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Festival do Minuto - Participem!

Cambada, é o seguinte: eu sou o atual curador jr. do Festival do Minuto em Santo André. Então resolvi dar pra vocês um toque sobre o que é esse Festival e porque eu acho que seria legal se participarmos dessa iniciativa:

- Mas Felipe, que catzo é o Festival do Minuto?

O Festival do Minuto é um evento que foi criado no Brasil em 1991. Hoje é o maior Festival do gênero na América Latina, tendo inspirado festivais semelhantes em mais de 50 países. Desde 2007 o festival se tornou permanente e online (www.festivaldominuto.com.br), ou seja você pode se inscrever pela internet, quando quiser.

- E porque eu faria isso?

O Festival do Minuto é uma das marcas culturais mais conhecidas do país e um grande revelador de talentos do audiovisual brasileiro. Muitos cineastas de prestígio já participaram do Festival, como Fernando Meirelles, Beto Brant, Tata Amaral e Fernando Bonassi. Ganhar um dos diversos prêmios do Festival do Minuto fica bem no currículo. Se isso não basta, fique sabendo que o Festival do Minuto também premia seus melhores vídeos do mês em bufunfa! Isso aí: você faz um videozinho de 1 minuto e concorre à dinheiro vivo e celulares Nokia.

- Peraí, mas como assim vários prêmios?

Todo mês o Festival do Minuto premia o melhor vídeo do mês, de qualquer tema. Além disso, todo mês existe um ou mais concursos temáticos, patrocinados pela Nokia ou outras organizações. O melhor vídeo do mês de cada concurso também recebe prêmio. Se ainda não é o bastante, no final de agosto o Festival ainda premia o melhor vídeo do concurso e o melhor vídeo de cada cidade inscrita no Festival.

- Como assim, “cidade inscrita”? Explique-se, senhor!

Calma! Estou falando do Projeto 30 Cidades. Certas cidades espalhadas pelo Brasil possui um festival só para elas. Basta se cadastrar no site (www.festivaldominuto.com.br) e inscrever seu vídeo na categoria “vídeo + cidade onde você mora ou estuda”. IMPORTANTE: Você pode inscrever seu vídeo em mais de uma categoria ao mesmo tempo. Por exemplo, pode inscrevê-lo no concurso de Santo André, no concurso temático ou na mostra permanente (que é o concurso livre). Se a sua cidade não faz parte do Projeto 30 Cidades, você ainda pode participar do Festival Permanente e dos concursos temáticos.

- Legal! Mas não sei não. Eu não consigo filmar uma trama complexa e elaborada em 1 minuto!

Não precisa. O que o Festival do Minuto quer são boas ideias exploradas de forma inteligente e sintética. Não precisa nem ser muito elaborado tecnicamente (embora isso conte pontos). O ideal é trabalhar um boa ideia simples, dando um passo à mais em direção da elaboração de linguagem, com uma montagem bem trabalhada e/ou boa combinação de música com imagem e/ou um ponto de vista diferenciado e sofisticado. Muitos vídeos do Festival não contém falas ou personagens. São simplesmente ensaios sensoriais ou poéticos, que não precisam transmitir necessariamente uma ideia clara, mas sim uma sensação. Mas cuidado: vídeos que não passam de um monte de imagens sem sentido tem vida curta no Festival.

- Posso dar uma olhada em outros filmes do Festival?

Sim. No site (www.festivaldominuto.com.br) você pode assistir outros vídeos. Tem muita coisa boa, vale a pena mesmo se você não quiser participar. E para quem quer, vai dar uma boa noção de que tipo de vídeo concorre com chances no Festival.

- OK! Vou participar! Mas a única coisa que eu tenho para filmar é uma lata de ervilha com um furo no topo! Serve?

…não. Mas o Festival do Minuto aceita filmes feitos com película, vídeo ou formatos digitais (como uma câmera digital ou celular). Quer saber? Se você fizer uma boa edição, acho que até o resultado da lata de ervilha pode ser aceito…

- É nóis! Alguma regra final?

Não deve ser surpresa para ninguém que o Festival do Minuto só aceita filmes de, no máximo, 1 minuto. Pode até durar menos, mas não pode durar mais. Duas outras coisas também são importantes: o filme tem que ter pelo menos 1 segundo de créditos, e NÃO PODE USAR MATERIAL REGISTRADO, ou seja, que infrinja os direitos autorais de outra pessoa. Isso se aplica à músicas, imagens e texto.

- E como eu participo?

Faz um filme e se cadastre no site do festival (www.festivaldominuto.com.br) Daí é só inscrevê-lo nas categorias que quiser. Você pode inscrever quantos filmes quiser, em quantas categorias quiser. É uma festa.

Então bora lá participar pessoal. É uma grande oportunidade de se divertir um pouco, arranjar um ótima exposição para seus trabalhos e até se arriscar a ganhar uns trocos.

Corolário do Funcionário Público

O poder corrompe. O poderzinho corrompe absolutamente.

Os Novos Links

Caso tenha escapado sua arguta percepção, caro leitor, aproveitei uma madrugada dessas para atualizar a lista de links. Os critérios para entrar no meu blogroll permaneceram os mesmos: eu linko blogs que eu gosto, que uso, ou que são de amigos meus. Caíram fora blogs que não são atualizados há séculos, assim como os links mortos. As novidades interessantes são:

Blog dos Quadrinhos: Blog da Uol sobre quadrinhos. Muito material bom, boa pesquisa. Visão crítica no ponto. O melhor blog sobre quadrinhos do Brasil.

Calebe Lee: amigo meu. Literatura, desenhos, músicas e questões lógico-filosóficas. Tudo florescendo a partir da mesma criatividade inquieta e inquietante.

Leituras do Dia: coleção de links para textos e imagens intrigantes na net. Tem de tudo: quadrinhos, cinema, ciência, política, economia, bizarrices… Um dos meus blogs prediletos, que demorou demais para entrar aqui nessa lista.

Lista de Corruptos: Um grande banco de dados sobre falcatrua de políticos brasileiros. Um tanto enviesado contra o PSDB, mas ainda assim muito útil. Não é atualizado desde o ano passado, mas vale pelo material arquivado.

