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Felipe Explica: Especial Termos Literários, Segunda Rodada

Um tempo atrás fiz uma edição especial de Felipe Explica dedicada apenas à termos literários. Atendendo a pedidos (das vozes na minha cabeça, principalmente), vamos a uma nova rodada, focada em aspectos da narrativa:

História-moldura:  mais conhecido em inglês como frame story, a história-moldura é um recurso bastante comum em textos clássicos. É, por exemplo, a história de Cheherazade, nas “Mil e Uma Noites”, contando histórias para o sultão como forma de adiar sua execução, ou a história das sete damas e sete cavalheiros, no “Decamerão”, que se refugiam da peste em um castelo e trocam histórias para passar o tempo, ou ainda os viajantes em “Os Contos da Cantuária”, trocando histórias durante sua peregrinação para a catedral de Canterbury. Assim, a história-moldura tem o objetivo de fornecer ao autor um contexto para apresentar uma série de contos ou histórias menores. Tenha em mente que, antes do século XVII, contos não eram um gênero narrativo muito bem definido, e a história-moldura era uma forma elegante e inventiva de apresentá-los como parte de uma trama maior, favorecendo o interesse e a compreensão dos leitores. Em alguns casos, a história-moldura também era usada para classificar com antecedência o tipo ou o tema do conto a ser narrado, como acontece em “Decamerão” e em “Os 120 Dias de Sodoma”, servindo como exercício estilístico para autor (isso, às vezes, caracteriza a chamada “padronização temática”). Após a primazia do romance e a popularização das coletâneas de contos, no século XIX, as histórias-moldura caíram em desuso, embora ainda possam ser encontradas em obras esparsas. Histórias de terror, particularmente, costumam usar histórias-moldura em seu início, para criar um clima de veracidade à narrativa, como acontece em “A Volta do Parafuso” de Henry James. No cinema, o recurso é usado, por exemplo, no filme O Gabinete das Figuras de Cera, coisa fina da época do expressionismo alemão.

In media res: literalmente “no meio da coisa”, em latim. In media res é uma técnica usada quando se começa a história após o conflito dramático já ter se iniciado. É o que acontece em “O Paraíso Perdido” de Milton… quando o poema se inicia, Lúcifer já foi expulso do Céu e já trama sua vingança no Inferno. Outro bom exemplo de in media res é o filme Cidade de Deus, que começa com o protagonista já testemunhando o confronto final entre as facções na favela, e então volta na história para explicar como os personagens chegaram até ali. Quem Quer Ser Um Milionário? traz uma inovação narrativa. A história não só começa in media res, como os flashbacks que explicam o passado e as motivações do personagem servem para impulsionar a trama no presente.

Mise-en-abyme: expresão francesa que quer dizer “colocar no abismo”, mas que é melhor traduzida como “colocar no infinito”. Se refere a um recurso estilístico, originalmente usado em heráldica, da recursividade: a história que conta uma história dentro da história, ou um quadro onde temos a imagem do mesmo quadro reproduzida (ou, uma capa de gibi onde o personagem aparece lendo o mesmo gibi). Bons exemplos literários de mis-en-abyme abundam em “As Mil e Uma Noites”: Cheherazade frequentemente conta histórias de pessoas que contam histórias… às vezes sobre outras pessoas contando histórias. Isso acontece na história de Sinbad, o Marujo, na história dos Irmãos do Barbeiro e nas História dos três Calândares e das Cinco Damas de Bagdá (Na qual o segundo calândar não só conta sua história mas como conta também a história que contou para um gênio). Outro exemplo possível de uso da técnica está no hábito de Shakespeare de apresentar peças dentro de suas peças como ele faz em “Hamlet” e “Sonhos de Uma Noite de Verão”. Na cultura pós-moderna, o mis-en-abyme tem muita influência, ainda que seja usado esparsamente: Jorge Luis Borges era particularmente fascinado pela idéia de uma recursividade infinita de histórias dentro de histórias, e isso é uma clara inspiração por trás dos contos “A Biblioteca de Babel”, “O Jardim dos Caminhos Que Se Bifurcam” e “O Livro de Areia”, e em sua adapatação cinematográfica de “As Mil e Uma Noites”, Pier Paolo Pasolini preservou o aspecto recursivo da narrativa árabe. Talvez uma dos usos mais interessantes da história-dentro-da-história está no genial e clássico curta La Jetée (base do filme Os 12 Macacos), em que o protagonista termina por tomar parte da história que presenciou quando menino, fazendo com que a história-dentro-da-história termine se encontrando e se tornando, a história principal.

