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Sobre Fadas e Monstros… Histórias de Abril

Algumas vezes, o responsável pela mentira não é só o mentiroso.

A história das fadas de Cottingley começou de forma bastante inocente. Em 1917 a adolescente Elsie Wright recebeu em sua casa, na até então marasmenta cidadezinha de interior de Cottingley, sua prima de dez anos de idade, Frances Griffiths. O pai de Elsie, um engenheiro elétrico, mantinha em sua casa uma câmera fotográfica e, num ato de condescendência paterna, emprestou-a para as meninas tirarem algumas fotos nos belos campos da vizinhança. Quando Arthur revelou as pranchas com as imagens ele descobriu isso aqui:

Ao ver essas imagens Arthur se espantou. Ele não tinha, até então, ideia de como sua filha era talentosa para forjar imagens. Convencido de que uma máquina fotográfica era um equipamento de precisão caro e custoso de se manter (isso foi uns 80 anos antes das máquinas digitais, amiguinhos) Arthur proibiu as meninas de continuarem usando o equipamento para suas brincadeiras. A história toda teria terminado aí, e as fadinhas de Cottingley seriam lembradas apenas como uma anedota familiar peculiar, se não fosse a atuação da mãe de Elsie… e a espiral de interesses que ela iniciaria.

O início do século XX foi uma época peculiar na história do misticismo. O império britânico se estendia de uma ponto à outra do mundo, sua auto-proclamada superioridade técnica e moral para governar a Terra sendo sustentada por sua crença inabalável na racionalidade e na técnica. Ao mesmo tempo, o horror da Primeira Guerra Mundial mutilava e triturava pais, filhos, irmãos e esposos nas trincheiras do fronte europeu. Nesse contexto, um grande número de pessoas buscava desesperadamente respostas para o absurdo do mundo, e, em parte por descrédito das velhas religiões e seus dogmas irrelevantes para o novo futuro sombrio, em parte seduzidos pelo canto do poder da ciência, eram seduzidas por um novo tipo de espiritualidade, pautada pelo racionalismo e que substituía o ritual romano pelo método científico. Foi nesse mundo que floresceram Aleister Crowley, Edgar Cayce, Allan Kardec… e a Sociedade Teosófica de Madame Blavatsky, da qual a mãe de Elsie, Polly Wright, fazia parte.

Ao ver as fotos da filha, Polly, talvez um tanto precipitada, considerou-as imediatamente reais. Porque Elsie não confessou a mentira na hora, é impossível saber. Talvez fosse para não estragar a alegria da mãe, talvez fosse para evitar uma bronca, talvez simplesmente por causa da famosa infinita perversidade infantil. O fato é que Polly comentou o caso para seus companheiros da teosofia e a história logo se espalhou no círculo ocultista inglês. Até aí, o caso ainda permanecia restrito… mas o caos na vida de Elsie e Frances, da vilazinha de Cottingley e da Inglaterra logo se instauraria, tudo por conta de um oftalmologista inglês… que era também considerado como o homem mais inteligente da Inglaterra.

Arthur Conan Doyle é hoje lembrado como o criador do Sherlock Holmes… uma espécie de Dr. House que desvendava crimes, para a geração que só assiste tv. Mas a mente que alimentava o brilhantismo de Holmes era inquieta demais para se contentar apenas com o trabalho solitário da escrita de contos de mistério. Tanto que Doyle, por mais de uma vez, manifestou seu desprazer em continuar escrevendo as histórias do detetive mais famoso do mundo. Seus interesses eram mais vastos. Particularmente, Doyle era um espiritualista confesso e determinado a trazer ao grande público a realidade inegável da existência de um mundo etéreo imiscuído no nosso. Pode parecer loucura, mas faz bastante sentido: Arthur Conan Doyle era um homem dado a devendar mistérios, e nada mais fascinante e desafiador que desvendar o maior mistério de todos: a vida e a morte.

Quando Arthur Conan Doyle soube das fotos pediu para ter acesso a elas. Polly, e o círculo teosofista acedeu alegremente, e Doyle as incluiu em um artigo que já escrevendo sobre fadas (a coincidência servindo de prova de que tudo ocorria como mandava o destino). A matéria foi publicada na STRAND, então a revista mais popular da Inglaterra. O ano era 1920, e o país foi tomado pela polêmica.

Elsie e Frances, meio que sem querer, tinham acertado um ponto nevrálgico do espírito de sua época. Enquanto Keats escrevia poemas sobre a renascença céltica, e a burguesia inglesa se envolvia cada vez mais com médiuns e sessões espirituais, as meninas apareciam com imagens que comprovavam a existência de algo além desse mundo… e ainda faziam isso com fotografias, a nova tecnologia que representava o século que nascia. Tá certo, nem todo mundo caiu no conto de Elsie e Frances. Já naquela época muitos apontaram a aparência de bidimensionalidade das fadas, sua iluminação destoante e o fato de que elas pareciam um tanto quanto… britânicas demais. Mas, novamente, essa foi a era em que a tempestade de uma guerra genocida rugia pouco além do Canal da Mancha. Se os céticos não demoraram a levantar a voz, muitos outros também levantaram em defesa das fotos, desesperados para crer que ainda havia algo de magia, beleza e inocência em um mundo que parecia caminhar de forma resoluta para o Armageddon. Finalmente, em 1921, Edward Gardner, um prominente teosofista seguiu para Cottingley, disposto a tirar mais fotos e encerrar o caso de vez. Se possível provando com evidêcia científica e além de qualquer dúvida que as fadas existiam.

