Submarino.com.br
Retrato do Artista Quando Tolo Rotating Header Image

O Tigre Fortuito

Certo dia, pouco depois de despertar e antes de tomar o café-da-manhã, descobri que havia um tigre em meu apartamento. Não sei como ele chegou lá. Dormia aninhado na roupa suja, ao lado da máquina de lavar. Talvez tivesse se desgarrado de um circo, talvez fosse o mascote extraviado de um dono irresponsável. Com o coração disparando no peito, recuei no maior silêncio possível, e sai.

Passei o dia todo pensando no tigre. Pensei que era mentira, ou alucinação. Duvidei de minha capacidade intelectual, e depois dos meus sentidos. Temi ser devorado. Depois, experimentei a mais peculiar animação: quantas pessoas podem dizer que tiveram um tigre em suas casas? Ali, nas roupas sujas, ao lado da máquina de lavar?

Não chamei polícia, nem bombeiros. Iam me considerar louco, na melhor das hipóteses. Na pior, poderiam achar que o tigre era meu, que tentava apenas me livrar do animal agora que o ônus de criá-lo se tornara fardo pesado demais. Tigre é animal silvestre, eu podia ser preso, multado, sabe-se lá o que mais. Não. Resolvi calar. Esperar que o tigre fosse embora, se é que havia mesmo um tigre e não somente um truque de minhas percepções. Em todo caso, passei no açougue antes de voltar para casa. Não queria meu hóspede faminto.

Abri a porta, entrei, o saco de 10 quilos de coxão duro pesando úmido nos meus braços. Eu ofegava. Então, perdi o fôlego. O tigre ainda estava lá. Como um rei, se esparramava sobre o sofá da sala. Virou devagar a cabeça para mim, quase desinteressado. Nossos olhares se cruzaram pelo mais breve instante e então ele piscou, e virou o rosto. Não se importava comigo, não queria saber de mim. Mas ainda assim preferi não arriscar. Lançei o coxão mole sobre o piso, deixando-o desabar barulhento no centro da sala, e enquanto o tigre avançava sobre a carne recém-chegada, corri para o meu quarto, onde me tranquei.

Por todo um fim-de-semana vivi trancado no quarto, refém do meu tigre. As pessoas ligavam e eu inventava desculpas no telefone para não encontrá-las. Perdi reuniões e amigos. Através da porta podia ouvir sua respiração, o som de suas garras rasgando o assoalho, de seus passos por todo meu apartamento. Ele brincava, derrubava coisas, parecia estar se divertindo enquanto eu me encolhia em agonia. Chegou segunda-feira, e eu tinha que ir trabalhar. Abri a porta devagar, dei uma espiadela… o tigre ressonava sereno no meio do corredor, sobre os destroços de meus livros e discos, de meu computador. Uma facada sutil de dor passou pelo meu peito, mas respirei fundo e segui em frente, sobre os restos mortais de Caio Fernando Abreu e Clarice, de Lou Reed e dos Beatles. Canções que eu não conseguiria mais ouvir calçavam o caminho até o tigre, que pisei com o cuidado exigido pelo silêncio. Pé ante pé me aproximei e quando já me aproximava da fera, seus olhos se abriram. Sem fazer nenhum movimento, ela apenas rosnou, contrariada. Parei, dei meia-volta e retornei para o quarto, de onde liguei para o emprego avisando que estava doente. Por um bom tempo.

Não dormi direito aquela noite, como já não dormia mais. Exausto, passava as madrugadas rolando na cama, imaginando que a qualquer momento seria devorado. Me erguia, súbito, tomado por acessos de pavor, para verificar se a porta do quarto estava trancada. Via que estava, relaxava. Ao deitar, me perguntava como aquele fina lâmina de madeira compensada poderia resistir às vontades de um grande felino de meia tonelada, e o terror voltava. Lá fora, a sinfonia da noite, as buzinas e carros apressados, os cães latindo, os sons de bêbados voltando para casa, se misturavam ao barulho de minha geladeira sendo derrubada como uma presa recém-conquistada, ao som do meu computador sendo destroçado, mastigado por uma mandíbula prenha de dentes, feroz. Eu chorava. E me perguntava qual seria o ato, o passo em falso, que o faria me matar.