Nova Corja: jornalistas que não se calam contra os desmandos e licenciosidades do pessoal no poder. Razoavelmente equilibrado quanto à partidos, tende a dar mais atenção à política riograndense, sede do sítio. Embora eu nem sempre goste do teor dos textos, ele é ainda assim muito bom como fonte de informação.

Rafael Reinehr: blog pessoal do editor e idealizador do OPS! Se você gosta desse blog, saiba que ele só existe por causa dele. Vá lá é preste homenagens. É sua nova Meca.

Warren Ellis: escritor de quadrinhos gringoamericano, autor de gemas como PLANETARY, AUTHORITY, NEXTWAVE e TRANSMETROPOLITAN. Seu blog é um grande depósito de links intrigantes, bizarros ou perturbadores, muitas vezes sem ligação direta com quadrinhos.

Wired Blogs: uma coleção de blogs feito por escritores da revista WIRED. Costumo dar atenção constante aos blogs Underwire (cultura pop em geral), Wired Science, Threat Level (sobre questões de segurança na internet e no mundo da comunicação) e Game Life (porque videogames são o novo cinema).

Fora isso, também vale a pena acompanhar os velhos links… sem mencionar os ótimos outros blogs do OPS! Não, sério mesmo, eles são bons. Ninguém me paga nada para fazer jabá…

…não que eu não fosse aceitar se me oferecessem.

Sobre Fadas e Monstros… Histórias de Abril

Algumas vezes, o responsável pela mentira não é só o mentiroso.

A história das fadas de Cottingley começou de forma bastante inocente. Em 1917 a adolescente Elsie Wright recebeu em sua casa, na até então marasmenta cidadezinha de interior de Cottingley, sua prima de dez anos de idade, Frances Griffiths. O pai de Elsie, um engenheiro elétrico, mantinha em sua casa uma câmera fotográfica e, num ato de condescendência paterna, emprestou-a para as meninas tirarem algumas fotos nos belos campos da vizinhança. Quando Arthur revelou as pranchas com as imagens ele descobriu isso aqui:

Ao ver essas imagens Arthur se espantou. Ele não tinha, até então, ideia de como sua filha era talentosa para forjar imagens. Convencido de que uma máquina fotográfica era um equipamento de precisão caro e custoso de se manter (isso foi uns 80 anos antes das máquinas digitais, amiguinhos) Arthur proibiu as meninas de continuarem usando o equipamento para suas brincadeiras. A história toda teria terminado aí, e as fadinhas de Cottingley seriam lembradas apenas como uma anedota familiar peculiar, se não fosse a atuação da mãe de Elsie… e a espiral de interesses que ela iniciaria.

O início do século XX foi uma época peculiar na história do misticismo. O império britânico se estendia de uma ponto à outra do mundo, sua auto-proclamada superioridade técnica e moral para governar a Terra sendo sustentada por sua crença inabalável na racionalidade e na técnica. Ao mesmo tempo, o horror da Primeira Guerra Mundial mutilava e triturava pais, filhos, irmãos e esposos nas trincheiras do fronte europeu. Nesse contexto, um grande número de pessoas buscava desesperadamente respostas para o absurdo do mundo, e, em parte por descrédito das velhas religiões e seus dogmas irrelevantes para o novo futuro sombrio, em parte seduzidos pelo canto do poder da ciência, eram seduzidas por um novo tipo de espiritualidade, pautada pelo racionalismo e que substituía o ritual romano pelo método científico. Foi nesse mundo que floresceram Aleister Crowley, Edgar Cayce, Allan Kardec… e a Sociedade Teosófica de Madame Blavatsky, da qual a mãe de Elsie, Polly Wright, fazia parte.

Ao ver as fotos da filha, Polly, talvez um tanto precipitada, considerou-as imediatamente reais. Porque Elsie não confessou a mentira na hora, é impossível saber. Talvez fosse para não estragar a alegria da mãe, talvez fosse para evitar uma bronca, talvez simplesmente por causa da famosa infinita perversidade infantil. O fato é que Polly comentou o caso para seus companheiros da teosofia e a história logo se espalhou no círculo ocultista inglês. Até aí, o caso ainda permanecia restrito… mas o caos na vida de Elsie e Frances, da vilazinha de Cottingley e da Inglaterra logo se instauraria, tudo por conta de um oftalmologista inglês… que era também considerado como o homem mais inteligente da Inglaterra.

Arthur Conan Doyle é hoje lembrado como o criador do Sherlock Holmes… uma espécie de Dr. House que desvendava crimes, para a geração que só assiste tv. Mas a mente que alimentava o brilhantismo de Holmes era inquieta demais para se contentar apenas com o trabalho solitário da escrita de contos de mistério. Tanto que Doyle, por mais de uma vez, manifestou seu desprazer em continuar escrevendo as histórias do detetive mais famoso do mundo. Seus interesses eram mais vastos. Particularmente, Doyle era um espiritualista confesso e determinado a trazer ao grande público a realidade inegável da existência de um mundo etéreo imiscuído no nosso. Pode parecer loucura, mas faz bastante sentido: Arthur Conan Doyle era um homem dado a devendar mistérios, e nada mais fascinante e desafiador que desvendar o maior mistério de todos: a vida e a morte.

Quando Arthur Conan Doyle soube das fotos pediu para ter acesso a elas. Polly, e o círculo teosofista acedeu alegremente, e Doyle as incluiu em um artigo que já escrevendo sobre fadas (a coincidência servindo de prova de que tudo ocorria como mandava o destino). A matéria foi publicada na STRAND, então a revista mais popular da Inglaterra. O ano era 1920, e o país foi tomado pela polêmica.

