Um dos elementos mais inadmissíveis do caso do assassinato de Aline Silveira Soares em Ouro Preto, e do subsequente acobertamento e incriminação ilegal de inocentes perpetrada pela polícia civil da cidade, foi a postura da mídia brasileira no caso. A apatia e a omissão prevaleceu na maioria dos jornais, que deram voz de forma acrítica às teorias fantasiosas do delegado Adauto Corrêa. E alguns foram até além, não só dando voz, mas efetivamente comprando o factoide e chafurdando no mais crasso sensacionalismo. E não estou falando aqui dos usuais tabloides “espreme-sai-sangue”, como Agora e o Extra.
Em seu “Manual de Redação”, a Folha de S. Paulo alerta que “[...] objetividade jornalística e o distanciamento crítico são fundamentais para garantir a lucidez quanto ao fato e seus desdobramentos [...] Esse procedimento visa evitar que o jornal se transforme em porta-voz involuntário de interesses políticos [..]“. Esse último trecho aliás é impresso em vermelho, para destacar sua importância. Levando em consideração a cobertura da Folha para o caso, conclui-se que a Redação do jornal é povoada por daltônicos. Em nenhum momento de sua cobertura a Folha de S. Paulo se preocupou em destacar as teorias contraditórias que se opunham a versão oficial, contestar o caráter evidentemente mirabolante da acusação ou dar voz aos acusados. Nem sequer investigou as denúncias sobre testemunhas que se recusaram a depôr ou de coação por parte do delegado. Pelo contrário, mais de uma vez a Folha reproduziu declarações da acusação de que os réus teriam tentado “acobertar” o crime limpando a república onde moravam e lavando roupas. Em nenhuma das vezes foi mencionado que esses fatos ocorreram quatro dias depois da data do crime, e após a polícia de Ouro Preto ter declarado aos réus que não faria perícia técnica no local.
O espetáculo de conivência midiática não se restringiu à Folha. Também o Globo não realizou nenhum esforço para providenciar uma cobertura crítica ou minimamente informada. Assim como a Folha, o jornal carioca se contentou em reproduzir informes da acusação e do inquérito policial, sem questionar seu contéudo ou oferecer ao leitor uma nota dissonante. E, assimo como a Folha, o Globo também publicou a informação de que os réus teriam acobertado evidência “tirando cartazes do jogo RPG do quarto, lavando as roupas usadas e limpando um dos cômodos com cloro” sem oferecer contextualização. Na verdade os réus estavam só fazendo a limpeza rotineira da república onde moravam, nada mais aceitável depois de um fim-de-semana de festa, e o tal “cartaz de RPG” nunca tinha existido. Havia, sim, um postêr do filme O Corvo… mas retirar um postêr da parede dificilmente configuraria um ato de “acobertamento”. Acobertamento é mais como, por exemplo, modificar a posição de um corpo em uma cena de crime para forjar um ritual. Isso é acobertamento. O trabalho preguiçoso e ineficiente dos jornalistas do Globo não destacou a diferença. Pior ainda, O Globo abarçou o sensacionalismo com despudor, ao dar ao caso o nome de “Assassinato do RPG”, usado em manchetes.
A falta de sobriedade do jornal dos Marinho não se compara, no entanto, à do jornal dos Mesquita. Em toda sua cobertura o Estadão preferiu, de todos os termos possíveis, chamar o caso de “Crime do RPG”. O Estadão deu um passo além ao dos outros jornalões quando não só deu ampla publicidade as invenções do delegado Corrêa como abraçou de coração a tese inverossímel. “O assassinato ocorreu durante uma partida de RPG, em que os participantes assumiam personagens do bem e do mal” foi o maior esforço de imparcialidade do Estado, que ignorava o laço tênue entre o jogo de RPG e o crime, ou as constantes declarações dos réus que eles não eram jogadores frequentes.
