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Oscar 2009

* Normalmente eu não dedicaria um post ao Oscar 2009. Primeiro, o Oscar não é tão interessante como ferramenta de diagnóstico cultural. É um prêmio interno da indústria de Holywood, historicamente incompetente em avaliar filmes de fora, regido por um sistema de “voto por camaradagem” que resulta em frequentes premiações duvidosas e que, em termos de cinema em geral, representa uma fatia bastante limitada da produção cinematográfica mundial. Hoje em dia, Holywood não é nem a maior, nem a mais lucrativa, nem a mais vista indústria de cinema do mundo. Os títulos de maior e mais vista pertencem à Bolywood, e a mais lucrativa é a indústria de cinema pornô de San Fernando Valley (que abusa de mídias alternativas, particularmente a internet… como você deve saber). Assim dizer que o Oscar é “o grande prêmio do cinema” é como dizer que o Prêmio Folha é o “grande prêmio do jornalismo brasileiro”. Não é. São prêmios internos. O que tem sua validade, mas não tem representatividade.

* Mas eu resolvi quebrar minha própria regra de silêncio por dois motivos: primeiro, ao dar uma olhada na cobertura que o evento recebeu pela internet eu tive uma fantástica amostra de como o jornalismo cultural é uma terra devastada nesse país. Absolutamente TODOS os sítios visitados chafurdam nas análises mais superficiais. Quando arriscam um comentário mais profundo, ou demonstram um enfoque completamente errôneo ou simplesmente falam besteira. É bastante aprente que os repórteres escrevendo sobre o Oscar desconhecem a história da cerimônio ou os contextos sociais que a fomentaram; ou não possuem o embasamento cultural suficiente capaz de analisar porque a vitória de Quem Quer Ser Um Milionário representa uma mudança crucial na forma como Holywood entende cinema, e que remete a uma revolução técnica que se iniciou quarenta nos atrás com Godard, ou a consagração de da profunda mudança no eixo político internacional pós-11 de Setembro, coma validação cultural da nova multipolarização das nações.

* Aliás, peço demais: eu me contentaria se o pessoal escrevendo sobre o Oscar fosse sequer capaz de reconhecer os atores e atrizes homenageados durante o recebimento dos melhores prêmios de interpretação. Pode parecer exagero, mas aposto o rabicó, o rabicó!!, como mais de um que escreveu sobre o Oscar na noite passada não reconheceu de olhada Sophia Loren ou Ben Kingsley.

* O problema é que jornalismo cultural no Brasil é encarado ou como jornalismo de entretenimento ou como espaço para exibir sisudez que deve se passar por erudição.  Como entretenimento, a crítica é descompromissada, rasa e bastante picareta. Não existe conhecimento técnico sobre o que está sendo tratado, não existe interesse em investigar o contexto social com a qual a obra dialoga. O importante é se o produto justifica o gasto. O crítico fica reduzido a uma versão carne-osso do Procon. Claro, sem um cabedal crítico decente, esse cepa de jornalistas se deixa influenciar principalmente por percepções pessoais questionáveis e o resultado são absurdos como críticas do Omelete dando “4 ovos” (isso é muito bom) para Sexta-Feira 13, um filme atroz até para os padrões já não tão elevados da série. (Eu assisti: garanto que é ruim. Gosto de slasher movies, mas Sexta-Feira 13 chega a ser triste de patético. Todas as mortes são telegrafadas, não existe surpresa, os efeitos especiais são tão fakes que fazem o Zé do Caixão da década de 70 parecer um programador da Pixar, e a violência é tão tímida que até Happy Tree Friends supera. Sexta-Feira 13 é uma relíquia de museu. “Jovens, isso é o que seus pais entendiam por terror.”)