Elsie e Frances nunca foram muito claras sobre porque elas continuaram a farsa. Pelo que foi possível intuir de entrevistas posteriores, em parte elas temiam que confessar tudo, naquela momento, expôria ao ridículo gente demais. Carreiras poderiam acabar, e seus pais poderiam ser prejudicados pela inevitável reação de ultraje. Ao mesmo tempo, elas estavam se divertindo um pouco em engabelar todos aqueles cavalheiros ingleses gentis e com ares de sabe-tudo. Crianças inglesas, particularmente meninas, não tinham lá muita voz ativa na época e deve ter sido uma experiência catártica poder enrolar com mentiras a mesma sociedade que os ignorava quando falavam verdades.
Assim, elas aceitaram a proposta de Gardner, e tiraram mais três fotos:

Nos anos que se seguiram, Conan Doyle publicou um livro relatando o caso, “A Vinda das Fadas”. No entanto as imagens nunca se concretizaram como a evidência irrefutável da existência do sobrenatural que os espiritualistas almejavam. Décadas depois, já idosas, e depois da morte de Conan Doyle e Edward Gardner, Elsie e Frances confessaram terem forjado as fotos, usando fadinhas de cartolina presas à alfinetes. Como um truque tão primário pôde enganar tanta gente, incluindo aí o homem mais esperto da Inglaterra, isso elas não souberam responder. O que aconteceu foi a combinação da vontade do povo inglês de redescobrir um pouco de magia e fantasia em seu cotidiano, combinado com certa ingenuidade em pensar que duas belas meninas fossem incapazes de mentir… pra não mencionar o chauvinismo que considerava elas incapazes de operar uma câmera a ponto de realizar truques de perspectiva e dupla exposição (que é o que explica a natureza intangível das fadas na quinta foto). Na verdade, Elsie era uma artista e fotógrafa talentosa, que com uma brincadeira inconsequente, capturou a imaginação de uma nação e provou que mesmo a mente mais brilhante pode ser enganada, quando assim deseja. As pessoas acreditam no que querem crer.

Elsie e Frances engabelaram (quase) todo mundo, mas foi porque suas vítimas assim quiseram. Hoje, ninguém as culpa por nada. Como um adulto que lembra com carinho dos feitos de mágica que o espantavam quando criança, mesmo sabendo que eles eram só truques, o caso das fadinhas sobrevive como uma história pitoresca, que rendeu um filme (O Encanto das Fadas, meia-boca) e muita decoração peculiar em Cottingley. Talvez, se elas tivessem confessado na época, a situação tivesse sido bem diferente.

*******

Embora o caso das fadinhas de Cottingley seja bastante conhecido por seu próprio mérito, a fama das criações de Elsie e Frances nem se compara com o fenêmeno mundial que é o monstro pré-histórico que habita o Lago Ness. Registrado pela primeira vez na “Vida de São Columba”, um relato hagiográfico do século VII, Nessie, para os íntimos, fez muito bem a transição de folclore popular escocês para superpotência pop. Ela inspirou brinquedos, pacotes turísticos, um sem-fim de documentários e alçou até o ponto mais sagrado da canonização pop: foi tema de um episódio dos Simpsons. Toda essa popularidade se iniciou com uma série de artigos de jornal relatando encontros com a Nessie, na década de 30 do século passado e, a partir daí, gerou um movimento constante de curiosos, malucos, cientistas e criptozoologistas em direção dos planaltos escoceses. E, junto dessa turma, os falsários. Ossos falsos, vídeos, fotos, todo tipo de evidência falsa imaginável tomou o mundo em todas essas décadas… Um canal inglês chegou até a forjar um documentário de brincadeira. Ainda assim, nenhuma evidência falsa atraiu tanta atenção quanto a famosa foto abaixo, publicada no jornal DAILY MAIL em 1933, e atribuída a um médico cirurgião que teria observado o monstro durante uma viagem ao lago… Tudo mentira. Mas a graça é que, se não fosse por outra evidência forjada, essa foto também não existiria.

