesia pornográfica e não se engraçar com mulheres da corte. Voltando a Lisboa, não conseguiu pôr sua disposição erótico-encrenqueira pra descansar e foi se roçar na esposa de um servo real. Uma coisa levou a outra e Camões acabou em um duelo, no qual, militar experiente, venceu facilmente seu opositor corno e almofadinha. O problema é que a vitória rendeu a Camões um processo por agressão, que o botou na cadeia e lhe rendeu vultosa multa. Após muita intervenção de sua família, que também tinha pés firmemente plantados no paço real, a pena de Camões foi reduzida a exílio por três anos em Goa, onde teria que servir nas forças militares. Pensa que o portuga aprendeu a lição? Que nada. Nesse período, o mesmo em que escreveu “Os Lusíadas”, Camões ainda teve as manhas de fraudar as contas da unidade militar que comandava, tentando garantir um pé-de-meia pro futuro. Aliás, foi voltando de seu julgamento em Goa, que Camões sofreu o famoso naufrágio onde perdeu sua amada Dinamene e quase perdeu seu livro.

Christopher Marlowe, vulgo “Kit Marlowe”
Quem?: Maior dramaturgo inglês de sua época, basicamente criou o teatro elizabetano. Autor de “A Tragédia de Doutor Fausto” e “O Judeu de Malta”, além de ser inspiração direta pra o jovem Will Shakespeare.
Acusação: sodomia, blasfêmia, conspiração… sem mencionar falsificação de moedas. Mas, acima de tudo, saber demais.
Pena: Prisão, mas tem quem diga que foi morte
Mereceu?: Provavelmente não, porque essa história sempre foi muito mal-contada. Tudo começou quando o dramaturgo Thomas Kyd, amigo de Marlowe e autor da “Tragédia Espanhola” que influenciaria “Hamlet”, foi preso sob acusação de blasfêmia, e, sob tortura, confessou fazer parte de um grupo de ateístas do qual Marlowe também seria integrante. Note que, na época, blasfêmia e ateísmo eram crimes gravíssimos, visto que toda a autoridade do rei, que também era o chefe da Igreja, se baseava no direito divino. Considerando ainda que Marlowe tinha considerável ficha corrida, sendo suspeito de sodomia, publicar panfletos espúrios contra a Igreja e, no passado, ter sido preso por falsificar moedas na Holanda, não teve jeito: Marlowe foi levado pra casinha. Agora a parte estranha é que, apesar de todas as evidências (montadas?) contra ele, o cara foi libertado poucos dias depois por ordem do próprio Conselho de Estado da Rainha. E dez dias depois, apareceu morto em uma briga de bar. Sei não. Considerando que, no passado, Christopher Marlowe foi um espião do governo, talvez tenha mais nessa história do que uma infeliz série de azares. Que cheiro de arquivo queimando é esse no ar?

John Milton
Quem?: Maior poeta épico da língua inglesa, e um dos seus maiores escritores. Autor de “Paraíso Perdido”
Acusação: traição, pura e simples.
Pena: Alguns meses de cadeia
Mereceu?: Merecia até mais! Milton foi membro ativo da Revolução Gloriosa que derrubou a monarquia inglesa e decapitou o rei Carlos I. Com o retorno da monarquia ao poder, os membros da Revolução se deram mal, muito mal… Entre prisões, decapitações e outros horrores, o regime restaurado achou tempo até para desenterrar o cadáver do líder da Revolução, Oliver Cromwell, e pendurá-lo como aviso nos portões de Londres. E que fim levou Milton, no meio de toda essa sanha de vingança? Por ser já bastante idoso, já estar cego, mais pra lá do que pra cá e devido a sua imensa popularidade na corte, inclusive a restaurada, o novo velho regime pegou bem menos pesado com ele. Optaram por botá-lo apenas alguns meses na masmorra, só pra ficar esperto. Acabou sendo produtivo… nesse período Milton teve tempo de sobra para imaginar seu grande poema religioso sobre uma revolução que falha miseravelmente… Todos os fatos semelhantes à vida real sendo mera coincidência, claro.

François Villon
Quem?: Simplesmente o fundador da poesia lírica francesa, e um dos pais da literatura moderna.
Acusação: assassinato e roubo. No mínimo.
Pena: Execução pela forca, depois comutada para exílio de Paris. Também passou um ano na prisão.
Mereceu?: E com honra! Talvez um dos tipinhos mais barra-pesada dessa lista, Villon tinha uma verdadeira e consolidada carreira criminosa, sendo inclusive membro de uma gangue de bandidos e assassinos. A primeira notícia que temos de suas desventuras é quando o homem, nada mais nada menos, matou um padre, enfiando um punhal em sua barriga durante uma discussão. Através de bons amigos e muito esforço persuasivo, Villon conseguiu perdão real por esse leve assassinato, mas continuaria na correria pelos anos seguintes, inclusive escrevendo poemas em jobelin, a gíria da bandidagem francesa da época. Nos anos seguintes, temos notícias de Villon se envolvendo em diversas brigas de rua e TRÊS assaltos… duas igrejas (parece que ele tinha um problema com padres) e um roubo à Faculdade de Navarra. A gota d´água foi quando, após ser afiançado pelo terceiro roubo, que o tinha posto na cadeia, Villon teve as manhas de, no mesmo dia de sua liberdade, se envolver em outra briga de rua. De saco cheio de tanta deliquência, e cientes da ficha corrida do homem, as autoridades condenaram Villon à forca. Com um pouco de boa-vontade, a condenação foi reduzida a exílio. E Villon partiu de Paris, sumindo no mundo… mas sumindo mesmo. A sentença de seu exílio é a última notícia que temos até hoje de François Villon.

Torquato Tasso
Quem?: Poeta italiano, autor de “Jerusalém Libertada”, base de uns três séculos de cultura europeia.
Acusação: ser mais maluco que o cavalinho.
Pena: sete anos de prisão
Mereceu?: Sim, senhor. Tasso era um poeta genial, dono de uma capacidade lírica inigualável, mas era também mais doido que o Batman. Dotado de ilusões persecutórias, o homem constantemente era fonte de embaraço e vergonha alheia para seus protetores, a orgulhosa família d´Este do Duque de Ferrara. Depois que Tasso sacou uma faca durante um jantar e tentou matar um servo do Duque, durante um transe paranoico, este decidiu que seu protegido estava indo longe demais, e decidiu mandá-lo pra cadeia, na esperança de que um tempo sozinho melhorasse sua cuca. Não funcionou, e Tasso fugiu, tendo ido vagar pela Itália disfarçado de mendigo. Quando finalmente voltou para Ferrara, Tasso foi novamente preso, desta vez no palácio de Santa Ana, lugar confortável, mas de onde não podia sair para divulgar suas teorias doidas por aí… que muitas vezes eram temperadas com um ou outro segredo de estado da família d´Este. Torquato Tasso só foi liberado anos depois, sem melhoras nas suas condições mentais.

Donatien Alphonse François, Marquês de Sade
Quem?: Aristocrata e militar, é autor de “120 Dias de Sodoma”, “Justine” e outras obras que, por seu conteúdo sexual e violento, geraram interesse e repúdio na sociedade por mais de três séculos.
Acusação: flagelação, sodomia e sacrilégio
Pena: Total de 26 anos encarcerado em diferentes instituições. Pena de morte foi sugerida mais de uma vez.
Mereceu?: Mais ou menos. O Marquês era mesmo um velho safado, mas suas prisões sempre tiveram um conteúdo político por trás (opa!). As primeiras condenações de Sade foram devido ao seu hábito de sodomizar e torturar servos e prostitutas. O embaraço de ter um libertino na família fez com que a madrasta do Marquês, que tinha lá seus interesses econômicos na história, obtivesse uma lettre de cachet junto ao rei, um documento legal que autorizava um nobre à ordenar a prisão de alguém, sem recurso admissível a qualquer instância legal. Sade passaria os próximos anos na cadeia ou fugindo dela, com breves intervalos para abusar sexualmente de empregados e empregadas na França e na Itália. Quando a Revolução chegou, as lettres de cachet foram abolidas, e Sade apreciou um período de liberdade. Seu erro foi ter se envolvido em política, inclusive se tornando membro da Convenção (a câmara dos deputados da francesada revolucionária). Azar. Quando Robespierre tomou o poder, acusou Sade de ser “moderado demais” (quem diria!?) e jogou o Marquês na cadeia, onde passou mais de um ano. O próximo, e mais duradouro, período de encarceramento de Sade seria durante o governo de Napoleão. Inflamado com o conteúdo pornográfico e subversivo dos romances do Marquês, que nessa época vinha se dedicando mais às artes, o imperador ordenou que Sade fosse aprisionado, sem direito a julgamento. Graças a muito dinheiro gasto, e muita saliva, a família do Marquês conseguiu transformar a pena em uma estadia duradoura no ameno asilo de Charenton, onde ele ficaria até o fim de sua vida, e produziria algumas de suas mais ambiciosas obras.