Do outro lado do abismo entre as gerações, nós temos gente como o Inácio de Araújo, cujo artigo na Folha de S. Paulo de sexta-feira taxou Quem Quer Ser Um Milionário  de “péssimo”. Um oscar de melhor filme depois, me pergunto se Inácio está diposto a reconsiderar a idéia. O intrigante é que esse é o mesmo tipo de crítico que mais tarde exalta qualquer filminho mal-ajambrado com o rótulo de nouvelle vague, sem perceber que uma coisa faz parte da outra. O que era revolucionário em 60, hoje é o padrão. O jump cut, aquele corte abrupto entre uma cena e outra, contendo uma breve elipse de tempo, que Godard inventou, eu já vi até um novela das seis da Globo. A arte é um monstro mutante, autofágico. Ao se entronizar uma tendência artística e admirá-la como um objeto parado no tempo, ignorando e tratando com descaso e mau-humor as novas tendências que são suas diretas descendentes… Bom, quer dizer que, ou você não sabe do que está falando, ou você não gosta realmente do assunto e está só mantendo a pose de crítico chato. Mas existem outros caminhos. É possível ser erudito e estar antenado nas mudanças que ocorrem no mundo. É possível analisar de um ponto de vista técnico e traduzir isso como algo gostoso de se ler. É possível ver beleza e valor em algo que não é seu gosto pessoal, e compreender que outras pessoas são capazes de ver isso também. Por fim, é possível entender que uma obra de arte representa coisas diferentes para diferentes pessoas, e que classificações como “regular”, “três ovos”, “excelente” ou “90% fresh” não querem dizer nada. O importante é achar a verdade no coração da obra de arte, e ver se o resto dela reflete isso.  

* E daí tem o meu segundo motivo para escrever esse texto. Na descrição da cerimônio, muitos deram foco ao prêmio póstumo para Heath Ledger, ou para a “injustiça” contra Mickey Rourke. Ora, foda-se. É um ótimo exemplo de como a pauta cultural é guiada por preferências e ojerizas pessoais, muitas vezes transformadas em factóides. Na verdade o prêmio mais comovente da noite foi o de Melhor Roteiro, para Dustin Lance Black, autor de Milk. Aquele foi um momento humano, real e verdadeiro. A história de alguém que enfrentou o pior do ódio dentro do seio da própria família e comunidade e, ao invés de se refugiar na vergonha e no medo, enfrentou o caminho duro para trazer ao mundo uma história que poderia inspirar a todos nós, independente de nossa orientação sexual, a lutarmos contra um dos últimos bastiões de vil desigualdade e preconceito legitimizada pelas constituições dos Estados de Direito. A negação de direitos civis básicos como o de constituir família aos homossexuais.

Isso é muito mais importante que picuinhas sobre quem merecia mais ou não qualquer prêmio. E, nesse contexto, é vergonhosa e lamentável a atitude de Marco Ribeiro, dublador de Sean Penn, que se recusou a interpretar a voz do personagem Harvey Milk, devido a suas ligações com a Assembléia de Deus. No passado, Ribeiro não teve problemas para dublar assassinos maníacos (Charada, em Batman Eternamente, o vampiro de Kiefer Sutherland em Garotos Perdidos), mafiosos (Sean Penn em Sobre Meninos e Lobos, Tom Hanks em Matadores de Velhinha), álcoolatras e usuários de drogas (Robert Downey Jr. em Zodíaco e Homem de Ferro) nem se furtou de trabalhar em filmes que brincam com crenças católicas (Tom Hanks de novo em O Código da Vinci). Sim, Ribeiro tem o direito de se negar a fazer o trabalho que quiser.  Mas nós também temos o direito de repudiar publicamente qualquer atitude homofóbica e qualquer organização, religiosa, político ou cultural, que sustente sua fé e crenças com o ódio, a injustiça e o medo.

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2 Comentários on “Oscar 2009”

  1. #1 Ricardo C.
    on Feb 26th, 2009 at 2:26 pm

    Felipe, sei não… Deixe eu ser mais claro: concordo com a indigência de boa parte do tal jornalismo cultural, e tb me alinho a você em relação ao que vc disse sobre o que é o Oscar. Portanto, em linhas gerais, subscrevo boa parte do que vc escreveu, ou pelo menos o teu raciocínio. Discordo, porém, em alguns pontos:

    1) Vc começou falando do Oscar como pouco interessante como “ferramenta de diagnóstico cultural” — subentendendo-se aí uma cultura para além das fronteiras dos EUA. Diria ser a visão de nove de cada dez profissionais de cinema, cinéfilos bem embasados, críticos com estofo e demais pessoas que tenham alguma “estrada” em cinema de todos os continentes, e não apenas do norte-americano. [Na melhor das hipóteses e forçando um pouco a barra, eu pertenceria ao quarto grupo.] Só que, mais abaixo, para reforçar a sua crítica ao raso embasamento cultural dos repórteres que escrevem sobre o Oscar, você diz que isso os impede de analisar como

    [...] a vitória de Quem Quer Ser Um Milionário representa uma mudança crucial na forma como Hollywood entende cinema, e que remete a uma revolução técnica que se iniciou quarenta nos atrás com Godard, ou a consagração de da profunda mudança no eixo político internacional pós-11 de Setembro, coma validação cultural da nova multipolarização das nações.

    Será que em nome de sua crítica você não acabou dando importância demais a esse filme? Hollywood sempre será indústria de entretenimento, sabemos disso, e volta e meia tentará parecer um pouco menos conservadora do que é. Mas não creio que “Quem Quer Ser…”, por mais emblemático que possa parecer [especialmente por seu suposto caráter "multicultural"] seja tão “divisor de águas” assim na história do prêmio, nem mesmo como “afiliado” à revolução técnica godardiana a que vc se refere. Além disso, esse e qualquer filme concorrendo a algum prêmio tb deve ser pensado em relação à concorrência — que neste caso não era lá essas coisas —, e tb pelo fato de ser uma fábula conhecida, a de dois irmãos que tomam caminhos diferentes na vida e como qualquer fábula acaba em redenção e em mensagem de cunho moral, assunto que não destoa tanto assim das preferências hollywoodianas, não é?

    2) Tenho simpatia por boa parte das críticas do Inácio Araújo, e se não concordo com sua visão de que o filme em questão seja péssimo, tampouco vi na crítica ao filme algum tipo de visão “dinossáurica”, sugerindo que o cinema só vale se for dentro de um fossilizado marco “nouvellevaguiano” ou coisa parecida. Em particular, a parte que me pareceu mais interessante da crítica dele está aqui:

    Vista por Boyle, a Índia é um esgoto a céu aberto, moralmente inclusive. Nesse lodo viceja a alma pura de Jamal, uma mistura do estoicismo do dr. Kimble de “O Fugitivo” com a ingenuidade de Forrest Gump. Com ele entramos no terreno do prodígio. Jamal é puro, bom e forte o bastante para sobreviver. O que o torna assim? Algo de sua natureza, ou da ordem do destino. Ou seja, embora use a mão pesada para os problemas indianos, a explicação do caráter de seu herói é metafísica. Jamal passa incólume por tudo, como esse mundo infame em que vive não o afetasse.

    Eu também vi uma mão pesada na direção, como se por meio da apresentação supostamente “crua” das mazelas indianas — mesmo que algo estilizada pela fotografia e pela velocidade nas tomadas — ela fosse dar consistência à fábula que ele apresenta… E olha que gosto do Boyle, Cova Rasa e Trainspotting andam bem cotados em minha memória!

    Na crítica do Inácio Araújo não encontrei quase nada do que vc levantou. Se me permite o papel de “advogado do diabo”, eu me arriscaria a dizer que você gostou do filme e ele não — sem desmerecê-los, ok?, já que ambos parecem ter estofo para sustentar suas visões —, e que vc acabou enxergando no olhar do crítico um exemplo do teu raciocínio sobre o que seria um “embate entre gerações”, tocando por tabela na sua menção à oposição “jornalismo de entretenimento [superficial e ignorante] X espaço para exibir sisudez que deve se passar por erudição”, oposição que vc critica — e concordo contigo, diga-se de passagem. Resumindo: não creio que esta crítica que vc citou do Inácio Araújo represente bem as questões que vc levantou…

    Um adendo: reconheço não ter conhecimento técnico para discutir contigo, então em caso de réplica, não “bata” muito com argumentos do tipo, por favor! Sequer sou estudioso do assunto. Sou apenas um cinéfilo, dos mais comuns, que acompanha razoavelmente o que se faz em cinema, desde que comecei a assistir alguns “filmes-cabeça” — a palavra “cult” ainda não tinha o seu uso consagrado — lá pelo final dos 70 do século passado… :-)

    P.S. Desculpe o longo comentário. É que o assunto muito me interessa, e você levantou questões que considero muito importantes.