Roman-fleuve: é francês. Quer dizer, romance-rio e é um jeito muito poético (típico do francês, que é mesmo uma língua meio fresca) de se referir a um conjunto de romances que embora contem histórias contidas, com começo, meio e fim, dividem entre si personagens e cenários, compondo um panorama geral de uma sociedade. O exemplo clássico é a Comédia Humana de Balzac: personagens de “Pai Goriot” também aparecem em “Esplendores e Misérias das Cortesãs”, ajudando a compor uma visão geral da vida urbana parisiense no século XIX. Outro exemplo são os romances de William Faulkner que se passam no condado fictício de Yoknapatawpha, caso de “O Som e a Fúria” e “Enquanto Agonizo”. Hoje em dia a técnica do roman-fleuve é largamente utilizada na ficção científica e na fantasia, como é o caso dos contos de robôs de Isaac Asimov ou da série Discworld de Terry Pratchett. É bom ter em mente que o termo roman-fleuve só se aplica a romances em que cada parte pode ser lida e compreendida sem a leitura de todos os outros compenentes da obra geral. “Em Busca do Tempo Perdido”, por exemplo, não é um roman-fleuve. É uma única grande história contada em 8 volumes. Da mesma forma, romances que são continuações de outros não são roman-fleuve: seria o caso da série “Duna” de Frank Herbert. “O Quarteto de Alexandria” pode ser considerado um tipo peculiar de roman-fleuve, em que cada romance conta uma história contida (exceto que no caso dessa obra-prima de Lawrence Durrel, a mesma história é recontada nos outros romances, por outros pontos-de-vista). Em matéria de cinema, se o inspirado curta Tarantino´s Mind estiver correto, a obra de Quentin Tarantino é um grande roman-fleuve.

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5 Comments on “Felipe Explica: Especial Termos Literários, Segunda Rodada”

  1. #1 Fique por dentro Artista » Blog Archive » Felipe Explica: Especial Termos Literários, Segunda Rodada …
    on Apr 1st, 2009 at 7:37 am

    [...] à termos literários. Atendendo a pedidos (das vozes na minha cabeça, … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

  2. #2 Bruno
    on Apr 9th, 2009 at 11:27 am

    Você esqueceu de mencionar o mais famoso “in media res” do mundo: a Odisseia, que fez com que o recurso do “in media res” se tornasse padrão para todo tipo de epopeia que veio depois (Eneida, Lusíadas, O Tempo e o Vento etc.).

    Ah, e por falar em O Tempo e o Vento, seriam os romances urbanos de Érico Veríssimo (Clarissa, Saga, Olhai os Lírios do Campo, Música ao Longe etc.) casos de roman-fleuve? Ou seriam continuações mesmo?

    [Reply]

  3. #3 felipedeamorim
    on Apr 9th, 2009 at 3:10 pm

    Não foi bem um esquecimento, Bruno… eu nunca li a Odisseia. Não tinha ideia de que começava in media res.

    Também desconheço a parte urbana de O Tempo e o Vento, então fica difícil eu dar uma opinião abalizada. Mas acho que é possível, bem possível…

    [Reply]

  4. #4 Catão de Souza
    on Sep 13th, 2009 at 8:01 pm

    Escutem aqui, ós meus: um tal de Felipe (suspeito até ser o mesmo de Amorim) escreveu um texto no qual alinhou nove razões pelas quais Cesare Battisti não deve ser entregue à nova fornada de capetas italianos do nono círculo. Como meu pseudônimo, imerecido, prestigiou o autor e a relação de comentaristas do artigo, por sinal aqui ainda não epigrafado (e nem o será), gostaria de saber por que o texto sumiu deste blog e, com ele, os comentários e minhas mal traçadas linhas? O fato de pilhar-me aqui se deve à absoluta incapacidade de encontrar acesso a outro espaço mais adequado.

    [Reply]

  5. #5 felipedeamorim
    on Sep 29th, 2009 at 9:10 pm

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