Voltaire
Quem?: Também conhecido no mundinho como François-Marie Arouet, Voltaire é um dos maiores escritores de todos os tempos, tendo produzido romances, poesias, ensaios, peças…
Acusação: injúria
Pena: prisão perpétua, comutada para exílio
Mereceu?: Não, foi tudo um exagero. Veja bem, Voltaire sempre foi um boca frouxa. Em seus escritos políticos, o autor e pensador francês nunca se furtou de expôr, de forma explícita, seus agravos à sociedade francesa… à política francesa… à justiça francesa… e por aí vai. Pior, Voltaire praticava a nem sempre sábia arte de dar nome aos bois, e não deixava insulto sem resposta. Isso irritou a nobreza, alvo constante das críticas de Voltaire, o suficiente para que procurassem uma lettre de cachet contra ele, diligentemente concedida pelo rei Luís XV. Encarando a possibilidade de prisão por tempo indefinido, Voltaire conseguiu convencer seus desafetos a aceitarem um mero exílio de Paris. Após uns anos, quando a poeira tinha baixado, Voltaire voltou, mais cuidadoso com as palavras, mas também imbuído de um espírito de justiça ainda mais firme. Tinha aprendido que a famosa frase de DeGaulle, “não se prende Voltaire”, não representava a realidade dos fatos.

Daniel Defoe
Quem?: Romancista inglês de primeira hora, você deve conhecer Defoe como o autor de “Robison Crusoé” e do genial “Diário do Ano da Peste”.
Acusação: incitação de genocídio, talvez?
Pena: o pelouro.
Mereceu: Não, mas tudo bem. Além de ser um dos primeiros romancistas ingleses, Defoe tinha uma larga produção de panfletos satíricos, muitas vezes com aquele tipo de humor sagaz e cruel que faz gente poderosa tremer nas bases. Hoje em dia, isso dá processo, mas antigamente o pessoal tinha uma aproximação mais, digamos, prática para as coisas. Quando Defoe publicou um panfleto sugerindo (ironicamente) que o jeito mais fácil de lidar com os dissidentes da Igreja Anglicana era matar todos, foi a gota d´água. Alguns partidários dos dissidentes em altas posições de poder arranjaram para que Defoe fosse condenado ao pelourinho, aquele pilar de rocha no centro da cidade onde delinquentes eram por vezes submetidos à humilhação pública. Mas você acha que isso abalou Defoe? Nada disso! Segundo as lendas, em uma das maiores demonstrações de aplomb e superação da história, Defoe aproveitou sua estadia sob o opróbrio das gentes para compor o poema “Hino ao Pelouro”, que tanto comoveu o povão que, ao invés de atirar tomates estragados na cara do escritor, lhe depositou flores aos pés. Tudo bem, pode ser que isso nunca tenha realmente acontecido… mas é fato que Defoe saiu do pelouro mais popular do que antes, e prestes a iniciar uma brilhante carreira.

Johann Schiller
Quem?: Dramaturgo alemão, autor de “Os Bandoleiros” e peça fundamental na construção do movimento Stürm und Dang, que revolucionou a literatura germânica e serviu de estopim para o romantismo.
Acusação: abandono de posto
Pena: Ficou uns meses na cadeia, mas fugiu.
Mereceu?: Sim. Membro do exército, ao invés de permanecer estacionado no posto como deveria, Schiller fugiu para assistir a estréia de uma peça de sua autoria. Só que descobriram e resolveram jogar ele no xadrez, pra deixar de ser besta. Schiller fugiu e passou o resto da vida evitando a área desses acontecimentos, com medo de que resolvessem trancafiá-lo outra vez.

Henry David Thoreau
Quem?: Ensaísta da Gringolândia do Norte, é autor de “Walden”, uma apologia da vida junto à natureza e de “Desobediência Civil”, livro-encrenca que inspirou tipos como Gandhi e Martin Luther King, Jr.
Acusação: sonegação.
Pena: uma noite na prisão.
Mereceu?: É uma questão de princípios. O problema é que Thoreau era um homem de integridade intelectual. Ele acreditava que o bom era morar no mato, então ele morava no mato. Ele acreditava que as pessoas tinham que ser decentes umas com as outras, então ele era reconhecido como o cara mais gente fina da cidade. E ele acreditava que os Estados Unidos deviam abolir a escravidão e não ter iniciado uma guerra contra o México, e por isso ele não pagava o imposto de capitação que existia na época para financiar atividades do governo. Depois de seis anos de sonegação, o fiscal da receita pediu a Thoreu para que saldasse sua dívida, que consistia do absurdo montante de um dólar e uns trocados. Thoreau, fiel a suas crenças, se recusou, e o fiscal foi obrigado a jogá-lo na prisão. Segundo as lendas, Ralph Waldo Emerson, o maior ensaísta norteamericano e amigo de Thoreau, teria ido visitá-lo na prisão e, ao perguntar “Henry, por que você está aqui?”, teria ouvido como resposta apenas um seco “Waldo, por que você não está aqui?”. De qualquer forma, no dia seguinte, Thoreau foi solto, após pagarem uma fiança bem superior aos impostos que o tipinho encrenqueiro se recusara a desembolsar.

Fiodor Dostoiévski
Quem?: Autor de “Irmãos Karamazóvi” e “Crime e Castigo” é considerado o maior romancista da Rússia… e, provavelmente, do mundo.
Acusação: traição e subversão
Pena: Execução (falsa), comutada para quatro anos de prisão na Sibéria.
Mereceu?: Pior que não. Realmente Dostô, em sua juventude, andava com uns tipinhos comunas subversivos, o chamado Círculo de Petrashevski (que levava o nome de seu fundador). Mas só a paranoia feroz do regime czarista conseguia ver naquele bando de estudantes e professores de literatura, muito mais familiarizados com Hegel do que com Molotov, uma ameaça à vida do czar ou de seu regime. Dostoiévski e seus “comparsas” foram capturados, sentenciados à morte e submetidos a uma execução falsa… Foram levados até um descampado congelado, vendados, e lá esperaram enquanto soldados se preparavam para atirar neles com balas de festim. Após essa traumatizante experiência, os terríveis subversivos foram enviados para um campo de trabalhos forçados na Sibéria. Após alguns anos, Dostoiévski voltou com terríveis lembranças, uma esposa e ótimas ideias para livros. Ainda assim, desconfio que Dostô preferiria não ter passado por todo esse perrengue.

Paul Verlaine
Quem?: Poeta francês, de tendências parnasianas. Considerado um dos maiores gênios líricos da França.
Acusação: tentativa de homícidio.
Pena: Dois anos de prisão.
Mereceu?: Ah, sim. Verlaine era um grande poeta, um francês e, como sói nesses casos, uma grande biba. Durante a maior parte de sua vida, as relações homossexuais consistiram apenas de casos passageiros, amantes que não influíram no seu casamento hetero aceitável pela sociedade da época. Até que Verlaine conheceu o jovem, ousado, talentoso e descontrolado poeta Arthur Rimbaud. Apaixonado além de suas forças, Verlaine largou mulher e filho e foi viver com Rimbaud, viajando pela Europa e deixando escândalo por onde passavam. Infelizmente, Rimbaud e Verlaine estavam mais para Sid e Nancy do que para Romeu e Julieta… Ambos dotados de temperamentos irascíveis, as brigas de casal se tornaram constantes, ao ponto que Verlaine começou a beber frequentemente para escapar dos problemas conjugais. A situação chegou ao cúmulo quando um dia, bebaço, Verlaine discutiu mais uma vez com seu paramour e, já de saco cheio das putarias e do papinho cafa de Rimbaud, sacou uma arma e deu-lhe dois tiros. Por sorte, Verlaine atirava mal e estava torto de tanto mé, e Rimbaud saiu do atrito com apenas dois ferimentos leves no punho. O resto é história típica de briga de casal: Rimbaud denunciou o amante, depois mudou de ideia, mas era tarde demais; o juiz sentenciou Verlaine à dois anos de prisão. O namoro acabou, Verlaine virou cristão e Rimbaud abandonaria a literatura para se dedicar ao excitante e promissor ramo do contrabando internacional de armas. Como podem ver, apenas outra bela história de amor.

