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"Pergunte ao Pó", de John Fante

Eu não gosto de John Fante.

Compreendo que essa declaração pode soar meio inesperada. O Brasil é um país de modismos, e afeiçoado a platitudes… criticar algo que é considerado “in” não costuma ser muito bem visto. E John Fante sem dúvida é “in”, com seus principais romances sendo reeditados, e um filme baseado em “Pergunte ao Pó” tomando as telas de cinema.

Mas eu acredito que é cabível perguntar se Fante realmente merecia essa súbita renascença de interesse em seu trabalho. Normalmente se alardeia que Fante foi um precursor infinitamente original da literatura outsider, uma espécie de pré-beatnik, influenciando desde Kerouac à Bukowski, e cuja obra surgiu em um vácuo, sem possuir nem influências imediatamente diretas.

Isso, é claro, é besteira.

A verdadeira fonte da literatura outsider é Henry Miller, que, por sua vez, estava se baseando nas “Notas do Subterrâneo” de Dostoyevsky. Foi na obra de Miller, e de seus comparsas da Geração Perdida, que os beats se basearam para criar suas próprias obras. Fante, nessa época, era só um escritor de terceiro escalão, como tantos outros que tinham migrado para a Califórnia na década de 20 e 30, procurando emprego na indústria de cinema. Se as coisas tivessem corrido normalmente, Fante teria sido ofuscado por vizinhos mais habilidosos com a máquina de escrever, como F. Scott Fitzgerald e Christopher Isherwood. O que o tirou do oblívio foi a intervenção de Bukowski que, na década de 80, trabalhou à favor da republicação da obra de Fante, ao mesmo tempo que de declarava “Fante foi meu Deus”. Sem dúvida Fante teve uma influência crucial na formação da identidade literária de Bukowski… mas creio que o próprio velho bêbado superestimava essa influência (talvez propositadamente; escritores são sensíveis quanto à revelar suas fontes de “inspiração”). Na prática, a obra de Bukowski deve muito mais à Tchekov e Céline… e, novamente, Henry Miller.

Assim, se você desmistifica a figura de Fante, o que sobra de sua arte? Não muito, pra ser sincero. Fante não era um escritor ruim, mas lhe falta o domínio de linguagem de Miller, a audácia de Kerouac ou a dimensão humana pérfida de Bukowski. “Pergunte ao Pó” não passa de uma história meio água-com-áçucar, que flerta com a auto-indulgência sem a necessária dose de auto-ironia… O fato de que 90% dos ditos “autores de blog” afetados e obcecados pelo próprio umbigo elencam Fante como escritor predileto já devia servir de aviso. Fante é meia-boca. Como seus seguidores, ele até tem seus bons momentos, mas estes não levam à nada.

E, baseando-se apenas na leitura do livro, será que vale a pena ver o filme? Bom, se você for homem, eu diria que sim. Tem a Salma Hayek, e ela faz até uma atrocidade como “Era Uma Vez no México” parecer suportável. Se você for uma mulher, eu digo o seguinte: é fato sabido que grandes livros não produzem grandes filmes. Pelo que eu li, se bobear, “Pergunte ao Pó” pode ser até um filme bem decente.

11 Comentários on “"Pergunte ao Pó", de John Fante”

  1. #1
    on Jun 27th, 2006 at 11:16 am

    < ![CDATA["Era Uma Vez no México": o Robert Rodriguez é uma das piores coisas que há no cinema moderno.]]>

  2. #2
    on Oct 26th, 2007 at 5:22 am

    < ![CDATA[você é uma criancinha arrogante e pretensiosa metido a entender de literatura, eu não sei qual é a sua idade, mas sua ironia é forçada e mal feita, quanto a john fante, não é preciso falar nada, meu caro, vai morar em los angeles sozinho na década de trinta, mas isso eu sei que você não vai fazer, meu conselho, aprenda alguma coisa de útil, faça um serviço braçal, isso pode ser muito bom pra você, meu e-mail é pedrommer@hotmail.com,caso você queira responder, mas peço de antemão, não queira,porque tenho mais o que fazer do que ficar lendo ironias de pirralho, em todo caso, até um sujeito cheio de frescuras como você merece direito de resposta.]]>