Elsie e Frances, meio que sem querer, tinham acertado um ponto nevrálgico do espírito de sua época. Enquanto Keats escrevia poemas sobre a renascença céltica, e a burguesia inglesa se envolvia cada vez mais com médiuns e sessões espirituais, as meninas apareciam com imagens que comprovavam a existência de algo além desse mundo… e ainda faziam isso com fotografias, a nova tecnologia que representava o século que nascia. Tá certo, nem todo mundo caiu no conto de Elsie e Frances. Já naquela época muitos apontaram a aparência de bidimensionalidade das fadas, sua iluminação destoante e o fato de que elas pareciam um tanto quanto… britânicas demais. Mas, novamente, essa foi a era em que a tempestade de uma guerra genocida rugia pouco além do Canal da Mancha. Se os céticos não demoraram a levantar a voz, muitos outros também levantaram em defesa das fotos, desesperados para crer que ainda havia algo de magia, beleza e inocência em um mundo que parecia caminhar de forma resoluta para o Armageddon. Finalmente, em 1921, Edward Gardner, um prominente teosofista seguiu para Cottingley, disposto a tirar mais fotos e encerrar o caso de vez. Se possível provando com evidêcia científica e além de qualquer dúvida que as fadas existiam.

Elsie e Frances nunca foram muito claras sobre porque elas continuaram a farsa. Pelo que foi possível intuir de entrevistas posteriores, em parte elas temiam que confessar tudo, naquela momento, expôria ao ridículo gente demais. Carreiras poderiam acabar, e seus pais poderiam ser prejudicados pela inevitável reação de ultraje. Ao mesmo tempo, elas estavam se divertindo um pouco em engabelar todos aqueles cavalheiros ingleses gentis e com ares de sabe-tudo. Crianças inglesas, particularmente meninas, não tinham lá muita voz ativa na época e deve ter sido uma experiência catártica poder enrolar com mentiras a mesma sociedade que os ignorava quando falavam verdades.
Assim, elas aceitaram a proposta de Gardner, e tiraram mais três fotos:

Nos anos que se seguiram, Conan Doyle publicou um livro relatando o caso, “A Vinda das Fadas”. No entanto as imagens nunca se concretizaram como a evidência irrefutável da existência do sobrenatural que os espiritualistas almejavam. Décadas depois, já idosas, e depois da morte de Conan Doyle e Edward Gardner, Elsie e Frances confessaram terem forjado as fotos, usando fadinhas de cartolina presas à alfinetes. Como um truque tão primário pôde enganar tanta gente, incluindo aí o homem mais esperto da Inglaterra, isso elas não souberam responder. O que aconteceu foi a combinação da vontade do povo inglês de redescobrir um pouco de magia e fantasia em seu cotidiano, combinado com certa ingenuidade em pensar que duas belas meninas fossem incapazes de mentir… pra não mencionar o chauvinismo que considerava elas incapazes de operar uma câmera a ponto de realizar truques de perspectiva e dupla exposição (que é o que explica a natureza intangível das fadas na quinta foto). Na verdade, Elsie era uma artista e fotógrafa talentosa, que com uma brincadeira inconsequente, capturou a imaginação de uma nação e provou que mesmo a mente mais brilhante pode ser enganada, quando assim deseja. As pessoas acreditam no que querem crer.

Elsie e Frances engabelaram (quase) todo mundo, mas foi porque suas vítimas assim quiseram. Hoje, ninguém as culpa por nada. Como um adulto que lembra com carinho dos feitos de mágica que o espantavam quando criança, mesmo sabendo que eles eram só truques, o caso das fadinhas sobrevive como uma história pitoresca, que rendeu um filme (O Encanto das Fadas, meia-boca) e muita decoração peculiar em Cottingley. Talvez, se elas tivessem confessado na época, a situação tivesse sido bem diferente.

*******

Embora o caso das fadinhas de Cottingley seja bastante conhecido por seu próprio mérito, a fama das criações de Elsie e Frances nem se compara com o fenêmeno mundial que é o monstro pré-histórico que habita o Lago Ness. Registrado pela primeira vez na “Vida de São Columba”, um relato hagiográfico do século VII, Nessie, para os íntimos, fez muito bem a transição de folclore popular escocês para superpotência pop. Ela inspirou brinquedos, pacotes turísticos, um sem-fim de documentários e alçou até o ponto mais sagrado da canonização pop: foi tema de um episódio dos Simpsons. Toda essa popularidade se iniciou com uma série de artigos de jornal relatando encontros com a Nessie, na década de 30 do século passado e, a partir daí, gerou um movimento constante de curiosos, malucos, cientistas e criptozoologistas em direção dos planaltos escoceses. E, junto dessa turma, os falsários. Ossos falsos, vídeos, fotos, todo tipo de evidência falsa imaginável tomou o mundo em todas essas décadas… Um canal inglês chegou até a forjar um documentário de brincadeira. Ainda assim, nenhuma evidência falsa atraiu tanta atenção quanto a famosa foto abaixo, publicada no jornal DAILY MAIL em 1933, e atribuída a um médico cirurgião que teria observado o monstro durante uma viagem ao lago… Tudo mentira. Mas a graça é que, se não fosse por outra evidência forjada, essa foto também não existiria.

O monstro acima foi criado por um tipinho chamado Christian Spurling. Em 1999 ele confessou em um livro que a imagem era uma armação. A criatura na foto era, na realidade, um modelo de submarino preso a um pescoço e cabeça feitos com madeirite. Com um pouco de contraluz para escurecer detalhes, e um enquadramento esperto que não oferece imagens de fundo para oferecer perspectiva, a mais célebre imagem de Nessie estava pronta. Acontece que Spurling não estava sozinho nessa. A “foto do cirurgião” foi concebida por um caçador chamado Marmaduke Wheterell. Um ano antes ele se dedicava a encontrar evidências reais da existência de Nessie, quando trombou com uma série de pegadas na margem do lago. Grandes e com um formato singular, Wheterell acreditou ter achado as pegadas do próprio monstro… ea nunciou isso para todos os lados. Porém, os tais rastros de Nessie eram resultado dos esforços de um outro fanfarrão, que as tinha plantado lá para enganar os otários, fato que foi trombeteado pelo DAILY MAIL, que não poupou Wheterell do ridículo. Este, furioso, decidiu se vingar. Reunindo amigos e filhos, entre eles o escultor Spurling, Wheterell criou a foto acima, que enviou para o DAILY MAIL através de um cirurgião isento que concordou em colaborar com a farsa. Porque Wheterell não revelou sua farsa logo depois, é algo que não sabemos. Talvez ele tenha ficado satisfeito ao ver o jornal que o humilhara publicar a foto, ou talvez ele tenha gostado que a popularidade da foto tenha reacendido a crença no Monstro do Lago Ness… talvez mitigando a sensação de ter feito papel de idiota que ele sentia.