O monstro acima foi criado por um tipinho chamado Christian Spurling. Em 1999 ele confessou em um livro que a imagem era uma armação. A criatura na foto era, na realidade, um modelo de submarino preso a um pescoço e cabeça feitos com madeirite. Com um pouco de contraluz para escurecer detalhes, e um enquadramento esperto que não oferece imagens de fundo para oferecer perspectiva, a mais célebre imagem de Nessie estava pronta. Acontece que Spurling não estava sozinho nessa. A “foto do cirurgião” foi concebida por um caçador chamado Marmaduke Wheterell. Um ano antes ele se dedicava a encontrar evidências reais da existência de Nessie, quando trombou com uma série de pegadas na margem do lago. Grandes e com um formato singular, Wheterell acreditou ter achado as pegadas do próprio monstro… ea nunciou isso para todos os lados. Porém, os tais rastros de Nessie eram resultado dos esforços de um outro fanfarrão, que as tinha plantado lá para enganar os otários, fato que foi trombeteado pelo DAILY MAIL, que não poupou Wheterell do ridículo. Este, furioso, decidiu se vingar. Reunindo amigos e filhos, entre eles o escultor Spurling, Wheterell criou a foto acima, que enviou para o DAILY MAIL através de um cirurgião isento que concordou em colaborar com a farsa. Porque Wheterell não revelou sua farsa logo depois, é algo que não sabemos. Talvez ele tenha ficado satisfeito ao ver o jornal que o humilhara publicar a foto, ou talvez ele tenha gostado que a popularidade da foto tenha reacendido a crença no Monstro do Lago Ness… talvez mitigando a sensação de ter feito papel de idiota que ele sentia.

Ou talvez, Wheterell simplesmente tenha gostado de fazer todo mundo de bobo e não tivesse sido forçado a confessar por causa de circunstâncias externas, como foi o caso de Doug Bower. Outro desocupado inglês, Bower foi o chapa que, numa noite da década de 70, inspirado por relatos ufológicos, convenceu um amigo com quem bebia num pub que seria uma grande sacada sair por aí de madrugada, achatando ramos de trigo para criar figuras geométricas gigantes nos campos. Após seus primeiros esforços terem sido rechaçados como meros fenômenos naturais de caráter peculiar, Bower decidiu aprimorar os desenhos, criando padrões cada vez mais complexos, e lançando uma moda por todo o mundo (e até um filme Sinais, já da fase esquecível do Shyamalan). Enquanto redes de notícia e televisão de todo mundo acompanhavam o “mistério”, Bower curtia em casa, sem nenhuma intenção de revelar sua grande traquinagem. O que o fez mudar de ideia foi o emputecimento de sua esposa que, percebendo a gigantesca milhagem do carro que Bower usava para passear por aí de madrugada, concluiu que ele tinha uma amante. Antes que a patroa pedisse o divórcio, Bower confessou a armação dos círculos nos campos de cultivo. A história vazou para os jornais e acabou bem: em 1992 Doug Bower e seu comparsa David Chorley receberam o prêmio IgNobel de Física pelas suas “contribuições circulares à teoria de campo baseada na destruição geométrica de colheitas inglesas”.

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7 Comments on “Sobre Fadas e Monstros… Histórias de Abril”

  1. #1 Fique por dentro Artista » Blog Archive » Sobre Fadas e Monstros… Histórias de Abril – Retrato do Artista …
    on Apr 7th, 2009 at 7:07 am

    [...] brilhante pode ser enganada, quando assim deseja. As pessoas acreditam no … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

  2. #2 Fique por dentro Artista » Blog Archive » Sobre Fadas e Monstros… Histórias de Abril – Retrato do Artista …
    on Apr 9th, 2009 at 8:14 am

    [...] que mesmo a mente mais brilhante pode ser enganada, quando assim deseja. … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

  3. #3 bidimensionalidade.net - Sobre Fadas e Monstros… Histórias de Abril
    on Apr 24th, 2009 at 2:54 pm

    [...] Mas, novamente, essa foi a era em que a tempestade de uma guerra … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: [...]

  4. #4 Kamila Pereira
    on Apr 29th, 2009 at 4:17 pm

    Seus textos foram essenciais para uma resenha de filme que produzi, num trabalho escolar. Sua forma de escrever me fascinou e ambos os textos foram totalmente esclarecedores. obrigada!

    [Reply]

  5. #5 maria laura
    on Jun 21st, 2009 at 3:40 pm

    eu achei bonitas as fotos porque e bonitos e como se fosse menina asombrada sendo fantasma sei la mais e bonita essa menina para quer eu to pensando que ela e montro to ficando muito muito doida ne pessual mais fala serio mais ela nao aparece asombraçao agora minha gente tenho que ir chat ja falei de mais chat beijo para todos meus fa meus amigos minha familia e etc chat galerinha

    [Reply]

  6. #6 maria laura
    on Jun 21st, 2009 at 3:44 pm

    legal gosto gente das minhas falas eeeeeeeeeeeeeeee chat para todos vcs e nu teem essa primeira fala foi eu que falei e to falando agora tambem voces gosta nue eu sei chat galerinha pessoas familia alunos galeraise muito muito muito de bom para voces todo quero manda so um beijo para meus deus chat

    [Reply]

  7. #7 maria laura
    on Jun 21st, 2009 at 3:50 pm

    gosto gosto nu foi dessa outra leitura eu sei que gosto mai eu so montro sabe porque porque eu so ne aha ha ha ha ha mais que aposta que eu so olha buahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
    buahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhbuahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhgostaram agora cuidado meninos vcs pode ter medo agora vcs nao sabe to asistindo o amor e sego chat

    [Reply]

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