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Indecisão 2008

O post de ontem sobre a eleição gringo-americana tinha essencialmente função de blague. Mas me ocorreu que talvez valesse a pena desenvolver um pouco mais o tema. Afinal a pergunta que te ocorreu, ó leitor, é justa: como você pode ter tanta confiança na vitória de McCain?

 

Eleições são fenômenos sociais complexos. No ramo das ciências políticas a cada duas horas surge uma nova tese, monografia ou artigo tentando entender os processos de escolha da população. Todas tendem a girar em falso, não tanto por causa de falhas de elaboração próprias de cada autor, mas por causa daquele que é o ônus da sociologia em geral: nenhum fato social é realmente tão simples a ponto de admitir uma única explicação. Qualquer consideração sobre o processo de escolha eleitoral está fadada, portanto, a ser uma aproximação tateante, ou ainda pior, uma generalização crassa. Mas isso não nos impede de identificarmos algumas tendências grupais.

 

A decisão de voto pode ser definida por critérios ideológicos, utilitaristas, morais ou arbitrários. O critério ideológico é aquele que segue uma identificação partidária ou de ideologia política (“só voto na esquerda”, ou “só voto no PSDB”). O critério utilitarista é aquele em que o voto é usado como moeda de escambo em uma troca de favores, não necessariamente explícita, entre o eleitor e o candidato (caso de servidores públicos que votam em massa em determinado prefeito porque ele garantirá o reajuste do salário-base, ou coisa assim). O critério moral é o que nos interessa e será mais detalhado adiante (isso é o que se chama de foreshadowing, estudantes de literatura). O critério arbitrário, é, bom, arbitrário. É a velhinha que votou no Collor porque ele era mais bonito, ou vota no Lula porque trabalhou com ele e gosta do cara. São critérios pessoais e imprevisíveis e que escapam à alçada da análise científica… pelo menos dessa vez.

 

O que acontece é que as pessoas, definindo-se assim o número de votantes em potencial de um país ou agrupamento político, não vota apenas por causa de um desses critérios. O que ocorre é uma interação de todos os quatro em que interesses ideológicos, utilitários, juízos de valor e o quanto o candidato parece com seu saudoso vovozinho se combinam em uma reação digamos química até se consolidar em uma preferência pessoal por determinado concorrente. Influem ainda nesse contexto a propaganda política, os interesses de curto e longo prazo e diversos outros fatores contextualizantes. Um desses fatores é, como se pode imaginar, a cultura popular. Não, eu não estou falando do bumba-meu-boi, seu idiota. Cultura popular, nesse sentido, se refere aos valores, crenças e prioridades de um povo.

 

No Brasil, por exemplo, o voto utilitário possui um grande peso. Isso é resultado direto de nossa cultura de formação patriarcal em que as relações institucionais são preteridas à favor de relações interpessoais e o poder possui função histórica de troca de favores. Não quer dizer que no Brasil não existe voto ideológico… a crescente preponderância e cisão política entre PT e PSDB demonstra bem a importância desse fator. No entanto o domínio da “promessa” no imaginário político brasiliano é sinal denunciante de que o utilitarismo grassa como princípio fundamental das relações estado-povo na nação, seja na forma do clientelismo clássico ou repaginado como PACs e afins.

 

Mas daí acontece que os Estados Unidos votam de forma diferente.

 

Para o olho destreinado é fácil concluir que a votação nos EUA se dá segundo critérios ideológicos. Afinal eles tem um bipartidarismo bonitinho e bem-dividido que, nas últimas eleições, até fomentou uma divisão explícita entre os estados “azuis” e “vermelhos”. Mas considerem o seguinte…

 

Na prática as diferenças entre Republicanos e Democratas (não confundir com o PFL em pele de cordeiro) são superficiais. OK, a política externa é um tanto diferente. Democratas gostariam de sair do Iraque e da Rodada Doha, não necessariamente nessa ordem. Republicanos preferem estender a empreitada neo-colonial até ela se tornar inviável e são mais temerários quanto a abertura das próprias barreiras alfandegárias. Mas para Joe, o americano médio que assiste Superbowl e se entope diariamente com comida do Burger King ou Wendy´s (McDonald´s é mais um fenômeno internacional) isso não faz diferença. O que importa são impostos, a economia interna que vai mal das pernas, o sistema de saúde pública que pertence ao século XIX e a crise imobiliária. E a realidade é que nenhum candidato em qualquer dos lados em questão possui planos muito diversos para lidar com qualquer uma dessas questões. E o eleitor gringo sabe disso.