Ou talvez, Wheterell simplesmente tenha gostado de fazer todo mundo de bobo e não tivesse sido forçado a confessar por causa de circunstâncias externas, como foi o caso de Doug Bower. Outro desocupado inglês, Bower foi o chapa que, numa noite da década de 70, inspirado por relatos ufológicos, convenceu um amigo com quem bebia num pub que seria uma grande sacada sair por aí de madrugada, achatando ramos de trigo para criar figuras geométricas gigantes nos campos. Após seus primeiros esforços terem sido rechaçados como meros fenômenos naturais de caráter peculiar, Bower decidiu aprimorar os desenhos, criando padrões cada vez mais complexos, e lançando uma moda por todo o mundo (e até um filme Sinais, já da fase esquecível do Shyamalan). Enquanto redes de notícia e televisão de todo mundo acompanhavam o “mistério”, Bower curtia em casa, sem nenhuma intenção de revelar sua grande traquinagem. O que o fez mudar de ideia foi o emputecimento de sua esposa que, percebendo a gigantesca milhagem do carro que Bower usava para passear por aí de madrugada, concluiu que ele tinha uma amante. Antes que a patroa pedisse o divórcio, Bower confessou a armação dos círculos nos campos de cultivo. A história vazou para os jornais e acabou bem: em 1992 Doug Bower e seu comparsa David Chorley receberam o prêmio IgNobel de Física pelas suas “contribuições circulares à teoria de campo baseada na destruição geométrica de colheitas inglesas”.

Silêncio dos Inocentes… Versão Lego. E Musical.

Cidadões eruditos e cosmopolitas como vocês devem já estar familiarizados com o musical marginal Silence!, que adapta a trama de O Silêncio dos Inocentes com canções tão singelas e pungentes quanto “If I Could Smell Her Cunt”.

Mas vocês já assistiram a versão Lego da canção “It Puts the F****** Lotion In The Basket”?

http://www.youtube.com/watch?v=iPnQ77a1UVk

(Outra boa pedida, mais séria é a canção “Lotion” dos Greenskeepers, que lida com o mesmo tema).

Histórias de Abril… A Série

Sabe, depois do post de Primeiro de Abril comentando sobre os assassinos seriais inexistentes, fiquei com uma ideia na cabeça… E se, em homenagem ao Dia da Mentira, eu dedicasse todo um mês à artigos detalhando as maiores, mais divertidas e intrigantes farsas, engodos, falsidades, falcatruas, factóides, charlatanismos e golpes da história da humanidade?

Então aguardem para os próximos dias a série Histórias de Abril, em que pretendo escrever, entre outras coisas, sobre fadas e conspirações governamentais; músicos amnésicos ou talentosos demais; elos perdidos, vivos e mortos; folclore brasileiro e brasileiros folclóricos; uma breve história bibliográfica de como foi forjada nossa compreensão moderna, e falsa, do que foi a inquisição; livros que não existem ou não deveriam existir; uma falsa cruzada e uma falsa nação, e as pessoas que acreditaram nelas; um time de futebol de mentirinha (e não estou falando de nenhuma equipe carioca)
e ainda ladrões; robôs; espiões; gigantes; alienígenas; humanzés; e um fantoche de pano… que é também um DEUS!!!!

Tudo se encerrando com a história do Imperador dos Estados Unidos da América.

Provavelmente vai durar até mais do que um mês. Mas vai ser divertido. Vocês não vão acreditar nas histórias que tenho para contar.

Aliás, nem deveriam.

A Mulher Sem Face, e o Retalhador… Histórias de Abril

Para comemorar o dia da Mentira, resolvi dedicar este post para contar duas historinhas reais. Bom mais ou menos. Na verdade, são duas historinhas sobre o que acontece quando o mundo real trombra de frente com o mundo da imaginação.

***

Desde 1993, a Alemanha era assombrada por aquele que talvez fosse a mais eficiente e prolífica assassina serial da Europa. Chamada de “Mulher Sem Face” ou de “A Fantasma de Heilbronn”, sua presença malévola tinha sido identificada pela primeira vez em maio daquele ano, quando seu DNA foi encontrado na casa de uma idosa de 62 anos. A situação teria passado despercibida até 2007, quando o DNA da Fantasma foi localizado novamente na cidade alemã de Heilbronn, na cana do assassinato de uma policial. Investigações mais detalhadas revelaram que o código genético da misterioso assassina também estava presente na cena de assassinato de um outro idoso, na cidade de Freiburg, em uma seringa de heroína achada no mato, na cidade de Gerolstein, em uma cena de roubo em Saarbrücken, em um roubo de carro na Aústria. Em 2008 a Fantasma de Heilbronn varia outra vítima, uma enfermeira encontrda morta no carro, na cidade de Weinberg.

A situação fugia do controle. A Fantasma de Heilbronn era um gênio do crime, um Moriarty. Praticava todo tipo de infração, em uma área que cobria todo o leste da Alemanha e partes da Aústria e França, e nunca deixava nenhum rastro além do seu traço genético… que, no entanto, nunca batia com nenhum dos suspeitos. Uma recompensa de 300 mil euros foi oferecida por sua cabeça, e uma força-tarefa especial foi montada para caçá-la.

Foi então que, na França, encontraram o DNA da Fantasma no lugar mais improvável: no corpo de um mendigo queimado, que a polícia tentava identificar. Acontece, pessoal que fugiu às aulas básicas de Genética no colégio, que homens não podem ter DNA feminino e versa e vice. Foi então que os franceses devem ter percebido em choque, e logo depois trés gargalhado às custas da tolice alemã que a Mulher Sem Face, a temida e elusiva Fantasma de Heilbronn não existia… O DNA feminino encontrado em todas aquelas cenas de crime estava nos bastões de algodão usados para fazer a coleta de material, que provavelmente tinham sido contaminados na fábrica… A fábrica que, no caso, fornecia para toda a região assombrada pela Fantasma.