Consegui então dormir. Estava exausto demais, minha mente fervia com a febre trazida pela preocupação. Nem percebi o sono chegar. Só o notei porque, na profundeza da madrugada, quando todos os ruídos já se cansaram e o mundo inteiro dorme, pudi ouvir distintamente o som de suas patas adentrando meu quarto. Prendi a respiração, meu coração explodiu no peito. Cada pedaço de mim se contraiu em temor. Meus olhos, arregalados, não divisivam nada nas trevas. Mas eu podia sentí-lo, com meu medo, com esse pavor que se extendia além de mim e abarcava todo o quarto, podia perceber o ar abafado sendo deslocado pelas movimentações de seu corpo enorme, podia apalpar com minha apreensão a temível simetria de seus músculos, sentir o corte de suas garras, a beleza de suas listras, a força de suas presas. Fechei os olhos para conter as lágrimas e senti seu hálito, quente e impiedoso, caindo sobre minhas costas e meu pescoço. E me queimava.

Eu talvez tenha desmaiado. Ou ainda, tudo pode ter sido apenas um sonho, vívido e cruel. Mas quando abri os olhos já era dia, os primeiros e hesitantes raios de sol já pedindo licença para atravessarem as venezianas e iluminarem o recinto. Me levantei com calma, evitando os movimentos bruscos, e percebi que não havia tigre ao meu lado. Minha porta estava fechada, firme e trancada. Receoso, encostei nela e investiguei os ruídos do lado de fora. Não ouvi os sons do tigre, nem seus passos, nem seu ronronar dorminhoco. Abri uma fresta, me preparando para mil emboscadas. Não havia nenhuma. Com cuidado, pensando cada passo, fui avançando por meu apartamento. O tigre não estava mais lá. Desaparecera no ar, de forma tão gratuita e mágica como quando surgira.

Sentei sobre o sofá rasgado da sala, e observei o que ele me deixara… minhas coisas quebradas, destroçadas, destruídas. Alguns dos meus livros marcados, alguns para sempre inutilizados. Meus álbuns e dvds, quebrados, mastigados, comidos. Muito da minha vida arrasada. E chorei. Chorei em meio às ruínas do que restara. O tigre tinha partido. Mas de certa forma, eu o amava.

4 Comentários on “O Tigre Fortuito”

  1. #1
    on Oct 5th, 2008 at 1:32 pm

    < ![CDATA[Essa é a segunda versão de "O Tigre Fortuito". Existe uma primeira versão, que, embora siga a mesma premissa básica, difere em diversos pontos: ela é muito mair, tendo umas dez páginas; tem um narrador ostensivamente feminino; mais um personagem (o síndico); e é menos lírica, por assim dizer, tendo um enfoque mais realista e trágico. O final dessa primeira versão também é diferente, sendo que a história se extende além da cena do quarto até envolver um confronto direto com o tigre. Mas, apesar de ter menos ação e desenvolvimentos, ainda assim acho que essa segunda versão contém mais beleza e está mais próxima da minha intenção original para a história.

    (Maína e Babi, caso estejam passando por aqui, vocês foram as únicas que tiveram acesso aos dois contos. Favor opinar.)]]>

  2. #2
    on Oct 7th, 2008 at 10:26 pm

    < ![CDATA[O tigre é o medo?]]>

  3. #3
    on Oct 8th, 2008 at 2:37 pm

    < ![CDATA[Pode ser. A coisa é aberta à interpretação.]]>

  4. #4 NOMAD55555
    on Jun 25th, 2013 at 5:29 pm

    Como um “não ser” dentro de si.

Deixe um comentário