Oscar Wilde
Quem?: Autor e ensaísta inglês. Foi dele que saiu “De Profundis”, “A Alma do Homem Sob o Comunismo”, “O Fantasma de Canterville”, “O Retrato de Dorian Gray”, “A Importância de Ser Prudente”, e vasta coleção de aforismos…
Acusação: sodomia
Pena: dois anos de trabalhos forçados
Mereceu?: Não. Realmente Oscar Wilde deixava a porta dos fundos sempre aberta, mas se isso era crime metade da Inglaterra devia estar atrás (óia!) das grades. Wilde só foi preso porque cometeu dois erros graves. Primeiro, se envolveu com a pessoa errada: Alfred Douglas, filho do poderoso Marquês de Queensberry (criador das regras do boxe!), que passou a ameaçar continuamente Wilde para que deixasse seu garoto em paz. O segundo erro foi quando Wilde, pouco disposto a suportar as cada vez mais ofensivas e abusivas ameaças de Queensberry, iniciou contra ele um processo de injúria. O problema é que injúria é um crime que admite inversão da prova, ou seja, Queensberry poderia se livrar do processo se provasse em tribunal que Wilde era mesmo uma coisinha rycah do papai. E foi o que ele fez: contratando detetives para devassar a vida de Wilde, e seguí-lo por aí, Queensberry apresentou como sua defesa um belo montante de depoimentos e fotografias provando as relações homossexuais de Wilde com Douglas, bem como diversas outras pessoas, incluindo gigôlos de rua. Considerando que sodomia era um crime segundo a lei inglesa da época, Queensberry foi inocentado e Wilde foi processado logo em seguida, sendo condenado a dois anos de trabalho forçado. Após o término da pena, Wilde abandonou a Inglaterra, morrendo alguns anos depois, talvez como resultado de ferimentos contraídos na prisão.

Euclides da Cunha
Quem É?: Engenheiro, jornalista e escritor, é o autor de uma das maiores obras brasileiras, a monumental descrição da Guerra de Canudos entitulada “Os Sertões”.
Acusação: Homicídio, tentado.
Pena: Nenhuma. A tentativa não acabou bem pra ele.
Mereceu?: A pergunta é prejudicada, porque Euclides da Cunha morreu antes de ser punido pela sua desastrada tentativa de assassinato. Acontece que Euclides, apesar de ser dotado de um gênio intelectual que seria louvado e admirado por todo século XX, não era tão talentoso, ou perceptivo assim, quando se tratavam de assuntos domésticos. Tipo ensimesmado e pouco dado a arroubos de afeto, ele dificilmente seria o marido dos sonhos de Ana Emília Ribeiro, com quem casou mal saída dos cueiros. Tampouco ajudava o relacionamento o fato de que Euclides passava longos períodos distante de casa, envolvido em projetos de engenharia ou pesquisas para seus livros. O resultado disso tudo foi que Ana acabou por se envolver romanticamente com um jovem cadete do exército, amigo de seu filho mais velho, chamado Dilermando de Assis. O caso dos dois perdurou por anos, rendendo inclusive dois filhos que Euclides, na ignorante glória de sua cornice, jurava que eram seus, apesar da escandolosa diferença fisionômica entre ele e as crianças. A desgraça, como sempre nesses casos, só se deu quando Euclides, que como ensina o ditado foi o último a saber, enfim soube. Decidido a acabar com aquela pouca-vergonha à base do chumbo, Euclides surpreendeu Dilermando e Ana em sua própra casa. Plano ruim, diga-se de passagem. Enquanto Euclides era um tipo livresco, mais mortífero em intenção do que habilidade, Dilermando era um soldado treinado e na ativa, campeão de tiro ainda por cima. Euclides errou seu tiro. Dilermando, não. Mais tarde, Dilermando foi inocentado da morte de Euclides alegando legítima defesa, se casou com Ana, daí Ana se separou dele porque descobriu que Dilermando a estava traindo (tudo é muito irônico neste mundo) e o Wolf Maya fez uma mini-série para tv chamada Desejo que resume toda essa história.

Isaac Babel
Quem É?: Autor russo, foi o cronista da experiência judaica no Leste Europeu e é considerado um dos melhores contistas da literatura. Autor de “A Cavalaria Vermelha” e “Contos de Odessa”.
Acusação: conspiração, espionagem e sabotagem artística
Pena: Execução e esquecimento.
Mereceu?: Não. O caso de Babel é exemplar com relação aos abusos cometidos contra artistas durante o Grande Expurgo perpetrado pelo regime stalinista. Babel já era então um autor renomado, autor de livros e peças de sucesso, tanto na União Soviética quanto no resto da Europa. Contra ele havia apenas uma acusação de obscenidade, provocada por um conto considerado excitante demais por um censor pudico, e o mau hábito de pular a cerca, principalmente com a esposa de Nikolai Yezhov, então chefe da NKVD, a polícia política que foi antecessora imediata da KGB. Foi o ciúmes de Yezhov que pôs Babel na lista de investigados do governo pra início de conversa… mas o corno em questão não teve muito a ver com a prisão do escritor. Babel foi tirado de cena por causa de seu crescente, e cada vez mais vocal, descontentamento com os rumos do regime stalinista, e pela sua recusa silenciosa em enquadrar sua arte nos ditames do realismo soviético. Finalmente cansados de tolerar a baixa produtividade literária e temerosos da influência de Babel nos círculos intelectuais, o autor foi levado de sua casa uma noite por agentes secretos, no estilo clássico da União Soviética. Na prisão, Babel assinou uma confissão que revelava que ele era um espião francês, envolvido em um plano trotskista para derrubar o regime, e implicando diversas outras personalidades do meio artístico e intelectual soviético. Essa confissão, coberta de manchas de sangue, não foi levada muito a sério nem em sua própria época, mas isso não impediu que Babel fosse condenado em um julgamento de vinte minutos à portas fechadas, no escritório de Lavrentiy Beria, novo chefe da NKVD. No dia seguinte, Babel foi fuzilado, seu corpo enterrado em vala comum e seu nome declarado anátema… No melhor estilo Orwelliano, qualquer informação sobre Isaac Babel, um dos maiores escritores de seu tempo, desapareceu das enciclopédias e dicionários literários de toda URSS, como se ele nunca tivesse existido. O mesmo ocorreu com seus livros, peças e até um filme, que ele tinha roteirizado (e que foi, posteriormente, lançado com seu nome ausente dos créditos). Anos depois, na década de 50, o caso contra Babel foi considerado improcedente, e se iniciou a longa reabilitação que devolveria seu legado ao lugar de direito entre os escritores do século XX. O que é bom, mas está longe de ser um final feliz.

Graciliano Ramos
Quem É?: Autor de “Vidas Secas”, “Angústia” e “Memórias do Cárcere”, é um dos melhores escritores da língua portuguesa e uma das maiores forças literárias brasileiras do século XX, sendo reputado como inventor do regionalismo.
Acusação: na prática, nenhuma. Teoricamente, subversão.
Pena: um ano de prisão
Mereceu?: Não. Graciliano acabou pagando o pato por causa das trapalhadas de outros, em um caso tipicamente brasileiro de punir gente inocente quando gente culpada não está fácil de achar. Nesse caso, Graciliano foi para cadeia por ter sido arrolado entre os conspiradores que teriam apoiado a Intentona Comunista, a tentativa, ocorrida em 1935, de oficiais do exército liderados por Luís Carlos Prestes de derrubar o governo de Getúlio Vargas. Prestes foi prontamente derrotado, e Vargas iniciou uma caçada implacável por políticos, intelectuais e oficiais com tendências comunistas, usando a Intentona como uma desculpa para fazer um expurgo ideológico no país. De alguma forma, Graciliano acabou caindo na lista, apesar de, na época, não ser ainda membro do Partidão e, obviamente, não ter nada a ver com os planos de Prestes. Na verdade, a ligação de Graciliano com a Intentona era tão tênue que o governo Vargas nem sequer chegou a formalizar uma acusação contra o escritor. Durante o ano de detenção que se seguiria, Graciliano ficou preso por razão nenhuma, não sendo indiciado por nada e sendo, portanto, incapaz de se defender. Felizmente, Graciliano foi libertado em 1936, ainda sem nunca ter recebido uma acusação formal.