  3. #3
    on Oct 26th, 2007 at 1:28 pm

    < ![CDATA[Realmente, ir morar em Los Angeles na década de 30 soa meio impraticável...]]>

  4. #4
    on Nov 7th, 2007 at 12:14 am

    < ![CDATA[eu li algumas outras coisas do seu blog, achei muitas coisas legais, você escreve bem. Fiquei muito nervoso com sua crítica a john fante, não porque eu não aceite ouvir quem não goste de john fante, sim porque os argumentos que você utilizou foram, com o perdão da sinceridade, preconceituosos, achei a palavra certa,isso mesmo, acho que você pode estar caindo numa cilada, uma cilada muito perigosa para um escritor, sua resenha me lembrou aquelas críticas que são feitas por especialistas letrados que lêem trezentos livros por dia, e aplicar esse método para um livro mágico como pergunte ao pó, é uma enorme violência.Pergunte ao pó, é um daqueles livros que tem que cair na sua mão no momento certo, é um livro muito simples para quem está acostumado com Dostoievsky, com Celine, com Hemingway, enfim, é um livro que não aborda grandes abismos psicológicos, mas é exatamente aí que reside sua magia.Quando você estiver cansado dos grandes escritores, dos grandes abismos, das grandes dúvidas existenciais, e quiser somente ler algo bonito, algo caloroso, algo que te deixe feliz, leia de novo, e você pode mudar de idéia.]]>

  5. #5
    on Jul 1st, 2008 at 12:20 pm

    < ![CDATA[Eu também discordo de sua crítica ao John Fante, e achei que soou auto-indulgente de sua parte. Como o nosso amigo anônimo disse anteriormente.]]>

  6. #6
    on Jul 1st, 2008 at 7:37 pm

    < ![CDATA[Não creio que compreendi o que você quis dizer com "auto-indulgente", Vítor. Se puder explicar melhor...]]>

  7. #7 andreas ferg
    on Sep 9th, 2011 at 9:44 pm

    O autor da resenha parece querer mostrar uma erudição literária que na realidade não pçossui [é uma coisa enfeitada]. Concordo com o “defensor” de Fante. A escrita é ensaiada, pretensiosa e preconceituasa. É visível a imaturidade como pessoa etc. A sua crítica é de um academicismo muito bobo.

  8. #8 Felipe
    on Sep 9th, 2011 at 10:34 pm

    Esse post é de 2006. Esse comentário é do final de 2011. Se passaram quase cinco anos e, até o momento, nenhum dos defensores do Fante conseguiu erguer uma argumento melhor do que falar mal do meu texto. O ataque pessoal, esse último recurso da falta de razão, me parece a mais eloquente amostra do ponto defendido na minha crítica: de que não há nada em John Fante para se admirar de um ponto de vista literário, e seus fãs são movidos mais por hype do que por uma apreciação crítica genuína.

  9. #9 #9
    on Feb 16th, 2012 at 3:10 pm

    Não concordo que ir para Los Angeles em 1930 soasse meio impraticável. Sim, tudo bem que foi um ano após a Grande Depressão, mas a mídia americana da época, usava quase toda a publicidade existente para mostrar para as pessoas, principalmente para os americanos de outras regiões dos EUA, especialmente nas pequenas cidades, que Los Angeles ainda era um “paraíso”, e que podia-se trabalhar lá, algo que acontecia e sua consequência é mostrada no Livro pois Arturo Bandini nasceu em Rocklin, Colorado (pode-se saber isto ao ler “Espere a primavera,Bandini”, primeiro livro de Fante), assim, isto por questões lógicas até seria impraticável, mas a mídia americana fazia as pessoas crerem que não era assim, e o personagem Arturo Bandini, provavelmente, foi uma dessas pessoas que acreditaram nisto.

  10. #10 felipedeamorim
    on Dec 26th, 2012 at 5:14 pm

    O comentário não foi nesse sentido, #9. Ir, hoje, viver em Los Angeles da década de 1930 é impraticável. Salvo com o uso de uma máquina do tempo.

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    on Mar 19th, 2014 at 9:53 am

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