Ops!

***

Esse não foi, porém, o primeiro caso de assassino serial não existente causando caos na pobre população. Lá pelos idos de 1940, caso semelhante aconteceu na cidade Halifax, na Inglaterra. Começou quando duas moradoras, Mary Gledhill e Gertrude Watts procuraram a polícia, alegando terem sido atacadas por um homem con jeitão de maníaco e portando um martelo. A história do ataque logo se espalhou pela cidade. Pessoas andavam com medo pelas ruas. Não demorou e novas vítimas surgiram, suas peles cortadas por golpes de facas, suas histórias falando do misterioso homem com um brilho insano no olhar. O medo tomou Halifax. A polícia reforçou a vigília, mas não tinha conseguido identificar traços ou localizar pistas do misterioso agressor. Pediram ajuda da Scotland Yard. Enquanto isso o comércio da cidade parou. Grupos de vigilantes se organizaram para caçar o Retalhador de Halifax por conta própria. Azar de alguns homens inocentes, que foram capturados e agredidos por esses grupos… E, enquanto isso, as cidades vizinhas começavam a reportar ataques do Retalhador em suas próprias vizinhanças. O pânico se espalhava. Terror, horror, confusão tomaram acidade por toda última semana de novembro!

E, daí, em 2 de dezembro, todo mundo se tocou que o Retalhador de Halifax não existia.

A espiral crescente de pavor que aconteceu em Halifax é um exemplo perfeito de como se dá um processo de histeria em massa. Houve um incidente real, de pequenas proporções, que foi o ataque contra Gledhill e Watts. A história se espalhou, e, cinco dias depois, quando Mary Suttcliffe sofreu um ataque, foi criada uma ilação entre dois eventos isolados que não existia. Daí pra loucura geral, foi só descer o barranco: pessoas comuns passaram a ver o ataque do Retalhador de Halifax em qualquer lugar… até em rasgos descobertos nas roupas que, em outras circunstâncias, teriam sidoa tribuídos à acidentes ordinários. E as pessoas não-tão comuns, essas ajudaram a apagar o fogo com gasolina, fazendo cortes em si mesmos para ganhar alguma notoriedade, ou só para poder participar da grande história grupal que era construída dia-a-dia, no sensacionalismo dos jornais e nas pequenas mentiras e neuroses de cada um.

Bobos esses ingleses, não? Mas fenômenos assim são bem mais frequentes do que se imagina. De cabeçada, eu me lembro da histeria contra abuso infantil praticado por cultos satânicos nos Estados Unidos na década de 80-90 (nunca houve sequer um único caso comprovado), ou do Bunny Man, que assombra a cidade de Fairfax, no mesmo país… uma lenda que cresceu a partir de um caso real de agressão e vandalismo, que se transformou em uma lenda sobre um assassino sanguinário vestido de coelho que mutila as pessoas por aí. E não pense que isso é só coisa de gringo: no Brasil nós tivemos a longa histeria envolvendo o Chupacabra (de repente, ataque de jaguatirica era mistério insolúvel) pra não mencionar a completa paralisação da cidade de São Paulo na ocasião dos ataques do PCC (que na realidade foram bem mais limitados em escopo do que a imprensa e o desespero de uma classe média em constante medo, fez parecer).

Em algum lugar o Retalhador de Halifax está tomando chá ao lado do Demônio de Jersey, do Spring-Heeled Jack, do ET de Varginha e do Homem-Mariposa, e estão rindo de nós. Ou não. Ironicamente, na década de 70, um assassino serial de verdade, Peter Sutcliffe, foi responsável por 13 homicídios na região de Yorkshire. Um deles foi em Halifax.

Felipe Explica: Especial Termos Literários, Segunda Rodada

Um tempo atrás fiz uma edição especial de Felipe Explica dedicada apenas à termos literários. Atendendo a pedidos (das vozes na minha cabeça, principalmente), vamos a uma nova rodada, focada em aspectos da narrativa:

História-moldura:  mais conhecido em inglês como frame story, a história-moldura é um recurso bastante comum em textos clássicos. É, por exemplo, a história de Cheherazade, nas “Mil e Uma Noites”, contando histórias para o sultão como forma de adiar sua execução, ou a história das sete damas e sete cavalheiros, no “Decamerão”, que se refugiam da peste em um castelo e trocam histórias para passar o tempo, ou ainda os viajantes em “Os Contos da Cantuária”, trocando histórias durante sua peregrinação para a catedral de Canterbury. Assim, a história-moldura tem o objetivo de fornecer ao autor um contexto para apresentar uma série de contos ou histórias menores. Tenha em mente que, antes do século XVII, contos não eram um gênero narrativo muito bem definido, e a história-moldura era uma forma elegante e inventiva de apresentá-los como parte de uma trama maior, favorecendo o interesse e a compreensão dos leitores. Em alguns casos, a história-moldura também era usada para classificar com antecedência o tipo ou o tema do conto a ser narrado, como acontece em “Decamerão” e em “Os 120 Dias de Sodoma”, servindo como exercício estilístico para autor (isso, às vezes, caracteriza a chamada “padronização temática”). Após a primazia do romance e a popularização das coletâneas de contos, no século XIX, as histórias-moldura caíram em desuso, embora ainda possam ser encontradas em obras esparsas. Histórias de terror, particularmente, costumam usar histórias-moldura em seu início, para criar um clima de veracidade à narrativa, como acontece em “A Volta do Parafuso” de Henry James. No cinema, o recurso é usado, por exemplo, no filme O Gabinete das Figuras de Cera, coisa fina da época do expressionismo alemão.