Bruno Schulz
Quem É?: Considerado por alguns como “o Kafka polonês”, Schulz foi pintor e escritor, autor de dois ótimos livros de contos: “Lojas de Canela” e “Sanatório”.
Acusação: …ser judeu?
Pena: Morte.
Mereceu?: Não, nem um pouco. O mais triste da história de Schulz é que o crime contra ele não foi nem sequer uma injustiça individual. Schulz, um talento promissor, de criatividade complexa e única, morreu vítima da arbitrariedade e ódio nazista, como tantos outros judeus poloneses durante a ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Verdade que Schulz quase escapou desse destino mórbido: aprisionado no gueto de Drohobycz, com tantos outros dos seus, o talento de Schulz para pintura atraiu a admiração do SS Hauptscharführer Felix Landau, que o botou sob sua proteção e encomendava frequentemente a produção de gravuras e murais para o artista. Mantida essa situação, Schulz poderia ter escapado da guerra vivo e cumprido a promessa de grandes feitos literários prometidos pelos seus primeiros trabalhos, incluindo aí a conclusão de seu romance inacabado e perdido, “O Messias”. Mas infelizmente, Landau, além de admirador das artes, era um completo e irremediável monstro. Seu passatempo de escolha no gueto de Drohobycz era atirar com seu rifle em judeus passando pela rua, sem nenhum critério especial além de oportunidade e entretenimento. Em uma dessas matanças aleatórias, Landau assassinou um prisioneiro que servia como dentista para um outro oficial da SS, Karl Günther, que resolveu não deixar o insulto barato. Günther procurou Schulz e o matou em uma esquina, com dois tiros na cabeça. Ao ser questionado por Landau qual a razão para ter feito isso, Günther apenas respondeu: “Você matou meu judeu. Eu matei o seu.”

Ezra Pound
Quem É?: Poeta e crítico norte-americano. Foi fundador de diversos movimentos de vanguarda, como o imagismo e o vorticismo, e influenciou e divulgou os trabalhos de e.e. cummings, T.S. Eliot, Ernest Hemingway. Robert Frost, Gertrude Stein, Ford Madox Ford e James Joyce… nada mal. Nada mal MESMO.
Acusação: alta traição
Pena: 13 anos em um asilo psiquiátrico.
Mereceu?: Provavelmente merecia até mais. O caso de Pound é um tanto complicado. Um gênio de potência intelectual formidável, Ezra Pound foi a força motriz por trás do movimento modernista. Suas críticas, seus ensaios, seu apoio e suas defesas constantes das obras de seus colegas escritores ajudaram toda uma geração de gênios a dar forma e coesão ao movimento artístico mais importante do século XX. No entanto, a potência intelectual de Pound era por vezes perigosamente guiada por paixões discutíveis… Não é nem caso aqui de falar de sua bigamia. O que pegou foi que seu fascínio crescente pelos governos autoritários que pipocaram pela Europa no começo da década de 30. Apesar dos protestos dos amigos, Pound desenvolveu profunda admiração pelo nazismo, e se mudou para a Itália, como partidário entusiasmado do fascismo de Mussolini. E a coisa não se resumiu a um bater de palminhas: quando a guerra estourou, Pound passou a escrever e publicar panfletos apoiando o regime, denunciando os males da conspiração capitalista judaica internacional e exortando os norteamericanos a não entrarem, e depois de Pearl Harbor, a saírem, da guerra. Teve até mesmo um programa de rádio, transmitido em inglês, para colaborar com o esforço de guerra fascista. Claro, nada disso conquistou muita simpatia junto às forças aliadas, que capturaram Pound pouco depois da queda da Itália, em 1945. Submetido a tratamento cruel, que incluiu três semanas na solitária, Pound foi transferido para os Estados Unidos, acusado de traição. O que salvou o brilhante poeta foi a decisão da corte de que Pound estava insano, e portanto inimputável, sendo enviado para um asilo psiquiátrico onde passaria o resto de sua vida. Mas Pound estava mesmo doido? Opiniões divergem. Os médicos do exército o consideravam são o suficiente para saber o que fazia, e o próprio Pound continuou produzindo poesia de qualidade mesmo após sua captura. Por outro lado, logo após cair nas mãos do exército aliado, Pound pediu para enviar um telegrama para o presidente norteamericano Truman, se oferecendo para negociar o fim da guerra com o Japão. Talvez a loucura de Pound fosse só uma manobra legal para lhe salvar de uma pena de prisão perpétua. Mas pelo menos o narcisismo, dá para perceber que era patológico.

Louis-Ferdinand Céline
Quem É?: Um dos grandes autores do século XX, autor de “Viagem ao Fim da Noite” e “Morte À Crédito”
Acusação: colaboracionismo sujo
Pena: exílio e seis anos de prisão que não foram cumpridos.
Mereceu?: Ah, esse mereceu. O pior é que Céline, diferente de Pound, nem era realmente um grande fã de Hitler. Veterano da Primeira Grande Guerra, portador de ferimentos sérios que lhe causaram dor por toda vida, Céline desprezava belicismo, desprezava o nazismo, desprezava Hitler… e, infelizmente, desprezava judeus. Firme seguidor da tradição anti-semita francesa, Céline jogava sob o povo judeu toda a responsabilidade da guerra que se avizinhava, chegando ao ponto até mesmo de denunciar o próprio Hitler como um conspirador sionista. Quando a França foi ocupada, Céline apoiou o governo de Vichy, provavelmente porque ele preferia uma ocupação autoritária e pacífica a ver seu país mais uma vez triturado por uma conflagração da qual não tinha condições de sobreviver. Visão, aliás, que refletia a de muitos outros franceses… exceto até o fim da guerra, quando subitamente o povo da nobre nação gálica recuperou os brios e, com a indignação típica de quem tem vergonha do que fez, começou a punir as figuras públicas que tinham apoiado o governo fantoche. Escolado nessas coisas, Céline já tinha fugido para a Dinamarca, mas isso não impediu que ele fosse julgado in absentia por colaboracionismo, e condenado à seis anos de prisão e exílio. Mais tarde, Céline conquistou anistia e pôde retornar a seu país, mas seu nome passou a carregar um tom de infâmia desde então. Mas quem mandou ser um vacilão preconceituoso e arregão?

Brendan Behan
Quem?: Dramaturgo e poeta irlandês, escreveu “Borstal Boy” e “Confissões de um Irlandês Revoltado”.
Acusação: sabotagem, terrorismo, tentativa de homícidio
Pena: três anos no reformatório, além de 14 anos de prisão (comutados para quatro anos)
Mereceu?: E muito! Enquanto alguns escritores iniciaram suas vidas profissionais como marinheiros, soldados, funcionários públicos, etc, Behan começou a vida como terrorista! Com meros 16 anos de idade o petiz se juntou ao Exército Republicano Irlandês, ou IRA, a organização clandestina que lutava para findar, através do meio que fosse necessário, a dominação inglesa na Irlanda do Norte. Jovem, cheio de esperanças, Behan logo partiu em uma missão independente, apenas com sonhos de liberdade na cabeça e explosivos na mala, com o objetivo de detonar o cais de Liverpool. Capturado, foi enfiado no reformatório, onde seu ódio pela autoridade inglesa maturou. Atingindo a maioridade, Behan retornou à Iralanda do Norte, e se envolveu em outra operação do IRA, desta vez sancionada, visando o assassinato de dois detetives de polícia ingleses. Novamente a missão foi mal-fadada, e dessa vez Behan foi condenado à 14 anos de prisão. Permaneceu encarecerado até que uma anistia geral à membros do IRA, em 1946, permitiu sua saída. Com 23 anos de idade, e seis anos de xilindró nas costas, Behan ainda passaria mais um tempinho na cadeia por conta de uma tentativa de libertar um colega do IRA da prisão, no ano seguinte. Após esse último fracasso no campo da insurreição política, Behan saiu do IRA e decidiu se dedicar à literatura, dramaturgia e ao alcoolismo, áreas onde seu talento era significativamente superior