    [Reply]

  2. #2 felipedeamorim
    on Feb 27th, 2009 at 2:33 am

    Relaxa Ricardo, não vou bater em você. Eu sei que pareço pegar muito pesado às vezes, mas é porque estou batendo de frente com gente que tem toda a estrutura da mídia convencional do seu lado. Expôr com franqueza e de forma crua suas picaretagens é um dos poucos meios disponíveis para um pobre blogueiro nivelar a discussão.

    Mas seus comentários são bem-pensados e pertinentes. À eles:

    1) Admito, e já escrevi em um post anterior, que Quem Quer Ser Milionário? não é tudo isso… O filme é meio cabeça-de-vento, o roteiro derrapa feio em certos pontos e a história é ostensivamente inverossímel. No entanto existem certos elementos nesse filme que realmente tornam sua conquista no Oscar um feito bastante único. Desde 1987, quando o prêmio foi para O Último Imperador, que o Oscar não ia para um filme estrelado por atores desconhecidos, sob a batuta de um diretor europeu. Mais importantea inda: a edição frenética de Quem Quer Ser Milionário faz parte de uma tradição de montagem que sempre foi entendida como oposta a montagem norteamericana (chamada de “organicista”, cuja preocupação é fazer as ligações entre as cenas parecererem óbvias e bem encaixadinhos). Eu sei que isso pode parecer muito técnico, mas não é… estamos falando aqui de um estilo de narrativa visual que você já deve ter visto em um montão de filmes que gostou (e que não gostou também). Pois bem. Quem Quer Ser Um Milionário? é o primeiro filme desse tipo a ganhar um Oscar (apesar de não ser o primeiro a ser indicado a um). Até hoje, todos os ganhadores seguiam a tradição organicista, de forma ou outra. Assim, se trata verdadeiramente de uma troca de bastão… o reconhecimento que existe uma nova forma de se fazer cinema comercial que não segue o padrão clássico de Holwyood, é que é capitaneado por uma nova geração de diretores (Boyle, Fincher, Aronofsky) que vai substituir a primazia da antiga. Coisa parecida aconteceu em 69, quando Perdidos na Noite ganhou o Oscar, marcando a transição do velho cinema espetáculo meio bobinho da era dos musicais (My Fair Lady, A Noviça Rebelde) para filmes com temas mais autorais, sombrios e realistas (como o Poderoso Chefão, O Franco-Atirador, Operação França). E,a o mesmo tempo, trata-se de um filme que dialoga de forma explícita com Bolywood, o que é um marco dado o fato de que o universo auto-referente de Holywood raramento dá recibo sobre a existência de outros centros de produção cinematográfica (em tempos recentes, só tivemos O Poderoso Chefão e o cinema italiano em 72 e O Último Imperador e o cinema asiático/europeu, em 87)

    Portanto, se trata sim de uma vitória importante, ainda que o filme em si, fora de todo esse contexto, possa não ser tão miraculoso assim. E, claro, o fato de que, apesar da audácia técnica o filme não destoa da fábula holywoodiano, como você mesmo apontou, sem dúvida nenhuma deve ter ajudado.

    2) Quanto a crítica ao Inácio de Araújo, reconheço meu viés. Eu simplesmente acho que ele foi injusto com o filme, realizando avaliação de um ponto de vista estritamente pessoal. Em retrospecto, porém, reconheço que ele não é um bom exemplo de crítico “sisudo”. Ainda assim, o homem em questão parece apresentar uma preferência constante por filmes mais antigos, “clássicos”, em detrenimento de produções mais modernas, ainda que de qualidade. Mas vou me abster de comentar mais sobre esse assunto até podr emitir um juízo crítico mais abalizado.

    E fique à vontade para comentar o quanto e quando quiser. Discussão apiaxonada e inteligente é sempre bem-vinda.

    [Reply]

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