In media res: literalmente “no meio da coisa”, em latim. In media res é uma técnica usada quando se começa a história após o conflito dramático já ter se iniciado. É o que acontece em “O Paraíso Perdido” de Milton… quando o poema se inicia, Lúcifer já foi expulso do Céu e já trama sua vingança no Inferno. Outro bom exemplo de in media res é o filme Cidade de Deus, que começa com o protagonista já testemunhando o confronto final entre as facções na favela, e então volta na história para explicar como os personagens chegaram até ali. Quem Quer Ser Um Milionário? traz uma inovação narrativa. A história não só começa in media res, como os flashbacks que explicam o passado e as motivações do personagem servem para impulsionar a trama no presente.

Mise-en-abyme: expresão francesa que quer dizer “colocar no abismo”, mas que é melhor traduzida como “colocar no infinito”. Se refere a um recurso estilístico, originalmente usado em heráldica, da recursividade: a história que conta uma história dentro da história, ou um quadro onde temos a imagem do mesmo quadro reproduzida (ou, uma capa de gibi onde o personagem aparece lendo o mesmo gibi). Bons exemplos literários de mis-en-abyme abundam em “As Mil e Uma Noites”: Cheherazade frequentemente conta histórias de pessoas que contam histórias… às vezes sobre outras pessoas contando histórias. Isso acontece na história de Sinbad, o Marujo, na história dos Irmãos do Barbeiro e nas História dos três Calândares e das Cinco Damas de Bagdá (Na qual o segundo calândar não só conta sua história mas como conta também a história que contou para um gênio). Outro exemplo possível de uso da técnica está no hábito de Shakespeare de apresentar peças dentro de suas peças como ele faz em “Hamlet” e “Sonhos de Uma Noite de Verão”. Na cultura pós-moderna, o mis-en-abyme tem muita influência, ainda que seja usado esparsamente: Jorge Luis Borges era particularmente fascinado pela idéia de uma recursividade infinita de histórias dentro de histórias, e isso é uma clara inspiração por trás dos contos “A Biblioteca de Babel”, “O Jardim dos Caminhos Que Se Bifurcam” e “O Livro de Areia”, e em sua adapatação cinematográfica de “As Mil e Uma Noites”, Pier Paolo Pasolini preservou o aspecto recursivo da narrativa árabe. Talvez uma dos usos mais interessantes da história-dentro-da-história está no genial e clássico curta La Jetée (base do filme Os 12 Macacos), em que o protagonista termina por tomar parte da história que presenciou quando menino, fazendo com que a história-dentro-da-história termine se encontrando e se tornando, a história principal.

Roman-fleuve: é francês. Quer dizer, romance-rio e é um jeito muito poético (típico do francês, que é mesmo uma língua meio fresca) de se referir a um conjunto de romances que embora contem histórias contidas, com começo, meio e fim, dividem entre si personagens e cenários, compondo um panorama geral de uma sociedade. O exemplo clássico é a Comédia Humana de Balzac: personagens de “Pai Goriot” também aparecem em “Esplendores e Misérias das Cortesãs”, ajudando a compor uma visão geral da vida urbana parisiense no século XIX. Outro exemplo são os romances de William Faulkner que se passam no condado fictício de Yoknapatawpha, caso de “O Som e a Fúria” e “Enquanto Agonizo”. Hoje em dia a técnica do roman-fleuve é largamente utilizada na ficção científica e na fantasia, como é o caso dos contos de robôs de Isaac Asimov ou da série Discworld de Terry Pratchett. É bom ter em mente que o termo roman-fleuve só se aplica a romances em que cada parte pode ser lida e compreendida sem a leitura de todos os outros compenentes da obra geral. “Em Busca do Tempo Perdido”, por exemplo, não é um roman-fleuve. É uma única grande história contada em 8 volumes. Da mesma forma, romances que são continuações de outros não são roman-fleuve: seria o caso da série “Duna” de Frank Herbert. “O Quarteto de Alexandria” pode ser considerado um tipo peculiar de roman-fleuve, em que cada romance conta uma história contida (exceto que no caso dessa obra-prima de Lawrence Durrel, a mesma história é recontada nos outros romances, por outros pontos-de-vista). Em matéria de cinema, se o inspirado curta Tarantino´s Mind estiver correto, a obra de Quentin Tarantino é um grande roman-fleuve.

Semana Marlowe: Parte V - O Judeu de Malta

Após atingir o sucesso com o épico “Tamburlaine”, e refinar seu estilo dramático na memorável “Trágica História do Doutor Fausto”, Christopher Marlowe partiria para um novo projeto. Inspirado por um gênero popular na época elizabetana, as peças de vingança, Marlowe escreveu “O Judeu de Malta”, uma peça prodigiosa não apenas pelo seu humor e estilo, ou pelo protagonista que revelava, enfim, o gênio maligno marloviano em toda sua força… mas também porque “O Judeu de Malta” consegue ser, possivelmente, a peça mais ofensiva da história do mundo, sendo capaz de incomodar tanto as sensibilidades elizabetanas quanto as contemporâneas.

A trama de “O Judeu de Malta” é centrada em Barrabás, tipinho vil e ganacioso, e dos mais prósperos habitantes da ilha de Malta. O problema começa quando a nação insular é achacada pelo então poderoso Império Turco, que exige o pagamento de “donativos”… Dividendos que o governador maltês, Ferneze, determina que serão retirados integralmente das fortunas dos judeus da ilha. Barrabás se revolta e o que se segue é um espetáculo de malignidade, em que todos os personagens trairão uns aos outros, veneno correrá solto (e de forma imaginativa) e o crescendo de violência culminará em uma cena de crueldade que é digna das artimanhas do Marquês de Sade. Os fãs de Marlowe, claro, não esperavam uma peça “solar”: tanto ”Tamburlaine” quanto “A Trágica História do Doutor Fausto” são caracterizadas por anti-heróis com franca queda pela violência e crueldade. Mas nenhum dos protagonistas anteriores de Marlowe se compara à perversidade irrestrita de Barrabás, que reporta feliz e eloquentemente, logo no início da trama, o prazer que sente em matar freirinhas. Mas o que deve ter incomodado mais não é nem o fato de que Barrabás era incorrigivelmente maligno… Ele é, afinal de contas, punido no final, como pedia a cartilha elizabetana. O problema é que “O Judeu de Malta” não possui heróis.