Jean Genet
Quem É?: Escritor e dramaturgo francês, é o autor de “Nossa Senhora das Flores”, “Pompas Fúnebres”.
Acusação: Muitas, mas, principalmente, furto e prostituição.
Pena: Diversas penas de um ou dois anos, entre 1919 e 1947.
Mereceu?: Sim. Genet era um corticeiro, um ótimo exemplo daquilo que a psicopatologia forense chama de “personalidade voltada ao crime”. Desde pequeno o sementinha do mal dedicava seu tempo livre para a prática de pequenos furtos, tornando um inferno a vida de seus pais adotivos. Adolescente, Genet decidiu incluir a prática de prostituição na lista de seus hobbies, o que lhe renderia um bom período no reformatório. Chegando na idade adulta, Genet se alistou na Legião Estrangeira, sendo expulso de forma desonrosa sob a acusação de “indecência”. Seguiram-se anos de breves aprisionamentos por conta das diversas atividades marginais de Genet, que continuava cometendo furtos, vagabundagem e vendendo a pipoquinha na rua. Ao chegar na décima(!!!) condenação, o homem foi seriamente ameaçado de ser jogado na prisão em caráter perpétuo, como pedia a lei francesa. O que o salvou foi seu imenso e indiscutível talento literário, que já na época tinha chegado até e impressionado artistas do calibre de Jean Cocteau e Jean-Paul Sartre. Após um lobby a favor de sua libertação ter garantido que escapasse da perpétua, Genet deixou de ser bagunça, tomou rumo na vida, e construiu uma admirável carreira literária, sem nunca voltar a ser preso.

Yukio Mishima
Quem É?: Um dos maiores talentos literários japoneses, Mishima é o autor de “Confissões de Uma Máscara” e “O Templo do Pavilhão Dourado”, além de peças, ensaios, poesias, roteiros, e por aí vai.
Acusação: nenhuma, já que ele morreu antes de ser pego… mas acho que teria sido, sei lá, tentativa individual de golpe de estado?
Pena: Vai saber.
Mereceu?: Se mereceu não sei, mas ele certamente pediu por isso. Mishima era tão genial quanto atormentado. Dotado de problemas de auto-imagem sérios, sofrendo com o fato de que era homossexual em uma sociedade intolerante e machista, Mishima se perdeu em uma retórica militarista e reacionária. Seus romances eram de uma sensibilidade artística profunda e vanguardista, mas sua posição política era composta por uma admiração retrógrada do Império Japonês pré-guerra, com uma exaltação irreal dos samurais e de um ideal de supremacia autoritária e belicista. A coisa começou a ficar feia quando Mishima reuniu um grupo de jovens estudantes ao seu redor, e fundou a Tatenokai, ou Sociedade do Escudo, um grupo de agitação política e “disciplina física”. Mas o esculacho final foi quando Mishima, com apoio dos seus seguidores, invadiu a base das forças de Auto-Defesa japonesas (que era tudo que restara do exército no pós-guerra), amarrou o comandante, fez uma barricada nos escritórios centrais e, da sacada do prédio, tentou incitar os milicos locais a realizarem um golpe de estado, instituindo um novo Império Japonês. A coisa não deu certo, o pessoal ficou só na risada e Mishima, seguindo seu plano maluco, realizou o seppuku, ou suicídio ritual, bem ali no gabinete invadido. Como Mishima queria, o mundo ficou chocado. Mas provavelmente não da forma, nem pelas razões, que ele desejava. Triste fim para uma triste história.

William S. Burroughs
Quem É?: Autor de “Almoço Nu”, um dos maiores clássicos da literatura, ele é também um dos fundadores do movimento beat, que revolucionou a arte e a sociedade no século XX.
Acusação: falsificação, tráfico de drogas, homicídio
Pena: prisão domiciliar, além de dois anos de prisão por conta do homicídio, dos quais cumpriu apenas 13 dias
Mereceu?: Infelizmente, sim. Por mais que Burroughs fosse um escritor genial, dotado de uma capacidade literária estelar, o cara tinha uma tendência significativa a fazer o que não presta. Começou quando Burroughs foi preso ao tentar usar uma receita médica forjada para obter drogas. Condenado à prisão domiciliar, ele cumpriu a pena, mas deixou a polícia esperta e de olho em suas atividades. Não demorou muito, e eles conseguiram um mandado para revistar sua casa, onde localizaram cartas trocadas com o poeta beat Allen Ginsberg, que indicavam a intenção de obter maconha contrabandeada. Encarando a possibilidade de ser preso por tráfico de drogas, Burroughs fugiu com a esposa para o México, onde pretendia esperar a pena prescrever tranquilamente, bebendo tequilas e se divertindo com os amigos. Pena que a diversão mencionada envolvia uma demonstração estupidamente perigosa de perícia com armas de fogo, na qual Burroughs usava um rifle para atirar em uma maçã colocada na cabeça de sua então esposa, a igualmente temerária Jean Vollmer. Imagino que vocês já sabem o que aconteceu. Certa noite, manguazado, tentando acertar a maçã, Burroughs atirou em cheio nos cornos da esposa, que morreu na hora. Burroughs foi preso, mas a sua família, que era da turma da grana, não só afiançou sua saída da cadeia, como comprou um julgamento “parceiro”, no qual Burroughs foi condenado a apenas dois anos de reclusão por homicídio culposo. Mas é claro que, nessa hora, ele já tinha voltado aos Estados Unidos, e nunca cumpriria mais nenhum dia da sentença mexicana. Ainda assim, embora tenha fugido de sua pena, Burroughs confessadamente nunca superou a culpa por sua ideia de jerico e seus resultados funestos. Como ele mesmo declarou mais de uma vez, a morte de Jean foi o evento que mudou sua vida, levando-o a começar a escrever como forma de lidar com os aspectos mais sombrios de sua existência… entre elas, a culpa de ter matado a própria mulher.

Reinaldo Arenas
Quem É?: Escritor e dissidente cubano, é o autor do pungente “Antes Que Anoiteça”.
Acusação: “desvio ideológico”, seja lá o que for isso.
Pena: Prisão.
Mereceu?: Ninguém merece ser preso por discordar do próprio governo. Para azar de Arenas essa minha opinião de caráter pessoal não encontrava eco na posição do governo de Fidel Castro, que não apreciava nada as críticas nem um pouco veladas que Arenas fazia ao regime progressivamente despótico de Cuba, tanto em suas novelas quanto em ensaios satíricos em que atacava com humor mordaz membros e apoiadores da ditadura castrista. Para piorar, e muito, a situação, Arenas era homossexual assumido e pouco disposto a esconder suas preferências, uma atitude que não se coadunava com a ideologia machista que a propaganda oficial defendia como sendo a mais adequada para o povo cubano. Cansados da baitolice e da insubmissão política, Arenas foi jogado na prisão, onde permaneceria por três anos, se ocupando com diversas tentativas de fuga e de contrabandear seu trabalho para fora. Arenas foi libertado em 1976, sob a condição de se manter longe da literatura e da viadagem, duas condições que ele não tinha nenhuma intenção de cumprir. Sob séria ameaça de morte, Arenas escapou de Cuba em 1980. Dez anos depois, se suicidou em Nova York, tentando evitar o sofrimento da debilitação progressiva causada pela AIDS. Sua carta-testamento mantinha o mesmo teor crítico de suas primeiras obras, encerrando-se com o anúncio confiante de que, um dia, “Cuba será livre. Eu já sou.”