 

E é aí que entra o critério moral que vigora como princípio-motor importante do processo de escolha gringo-americano. Na dúvida entre dois candidatos que possuem, no fim das contas, um discurso bem semelhante, os irmãos do norte votam naquele que é a melhor pessoa.

 

Existem, claro, razões para isso. Da mesma forma como nós temos um débito com nosso passado de colônia de exploração, os Estados Unidos foi fundado seguindo critérios meio messiânicos. Uma passada de vista criteriosa na história social daquela gente demonstra um tema recorrente da nação se auto-definindo como os portadores de uma missão em prol do bem-comum. É a idéia do “excepcionalismo” que já mencionei por aqui. O imaginário norte-americano se ergue no conceito de que eles se distinguem do resto do mundo por causa de um comprometimento universal com a liberdade que nenhuma outra nação possui. Acontece que esse comprometimento constitui um fardo e somente líderes de profunda virtude podem carregá-lo… estão vendo onde vou chegar?

 

É por isso que Bill Clinton quase foi expulso do cargo por ter dedado a estagiária. É por isso que Nixon renunciou por ter contado uma mentira. No Brasil nossos líderes são pegos mentindo em freqüência diária e ainda assim não se cogita expulsá-los do cargo por conta disso… particularmente se eles estão fazendo obras e movimentando a economia. Mas os Estados Unidos não funciona assim. A idéia de que o presidente dos EUA deve ser moralmente ilibado é crucial na decisão de voto por lá, é o ponto de partida sobre o qual os outros critérios adicionam ou subtraem pontos e, por mais que um candidato possa ser útil ou contar com identificação ideológica, se ele não é considerado digno da investidura, ele já começa correndo atrás.

 

Contudo todo juízo de valor é meio aleatório… e nesse sentido os critérios morais se aproximam dos critérios arbitrários de votação. Obama fez sua parte para se vender como um bom-moço… freqüentador de Igreja, fiel à esposa, confessou contrito ter dado uns pegas no cigarrinho do demo quando era jovem e vivia loucamente… o que é um pecado perdoável e até humanizante para a maioria dos eleitores norte-americanos. Mas não é realmente possível controlar o juízo de valor que as pessoas fazem sobre você. Porque, por mais que externamente isso se baseie em princípios dogmáticos e regras de conduta até bem claras, na prática as pessoas são julgadas não tanto de acordo com méritos próprios quanto por causa dos conteúdos inconscientes de quem julga… aquilo que as pessoas gostariam de ser ou, mais importante ainda, aquilo que elas não admitem para si mesmas que são. Pode até parecer uma decisão racional embasada em qualidades empíricas. Mas se trata, na realidade, de um voto decidido por pura afeição e atração pessoal.

 

E eis aí a grande questão: cortando ao básico, quem consegue ser mais popular? Obama ou McCain? Um veterano de guerra ou alguém que fede à cueiro? Obama é cativante, ninguém duvida. Mas a média da população é sempre mais conservadora e mais inclinada a tomar a decisão que oferece menos riscos. E McCain sabe capitalizar sua aura de herói como nenhum outro político gringo (e também não prejudica nada o fato de que um dos seus deméritos mais evidentes, a idade avançada, possa ser convertido justamente em uma arma contra seu adversário… em uma palavra: experiência). Enquanto isso, eleger Obama envolve admitir para si mesmo um sincero descontentamento com um sistema político e social que, no fim das contas, os próprios eleitores ajudaram por tanto tempo a sustentar. É um ato de auto-crítica. Já McCain é um voto (infundado) de esperança que o sistema pode ainda dar certo. Bem mais suave no ego. Note que nenhum dos dois candidatos tem, até o momento, um plano político que seja mais do que palavras ao vento. A competição realmente se resume a “quem você gosta mais”?

 

E, me desculpe, Obama. Mas todo mundo adora um velhinho engraçado.

2 Comentários on “Indecisão 2008”

  1. #1
    on Jun 11th, 2008 at 10:13 am

    < ![CDATA[E tem outra, Felipe, a gente não pode esquecer q a eleição americana é indireta, ou seja, não é o povo que vota. Aí complica mais ainda. Enfim...]]>

  2. #2
    on Nov 5th, 2008 at 1:16 pm

    < ![CDATA[[...] E O Mundo Se Torna Um Pouco Melhor nov.05, 2008 em Tolices Eu estava errado. [...] ]]>

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