Ambiguidade moral sempre foi uma característica do texto de Marlowe. Heróis de boas intenções e valores evidentes nunca existiram em suas peças, ou, ao menos, nunca foram mais do que meros coadjuvantes. Mas “O Judeu de Malta” levou a coisa a um novo patamar: não só não há heróis para se opôrem à malignidade de Barrabás, como todos os outros personagens não são menos malignos e traiçoeiros… Os que mais chegam perto de se salvarem, Ludovico e Matias, são suficientemente concuspicentes para matarem um ao outro por ciúmes, e a inocente Abigail, filha de Barrabás e única personagem genuinamente bem-intencionada da história, não tem destino muito melhor. No entanto a parada de inescrupolosos de Marlowe não é resultado de um cinismo generalizante. Ao criar sua distopia moral, Marlowe aproveitou para tecer duras críticas a dois temas que lhe eram muito familiares: religião e política.

Marlowe nunca se esforçou, pelo menos em suas peças, em esconder seu desdém pela religião. Em “Tamburlaine” o personagem-título desafia os céus com orgulho, enquanto incinera uma cópia do Alcorão. Mas isso é uma passagem episódica e que podia ser entendida como parte de um tema anti-muçulmano típico da sociedade inglesa (e europeia). Em “O Judeu de Malta”, porém, já não há dúvidas. No decorrer da peça não faltam menções pouco honrosas ao comportamento de muçulmanos, judeus… e cristãos. Os padres de Malta são apresentados como uma súcia tão gananciosa quanto Barrabás, cujo interesse em convertê-lo é alimentado mais pelo desejo de se apossar de sua fortuna do que por caridade cristã propriamente dita. É nessa hipocrisa eclesiástica que surge também um dos momentos mais engraçados da peça, quando Abigail diz, morrendo: “Testemunhe que morro cristã” e o fadre que a observa responde “E virgem também, que é o que mais me dói”. Como isso já não bastasse, Marlowe já inicia sua história com Barrabás anunciando que “… religião não é mais que um brinquedo de criança; e não há outro pecado senão a ignorância”. Claro, Barrabás é um vilão, e suas palavras sempre podem ser desconsideradas como sendo fruto de uma insanidade motivada por uma alma corrupta. Mas considerando o passado de Christopher Marlowe como guerreiro de frente das conspirações entre papistas e a Igreja Anglicana é fácil perceber aí um outro significado… e uma carta de intenções.

A chave para entender “O Judeu de Malta”, e seu autor, é a presença de Maquiavel, figura histórica que, transformada em personagem, introduz a peça. Maquiavel não era muito querido na Inglaterra elizabetana… Mas Marlowe era suficientemente escolado para ver no político florentino mais do que o arquetípico arrivista traiçoeiro. Marlowe entendia a ideia básica contida no “Príncipe”: em questões de estado que envolvem nações e povos inteiros, a moralidade cristão desenvolvida para reger interações individuais não se aplica. Era uma lição que Kit devia ter adquirido na prática: como agente secreto do conselheiro da Rainha, Francis Walsingham, Marlowe já tinha cometido sua quota de traições e mentiras para o bem do estado. Embora “Tamburlaine” já fosse um exemplar bem-acabado do príncipe maquiavélico, com sua determinação e uso racional da crueldade contra os inimigos, é no governador Ferneze de “O Judeu de Malta” que vemos a verdadeira aplicação prática da coisa. Durante o decorrer da trama, Ferneze, como Barrabás, trai parceiros e compatriotas, se alia com o assassino do próprio filho e termina por salvar Malta através de engenhos não menos reprováveis que os dos vilões da história. Sua frase final, pedindo por agradecimentos aos céus pela segurança de Malta soa hipócrita, e é. A salvação de Malta se deu graças à manipulação e ardis, e Marlowe não hesita em jogar isso na cara da audiência. A despedida de Ferneze não é um louvor aos valores cristãos, mas sim um recordatório de que também a religião dos europeus se ergue sobre sangue, sacrifício e mentiras. Apesar desse tom  confrontacional, “O Judeu de Malta” fez enorme sucesso em sua época… o que pode ter custado muito caro à Christopher Marlowe.

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Duas últimas coisas:

Hoje em dia, “O Judeu de Malta” ofende por seu conteúdo francamente racista. Barrabás, por mais que seja um personagem complexo, é também um estereótipo do judeu mesquinho e cobiçoso. Críticos já tentaram limpar a barra de Marlowe levantando algumas questões importantes: como o fato de que, no fim das contas Barrabás só se torna mau após ver suas posses ameaçadas por Ferneze, e daí suas atitudes são a de um membro de um povo oprimido sendo obrigado a agir fora da lei porque a lei não está a seu favor; ou ainda apontando que, no fim das contas, todo mundo em Malta é escroto, independente de religião, e Marlowe não pega mais pesado com judeus do que com muçulmanos e cristãos. São argumentos válidos, mas não creio que sejam necessariamente importantes. Christopher Marlowe era afinal um europeu de quinhentos séculos atrás e os conceitos de isonomia social e relativismo cultural de nossa sociedade pré-utópica não queriam dizer nada para ele. O que hoje nós interpretamos como racismo, para Marlowe era só uma representação viável de uma etnia, de acordo com os padrões culturais de sua época. Não era tanto uma intenção consciente de denunciar os supostos males do povo judeu, mas uma reprodução inconsciente de preconceitos que delineavam a forma como judeus eram retratados em toda produção cultural elizabetana… e que, de certa forma, foi relativizada por Marlowe, embora ele não tenha conseguido romper de todo com o estereótipo. De qualquer forma, o brilhantismo de Marlowe e a qualidade de seu texto, que em “O Judeu de Malta” finalmente atinge seu melhor nível, em muito superam o conteúdo desagradável da peça, herança da visão de mundo de sua época. O segredo é ler com o senso crítico ligado: o que, aliás, todo mundo devia fazer o tempo todo.