Hector Oesterheld
Quem É?: Escritor de histórias em quadrinhos, é o criador de O ETERNAUTA, um dos maiores, mais legais e mais duradouros sucessos dos quadrinhos argentinos de todos os tempos, bem como de CHE, a biografia do revolucionário cubano Che Guevara.
Acusação: subversão
Pena: desaparecimento, provavelmente morte.
Mereceu?: Não enfático. Oesterheld era um quadrinhista bastante reputado… O ETERNAUTA, seu trabalho mais famoso, era uma saga de ficção científica de profundidade e criatividade formal inédita nas tiras da época, que conquistou toda a nação e é até hoje um dos mais significativos símbolos da Argentina. O problema é que Oesterheld, além de um grande escritor, tinha também opiniões políticas… e pior ainda, opiniões políticas de esquerda! Ao invés de só produzir ficção científica “isenta”, Oesterheld insistia em dar ao seu trabalho relevância social e suscitar pensamento crítico. A coisa começou a ficar feia em 1968, quando Oesterheld escancarou seu apoio à esquerda com a publicação de CHE, logo retirada das livrarias do país por ordem do governo. Ao invés de interpretar isso como um sinal para maneirar, Oesterheld resolveu é pisar fundo: ele e suas filhas se aliaram aos Montoneros, a organização de guerrilha de esquerda que lutava contra os regimes cada vez menos democráticos que vinham se sucedendo no país. Ao mesmo tempo, Oesterheld decidiu retornar ao seu personagem mais famoso, publicando O ETERNAUTA, PARTE II, um trabalho abertamente em oposição à crescente onda ditatorial argentina. Infelizmente, o timing não podia ter sido pior… O ETERNAUTA, PARTE II começou a ser publicado no mesmo ano que uma ditadura militar arrancou Isabel Péron do poder e, de pronto, resolveu iniciar uma limpeza ideológica no país. Como terroristas de verdade são difíceis de achar, coisa que todo militar golpista e incompetente pode referendar, o bruto do processo caiu nas costas de intelectuais, estudantes e… artistas. Oesterheld e as filhas, uma delas grávida, foram levados de suas casas em 1977. Não se iniciou nenhum processo formal contra nenhum deles, nem se informou onde eles estavam, do que eram acusados ou qual seria seu destino. Tentativas por parte da esposa de Oesterheld, Elsa, de descobrir que fim levara sua família só conseguiram que lhe fosse entregue um bebê, seu neto nascido em cativeiro. Embora, já no período democrático, ex-prisioneiros da ditadura hermana tenham relatado ter visto Oesterheld em centros de detenção secretas, até o presente momento o governo argentino nunca forneceu nenhuma resposta sobre qual foi o destino final de Oesterheld e de suas quatro filhas. Nem precisa.

Por fim, vamos dar uma salva de palmas especial para escritores que foram ao tribunal, acusados de ofensa moral ou obscenidade: Charles Baudelaire, Gustave Flaubert, Henry Miller, D.H. Lawrence e James Joyce. Também não podemos esquecer de Orhan Pamuk, que foi acusado e processado por “anti-turquicidade”, devido a ter denunciado o genocídio armênio (o caso não foi adiante), Elie Wiesel (sobrevivente dos campos de concentração nazistas) e Salman Rushdie, condenado à morte por ter sido irreverente com o Islã (mas cuja história completa não conto aqui por que… bom, porque eu acho ele chato.)

A lição que aprendemos? Nenhuma, espero. Mas se vocês me forçarem, podemos resumir assim: sejam bons homens em má situação, ou maus homens em situação pior, escritores tem uma longa, e muitas vezes admirável, tradição de problemas com a lei. Então você, amigo marginal, não desanime: se tudo mais falhar, você ainda pode tentar conseguir um nobel de literatura. E vocês, crianças, que acham literatura uma coisa de tiozinhos respeitáveis, podem aprender: a turma dos escritores é bem mais barra-pesada do que qualquer ajuntamento de astros de rock, cheios de atitude e fichas limpas.

Agora, me passa sua carteira.

Elegia Para Um Herói Que Se Foi

De todo um povo, é a lamúria que se ouve
Quando o herói enfim deita para seu sono
Cansado de batalha, o corpo que já não move
Não pertence mais ao Dops, e tem no verme o novo dono

O jornalista comuna, agora medra à solta
O suicídio não mais ameaçando essas bandas
O suicidador partiu para o reino sem volta
Apresentar ao diabo sua versão de ditabranda

Foi um protetor do povo, ninguém ouse arguir o contrário
Combatendo professor, intelectual e estudante
Sua recompensa era o prazer do bem servir, e o erário
Do qual, já como nobre senador, desfrutou bastante

E a justiça, não permitiu que embaraçasse sua missão
De defender o país da igualdade e daquele sindicalista.
E daí que forjou provas para sabotar uma eleição?
E daí se ajudou a esconder um ou outro nazista?

Não sabem com quanto tapa, pau-de-arara e pescoção
Se constrói uma verdadeira democracia?
Foram muitos anos de trabalho no porão
Dando porrada em quem não tinha a correta ideologia.

Mas no fim, o povo se despede, transido,
Relembrando toda essa história de luta.
E já na cova o velho xerife sente ressoar no ouvido:
“Já vai tarde, filhodaputa!!!!!!!”

A Educação Artística do Retalhador

Quando matei alguém pela primeira vez, tinha dez anos de idade. Foi um trabalho precoce, impulsivo, com bastante energia mas um tanto sem direção e propósito. A vítima foi meu primo, que muito irritava minha já aguçada sensibilidade com suas ofensas despropositadas e, de forma mais geral, com sua disposição rude e compreensão limítrofe. Sem mais opções que me permitissem estender por maior tempo a minha já desbastada tolerância ao rapazola, o empurrei sem maior aviso em um córrego que passava por perto de sua casa. Observei cuidadosamente seu passamento, resultado esperado do embate de seu corpo pueril com as correntes caudalosas daquele curso d´água, que o arrastou em um desespero melodramático por diversos metros até que finalmente engolfá-lo por completo. Seu corpo, o resultado mais tangível desse meu primeiro esforço artístico, foi localizado apenas alguns dias depois, e o caso foi todo considerado apenas um lamentável acidente.

Embora, na época, essa experiência tivesse me trazido um grande contentamento e até mesmo um certo sentimento de realização, hoje em dia guardo apenas um certo carinho nostálgico por um primeiro trabalho tão irrefletido, tão desprovido de significação ou desenvolvimento estético. Não considero esse primeiro assassinato sequer parte digna da minha juvenilia, e o menciono apenas por um afã de completitude e, como já disse, movido por um sentimento terno com relação a essas iniciativas infantis de primeira hora. Uma análise mais crítica e perspicaz vai revelar nessa morte os mesmos senões que podemos apontar ao trabalho de qualquer homicida culposo ignorante que lota nossos presídios e as páginas de nossos jornais com seus esforços desprezíveis…. A impulsividade, a falta de planejamento ou de um diálogo estético sendo travado entre o autor, a obra e o objeto a ser morto. Ainda assim, gosto de destacar que já nesse trabalho infantil, havia uma preocupação em fazer com que o ato assassino passasse por um evento regular, natural, explícavel como resultado fatal de uma cadeia causal de eventos inteligíveis e ordinários. Se me permitem indulgir em certa imodéstia, penso com meus botões que essa preocupação com a mimese, embora revelasse um entendimento artístico pobre, já demonstrava, não obstante, uma intenção estética, um interesse em algo mais do que o ato de matar em si. Era a semente dos trabalhos mais requintados que viriam depois.

Dediquei os anos seguintes a diversas experitimentações técnicas, principalmente com uma longa sorte de animais de estimação que passaram pela casa da minha família, de amigos e vizinhos, entre os meus dez até os dezesseis ou dezessete anos. Nada aí é muito digno de nota, mesmo por quê, vale relembrar, eram apenas ensaios com objetivo de auto-instrução. Foi uma fase importante, no entanto, para eu compreender que a mera imitação do fenômeno natural da morte, enquanto proposta estética, era um objetivo retrógrado e até limitado. A morte da minha avózinha, obtida através de um envenenamento contínuo por analgésicos depositados em seu chá, foi meu último feito nessa linha de trabalho. Embora o desafio de forjar uma morte natural fosse interessante de um ponto de vista pessoal, a falta de um impacto na multidão espectadora que traduzisse o esforço intelectual e estético depositado na feitura do assassinato em si caracterizava uma ruptura no diálogo entre artista e público que só poderia se revelar frustrante a longo prazo. E, como sabemos, desde as vanguardas europeias do início do XX, mais do que imitar a natureza, o objetivo da arte é questioná-la, suscitar a reflexão sobre aquilo que vivenciamos e sentimos. Embora, naqueles verdes anos, isso tudo não estivesse tão plenamente elaborado em meu intelecto, quando preguei a cachorrinha de estimação de minha vizinha na porta de sua casa, certa noite, eu já sabia que o fazia por um desejo de provocar uma reação na menina, que a suscitasse a abranger uma consciência de sua própria mortalidade e a duvidar da segurança de uma existência burguesa que, no fim, era apenas ilusória.

Esses ur-assassinatos, se me permitem assim dizer, pecavam porém por uma certa obviedade, uma falta de um discurso mais elaborado que se alimentasse de significações mais amplas. Assim, enquanto jovem adulto, me afastei do diletantismo dos primeiros anos e decidi me dedicar seriamente a estudar os clássicos. Creio que foi nessa época que aprofundei minha já existente admiração pelo Estripador, a que todos reconhecemos em uníssono, é um patrono de nossa arte tão grande quanto Shakespeare o é para a literatura, ou Bach para a música. Quanto mais me aprofundava em seus métodos e meios, mais me fascinava e me apaixonava por uma mente tão fulgente, tão capaz de engendrar trabalhos que, um século depois, ainda capturam tão vivamente a imaginação da humanidade. A obra de Mary Kelly, por exemplo, é um opus de caráter impressionante e admirável: os cortes precisos demonstravam uma clara inteligência humana por trás, afastando a mimese e atraindo a atenção do espectador para o trabalho do artista. O caráter social da matéria-prima utilizada, prostitutas, e a simbologia por trás de cada corte, sem mencionar o uso de técnicas mistas no ato da incineração do coração, revelam um gênio da arte incomparável, operando no ápice de seu talento. E isso tudo em 1888, enquanto Manet ainda lutava para dominar as primeiras pinceladas. Embora eu tenha estudado outros autores importantes do canône, dando a devida atenção ao estilo revolucionário de Ed Gein, a ênfase na teatralidade do Zodíaco, e aos estilos mais realistas e pessoais do Estrangulador de Boston e do Filho de Sam, nada nunca superou no meu coração minha admiração pelo velho Jack, o verdadeiro criador da arte de matar.

Essa fase da minha juventude foi, portanto, marcada por experimentações estéticas, conforme eu tentava encontrar um estilo próprio em meio do estudo diligente das técnicas de meus antecessores. Justo, devido ao uso de técnicas e aproximações tão diversas, meu trabalho passou sem ser notado pelo grande público na época. Eu estripei, atirei, estrangulei, queimei e, pelo menos em uma ocasião, decapitei (uma homenagem à Ramirez, que considero um autor um tanto óbvio, mas que possui qualidades únicas em matéria de teatralidade e audácia), mas esses esforços, que confesso, variavam muito em qualidade e perícia, acabaram sendo atribuídos a diversos assassinos desconhecidos, sendo que considero a falta de um estilo autoral desenvolvido como o principal responsável por essa triste situação. Mas eu vivia na inocência típica do jovem artista, crente que minha lida me satisfazia por si só e que eu prescindia de reconhecimento. Olhava até com certo desprezo presunçoso para aqueles que conquistavam espaço nas manchetes e programas de televisão. Me bastavam as lágrimas dos velórios que, por vezes, frequentava, e os comentários cochichados entre parentes abalados pela eficácia do meu horror. Foram esses apoios pontuais, de pequena monta, que me mantiveram no meu curso de trabalho e aprendizado. Mas, por volta dos meus vinte e oito anos, depois de um ambicioso estudo das obras de Dahmer que me levou a fazer uma reforma na casa para adequá-la ao projeto de dissolver pessoas em bacias de ácido, concluí que estava na hora de alçar voos maiores, buscar o reconhecimento que meu gênio artístico merecia e precisava.

Optei então por ser o Retalhador. Foi uma decisão conceitual que partia do interesse prévio em me afastar o máximo possível de práticas que podiam ser consideradas crimes comuns, ou até mesmo, acidentes casuais. Uma grande influência em mim na época foi o verfremdungseffekt brechtiano, a “desfamiliarização”, que pregava que a obra de arte deve expôr à sua audiência sua natureza de representação da realidade, e não permitir a catarse que anularia uma postura crítica. O ato de retalhar, de cortar a carne em golpes variados, precisos e profundos, espalhando sangue e vísceras de forma violenta e cruel, geraria uma evidência inequívoca de trabalho humano, e atrairia a atenção do espectador para as opções artísticas feitas por mim, gerando o questionamento e a aproximação analítica com que eu desejava que meus trabalhos fossem apreciados. O toque vanguardista seria resultado da minha escolha única de equipamento, uma serra de disco portátil, que serviria para abrir possibilidades no campo do retalhamento humano nunca explorados, visto que muitos autores ainda são resistentes ao uso de aparato mecânico, e ainda serviria como comentário sobre nossa sociedade pós-industrial e a crescente desumanização que resulta da inevitável reificação propagada por uma cultura burguesa e capitalista. A escolha por matar famílias inteiras, porém, foi motivada apenas pela ambição de fazer algo grande e diferente, embora seja possível argumentar que existe aí algum outro nível de contestação social, ou, como alguns dos mais sagazes estudiosos do meu trabalho apontaram, um possível traço confessional da minha obra, visto que a iniciei eliminando meus próprios familiares.

Eu peco pelo meu orgulho. Admito. Mas é forçoso reconhecer que durante os três anos em que fui o Retalhador produzi muito trabalho de qualidade, com admirável perícia técnica e estética. Eu poderia, não duvide, povoar todo um volume descrevendo os cuidados de produção e execução que realizei em cada um dos meus assassinatos. A maior parte do vulgo, facilmente distraída pelo sangue abundante, não imagina o nível de detalhamento exigido em cada ato… Eu calculava o ângulo de cada corte, a profundidade, se ia romper uma veia ou uma artéria (que apresentam tons de sangue e níveis de pressão muito diferentes). Pelo menos uma vez, no caso dos Magalhães, tive que obrigar a filha mais velha do casal a trocar de roupa antes de despedaçá-la, pois a teoria de cores estava toda errada. E, mesmo quando não estava matando, estava estudando técnicas de medicina forense, buscando novas formas de espalhar sangue, de abandonar corpos, de cortar, destrinchar, destruir. Tenho particularmente orgulho, nessa época, dos meus trabalhos com a família Magalhães, dos Molina, da família Carrara e dos Molleiro. E, embora o resultado final hoje me pareça meio dúbio, achei válido o trabalho com os Ferreira Bruno, até o momento meu único casal de velhinhos, e com os Feldermann, na qual pude dividir ao meio com um único golpe em cada, dois lindos bebês gêmeos (imagino que não preciso destacar que a proposta era debater a questão da simetria).

Mas, se você permite que me repita, eu peco pelo meu orgulho. Ainda que a atenção dos jornais e da crítica especializada fosse contínua, eu sentia um certo enfado, que mais tarde se tornou claro e pungente desprazer, com o fato de que meu nome não era amplamente reconhecido como sendo o responsável pelos sucessos de populares do Retalhador. Confesso que demorei certo tempo para perceber isso… no início de carreira, acreditei ser perfeitamente aceitável construir minha reputação apenas sob uma alcunha, escondendo minha verdadeira identidade por trás de um nome artístico. Foi assim com Jack, foi assim com o Estrangulador de Boston e com o Zodíaco, todos grandes mestres e que jamais divulgaram seus nomes para o grande público. Mas a dolorosa realidade é que isso só não me satisfazia. O ponto culminante foi o surgimento do Monstro do Grajaú, que aos poucos, foi saindo das páginas de cotidiano e cidade dos jornais para tomar meu espaço nas manchetes principais. Não vou mentir: minha fúria e revolta, nessa época, não conheciam limites. Enquanto eu me dedicava para proporcionar aos meus fãs matanças da melhor qualidade artística e plástica, o Monstro era um diletante, um amador que apelava para os recursos mais popularescos e óbvios para usurpar para si minha primazia entre os assassinos em série brasileiros. Sua técnica era improvisada, alternando entre facadas, marteladas, estrangulamentos ou até armas de fogo, como se simplesmente matasse com o que quer que estivesse à mão no momento. Sua opção de vítima era a de crianças pobres, uma escolha repugnante de tão apelativa e desprovida de criatividade. E, embora eu reconheça o valor e a complexidade oculta da arte naïve, dificilmente eu classificaria os trabalhos do Monstro como algo mais do que um ofício sujo, um artesanato irrefletido e incoerente cujas principais características eram a precariedade e a provisoriedade. Mas ele tinha um retrato falado no jornal, e eu não. E, quando foi pego, efetivamente eclipsou completamente minha opus. Televisão, jornais, internet… até mesmo dois livros foram lançados com diferença de semanas dedicados à ele. E eu, que nessa época tinha feito uma das minhas melhores composições, a mutilação ao ar livre do casal Sá Barreto e seus três filhos em sua casa de praia, recebi somente uma nota periférica, encabeçada pelo lead “Continua a busca pelo Retalhador”. Como se eu fosse notícia velha, assunto menor para ilustrar a pauta mais importante que era a captura do Monstro.