Por fim, “O Judeu de Malta” é frequentemente comparado a ” O Mercador de Veneza” de Shakespeare, também estrelado por um mercador judeu injuriado, Shylock. Embora a semelhança da trama inicial seja suficiente para podermos dizer sem medo que Shakespeare estava mesmo retrabalhando a peça de seu companheiro/antecessor, “O Mercador de Veneza” é uma obra bem mais complexa, e Shylock é muito mais profundo que Barrabás. Nada contra Marlowe: seu objetivo ao criar Barrabás não era tanto desenhar um personagem épico consumido por suas falhas, como Shakespeare vez com Shylock, quanto dar voz ao demônio incandescente de ambição e crueldade desmedida que ele tantas vezes trouxe ao palco… como o Mefistófeles de “Doutor Fausto”, como Duque de Guise de “O Massacre de Paris” e o Mortimer de “Eduardo II”. Embora em “O Mercador de Veneza” o débito a Marlowe seja mais temático e distante, esse personagem marloviano de pura malignidade iria assombrar bastante o Shakespeare das primeiras peças. Na dúvida, basta conferir o muçulmano Aarão, personagem de “Titus Andronicus”, essa sim uma verdadeira declaração shakesperiana de amor ao teatro de Christopher Marlowe.

 

Em breve, no mesmo Kit-horário, no mesmo Kit-canal: O ponto a que os homens aspiram.

Uma História Caucionária (ou, Cadê a Minha Garrafa de Rum?)

Em 1888 um gringo chamado George Eastman fundou uma companhia batizada de Eastman Dry Plate Company. Poucos anos depois, impulsionado pelas vendas de seu produto mais famoso, os filmes fotográficos Kodak, Eastman rebatizou sua companhia de Eastman Kodak Company. A partir daí a Kodak se tornaria uma multinacional monolítica, com uma marca reconhecida por todo mundo e um produto que praticamente detinha o monopólio absoluto do seu nicho de mercado. Em certos setores, como na então nascente indústria cinematográfica, filmes Kodak eram a única opção real de matéria-prima para as filmagens. A Kodak cresceu e prosperou com o cinema, e ajudou a moldá-lo. A Kodak foi crucial para estabelecer o padrão de 35mm usados para filmes até hoje, e foi a inventora do filme de 8mm, que permitiu as primeiras gravações caseiras e revolucionou o fotojornalismo. Após a Segunda Guerra, a Kodak encontrou um concorrente na empresa japonesa Fujifilm, mas ainda assim sua soberania no mercado fotográfico parecia inabalável.

Pois bem. Em 1975 um engenheiro da Kodak chamado Steven Sasson desenvolveu uma então cara e complicada nova tecnologia, filha direta da era da informática que se anunciava. Era a câmera digital. A Kodak achou interessante, mas não viu futuro mercadológico no produto. Mesmo quando, na década de 80, Steve Jobs convenceu a humanidade de que o computador pessoal era um eletrodoméstico essencial em toda casa de boa família, a Kodak ainda não achava a câmera digital viável. Eles permaneceram vinte e cinco anos sentados sob a tecnologia que tinham desenvolvido. A razão principal era simples: o principal produto da Kodak eram filmes. Comerciar uma câmera que não necessitava de filmes, para a Kodak, parecia um sucídio.

Em 1999 a Nikon lançou a primeira câmera digital de alta qualidade, voltada para profissionais. Em 2003 a Canon começou a vender câmeras digitais para o consumidor padrão. A Kodak lançou sua própria linha de câmeras logo no ano seguinte, mas o estrago já estava feito. A tecnologia que era só dela tinha se disseminado; o mercado de filmes fotográficos implodiu da noite para o dia… horror dos horrores, até mesmo no cinema! E o mercado que a Kodak dividia quase que exclusivamente com a Fuji se fragmentou, a ponto de que a empresa que um dia foi sinônimo de fotografia quase faliu, teve que vender suas subsidiárias, diminuir extremamentente de tamanho e se tornar apenas mais uma empresa de produtos fotográficos, entre tantas. E, humilhação das humilhações, suas câmeras digitais não só não eram melhores que as da concorrência, como a Kodak teve que ver a velha rival Fuji entrar no século XXI com o título indisputado de maior empresa fotográfica do mundo.

O que aprendemos com essa história?

A Kodak podia ter tido a proeminência sobre o mercado de câmeras digitais. Foram eles que inventaram a tecnologia. Eles podiam ter passado na frente da Canon e da Nikon, e ter sido os arautos de um novo formato de gravação de imagens… papel que tinham exercido no século XIX. Ao invés disso eles preferiram atrasar ao máximo o lançamento da nova tecnologia para manter o monopólio quase absoluto que tinham sobre o comércio de filmes fotográficos… a velha tecnologia, que tinha cada vez menos espaço no futuro. A Kodak tomou uma posição retrógrada, contra os interesses de seus consumidores, e que lhe custou muito caro. O erro foi crer que o futuro podia ser adiado. Quem faz isso frequentemente percebe a falha tarde demais.

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Por que essa história toda? Por que, quando eu vejo as gravadoras pedirem pela prisão dos donos do Pirate Bay, tirarem a comunidade do orkut Discografias do ar, ou apagarem links do P.Q.P Bach não posso deixar de me lembrar das tribulações da Kodak, e de quão insensato pode ser um grupo de velhos executivos indispostos com o futuro. Me vêem a cabeça a imagem arquetípica do pobre personagem de desenho animado tentando, desesperado, conter o estouro de um dique com com as próprias mãos, um buraquinho por vez. Mas fechar o Napster nos levou ao Kazaa, Audiogalaxy e Morpheus. Quando estes fecharam, nós tínhamos e-Mule, Mininova e o Demonoid.  Se estes fecharem surgirão ainda outras opções… e o que eles vão fazer? Processar cada cidadão da Terra usuário da internet? Alienar cada possível consumidor no insano estertor de morte de seu modelo de comércio ultrapassado?

A Kodak errou porque preferiu garantir a manutenção de um velho esquema de mercado à aproveitar as oportunidades e buscar a sobrevivência em um futuro que eles mesmos poderiam ter moldado. As gravadoras estão cometendo o mesmo erro. No fim das contas, todo o debate sobre pirataria é letra morta. O embate já acabou. O futuro já está aqui.

E as gravadoras já perderam a briga.

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