Ora, uma situação dessas não poderia mais ser tolerada. Um gênio da minha capacidade ser ofuscado pelos tentos toscos de um qualquer sem categoria, pouco mais que um açougueiro? Uma atitude teria que ser tomada, uma reavaliação da minha obra, buscando um comprometimento com princípios mais populares e menos autorais, seguido por toda uma nova estratégia de divulgação. Aumentei o número de matanças, o que fez com que eu tivesse que sacrificar cuidados com o processo de concepção e, lamentavelmente, de segurança. E iniciei a série de mensagens crípticas para a polícia, desenhadas nas paredes com o sangue das vítimas. De início, buscava com isso adicionar um elemento de metalinguagem, algo de bastante sucesso na cultura pop contemporânea, apesar do alerta, do qual eu estava muito cioso, de Samuel Johnson de que a metalinguagem é o último refúgio dos canalhas. Infelizmente, esse foi só o começo de mais uma série de frustrações… Minhas boutades eram complexas e cultas demais para nosso triste aparato policial. Tive que reduzir meus parâmetros, facilitar o acesso ao meu trabalho para as massas. Apelei para escrever cartas aos jornais, e, visando um contato com o público-alvo mais jovem, postar vídeos dos making ofs de meus trabalhos na internet. E foi aí que fui pego.

Não que eu me arrependa, veja bem. A exposição na mídia nos últimos meses reacendeu um interesse crítico significativo na minha obra. Ganhei até uma exposição internacional que não tinha, sendo que há até quem diga que sou um dos maiores assassinos seriais de todos os tempos… O que me envaidece, embora eu reconheça que apenas o tempo poderá decidir se realmente mereço tal título. Porém, por outro lado, é triste pensar que não poderei dar continuidade a evolução natural que meu trabalho vinha sofrendo. Havia ainda muita experimentação e técnicas novas, ou clássicas sob nova roupagem, que eu queria tentar. Gosto de pensar que não fui propriamente um inovador, mas sim um grande revisionista, que trouxe novos ângulos e contextos para se apreciar e dialogar com os grandes mestres que me sucederam, revitalizando a forma de arte como um todo. Se mereço um lugar no canône, devo mais a eles do que aos meus limitados cortes. Mas, enfim, acabou. E embora eu aprecie toda essa fama, é evidente que, em meu imo, sou mesmo apenas um artista dedicado. Tanto que, mesmo aqui, atrás de barras, completamente privado das ferramentas mais básicas, ainda tento fazer uma ou outra coisinha, partindo de uma perpectiva mais simples, mais baixo orçamento. O que é importante. Nessa era de armas atômicas e gases tóxicos, o trabalho individual e intimista do profissional dedicado deve ser preservado a todo custo. E, se você parar de chorar por um momento, vou lhe conceder uma oportunidade única de ter uma participação vital nesse processo. Pronto?

Isso é uma faca. Tente acompanhar criticamente.

Resoluções (Adiantadas) de Ano Novo

…. caralho! É normal alguém sangrar tanto assim quando tosse?

Toda Imprensa Deve Ser Livre, Mas Umas Devem Ser Menos Livres Que Outras

Essa vai ser breve. Nem tem muito que precise ser explicado diante da óbvia e galopante hipocrisia da coisa.

Lembra do editorial da Folha de S. Paulo da semana passada? Tomando metade da capa, bradando indignado contra a censura, alertando pela necessidade de liberdade irrestrita de imprensa e pela impossibilidade da existência de um regime democrático em que não exista espaço para a divergência?

Mas não é que não passou nem uma semana, e esse mesmo jornal processa e censura um blog de humor?

Qual o próximo passo em defesa da liberdade de imprensa, Otavinho? Processar cada um que postou um #DilmaFactsByFolha no Twitter?

Chega. Depois dessa, não preciso dizer mais nada. Liberdade de imprensa é o caralho. Acho que ficou claro que o que a Folha defende é outra coisa.

Isso é Transparência

Daí o Kassab foi lá e avisou que em dezembro aumenta a passagem de ônibus em São Paulo. Vai de 2,70 para 2, 90, reajuste de mais de 10% no preço. A parte que mais gosto da matéria, que você encontra no site do Estadão (o único jornal assumido do Brasil), é a frase do Kassab: “Pode ser um pouco mais, um pouco menos. Mas a cidade tem de ter um reajuste com base na reposição da inflação todo ano, sem deixar acumular (o preço). Isso é transparência”

Sério? Isso é transparência? Ok, então. Legal. Devia ser um bordão.

O ladrão vai te assaltar “Me passa a grana playboy, ou vou te encher de tiro. Isso é transparência.”

Você chega em casa, sua mulher tá na cama dando pro seu melhor amigo “Faço isso porque você é broxa. Isso é transparência.”

Seu chefe chega pra você “Daqui pra frente, eu vou te passar mais trabalho, por menos dinheiro. Isso é transparência”

Sua namorada te liga “Estou grávida. Meu pai já sabe, e está indo pra sua casa. Isso é transparência.”

Seu primeiro dia na prisão, e ao entrar na cela lotada um cara de dois metros num canto escuro te chama e diz “Pode dormir aqui, gracinha. Do meu lado. Isso é transparência.”

Seu cachorro te morde “Au au. Isso é transparência.”

Na minha época, o nome era foder com a vida do outro, mas aceito o novo termo. Isso é transparência.

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Falando em politicagens, tem coisa mais sensacional que o Datafolha? Muitos institutos de pesquisa trabalham tentando inferir as tendências eleitorais do povo. Mas só o Datafolha usa essa técnica revolucionária, até mesmo vanguardista, que é abandonar o grilhão dos fatos, as limitações da realidade empírica e criar estimativas completamente únicas, inéditas, diferentes das de todo mundo… Enquanto tanto o Ibope quanto o Vox Populi indicam vitória da Dilma no primeiro turno, com folga, apenas o Datafolha rompe com a mesmice e anuncia a possibilidade quase certa de um segundo turno.

Qual o segredo de um trabalho tão genial? Tão inovador? Tão livre das amarras da realidade? Eu acho que é o maior cuidado, o cotejar incansável do pesquisador do Datafolha… enquanto outros institutos registram sem critério as respostas dadas, o Datafolha deve escolher minuciosamente as melhores respostas, aquelas mais maduras, mais belas, proferidas com melhor dicção ou que parecem mais bem pensadas. Da mesma forma que um bom vinho não se faz colhendo qualquer uva, uma boa pesquisa é resultado da seleção amorosa de respostas. Um técnica antiga, que o Datafolha desenvolveu através dos anos… basta lembrar de 1998, quando o mesmo instituto jurava de pé junto que Marta Suplicy estava para trás na eleição para governador de São Paulo, 2 pontos percentuais atrás de Mário Covas. Na hora da eleição, Marta teve 22,5% dos votos. Covas, 22,9%.

Ou vai ver os caras do Datafolha não sabem contar. Acontece… se o pessoal do iG tem as manhas de publicar uma pesquisa onde a soma dos votos válidos é de 109%…

Ibope só lhe dá a verdade. Datafolha, é mais como uma mãe carinhosa, que ao ver o filho assustado no consultório médico, passa a mão em sua cabeça e diz que não, aquela injeção com agulha de vinte centímetros não vai doer nada, não…

Enfim. Isso é transparência.