Pode-se argumentar que, no fim das contas, nenhum desses jornais era mineiro, e não tinha maior acesso ao caso. Mas isso não serve como justificativa para a cobertura ignorante e incompetente cometida pela Folha, Estado e Globo. Se não sabiam, deviam ter se informado. Se não se informaram, não deviam ter publicado. A função de um repórter é essa. Se ele não consegue realizá-la a contento, são pagos para quê? De qualquer forma, o principal jornal de Minas também não se saiu muito bem. Embora oferecesse maiores dados que seus concorrentes de outros estados, a cobertura do Estado de Minas também foi enviesada e largamente baseada no inquérito mentiroso acochambrado pelo Ministério Público mineiro. Em seu esforço de imaginação, o Estado de Minas conseguiu até descrever a participação dos réus no crime, coisa que nem o Ministério Público nem o delegado Corrêa conseguiram fazer: “Na madrugada do crime, Cassiano chegou à República Sonata, onde todos os envolvidos com o crime estavam hospedados, sem camisa e apenas com uma bermuda. Depois do fato, ele tentou se desvencilhar de todo o material ligado ao RPG, segundo a própria Camila informou à polícia. Para o MP, durante todo o tempo em que esteve fora da república, Maicon Fernandes esteve com ele, ‘prestando apoio, senão material, quando pouco, de natureza psicológica, ao executor Cassiano’. Edson Poloni, estudante de artes dramáticas e citado no processo como mestre em RPG, teria tido a função de ‘dirigir a execução da personagem’. Não à toa, depois do crime, ele se formou em comunicação, rádio e TV no Espírito Santo. Uma das testemunhas informou ter sido coagida pelo rapaz a servi-lhe de álibi durante o lapso temporal em que ocorreu o crime.” Não há aí menção alguma às inconsistências no história montada pela acusação, aos desvios procedurais no inquérito, ou a versão dos acusados. Há, isso sim, pérolas do jornalismo marrom como “Não à toa, depois do crime, ele se formou em comunicação, rádio e TV” um non sequitur lógico de risibilidade tão grotesca que me faz imaginar se o Estado de Minas ao menos tem um editor verificando o trabalho de seus jornalistas. Ei, eu sou formado em História, que crime terá me motivado a completar esta graduação? Mas meu momento predileto é o destaque que o Estado de Minas dá para “uma das testemunhas” que acusou um dos rapazes de “coação”. E as outras quinze testemunhas de defesa, inclusive as que acusavam o delegado Corrêa de coação? Por que elas não foram ouvidas?
Em defesa do Estado de Minas, eles foram o único veículo que, concluído o julgamento, deram prosseguimento ao caso, embora ainda de forma tímida e hesitante. Na Folha, Estado e o Globo, lavaram-se as mãos, de forma vergonhosa. Pena. Creio que seria urgente avisar as redações do país, e os cursos de jornalismo, que imparcialidade não consiste apenas de escrever “suposto assassino” ao invés de “assassino”. Consiste em dar voz a mais de um lado da questão, investigar hipóteses contraditórias e ter a coragem de apontar inconsistências, principalmente nas versões oficiais. Com sua reportagem acrítica, a mídia apenas serviu de cúmplice da tramoia de Adauto Corrêa. Caso sério, pois não se tratou apenas de mau jornalismo: Corrêa enfrentou em 2004 sérias objeções por parte do Ministério Público quanto a qualidade de sua investigação. O então procurador do caso Edvaldo Pereira Júnior chegou a tentar afastá-lo do cargo, diante da recusa do delegado de realizar um inquérito digno de nome. Se a mídia tivesse dado tanta atenção a isso na época quanto deu as descrições de rituais satânicos ou a relação do crime com um jogo de fantasia, talvez o caso tivesse tomado outro rumo e a então acusada Camila Dolabella não tivesse tido que passar 6 meses na prisão, por causa de um crime que ela não cometeu.
Ao explicar a importância do trabalho jornalístico, o “Manual de Redação” da Folha de S. Paulo destaca a importância do “diferencial”. Diz o texto que “o diferencial é o resultado de uma atitude crítica. Ele é a maneira pela qual o jornal pode surpreender e inquietar o leitor, bem como pôr em xeque ideias feitas”. Conforme as vendas de jornais impressos despencam, e a mídia convencional perde sua relevância e alcance, surgem as mais diversas teorias para explicar a iminente preeminência dos blogs sobre a cobertura de fatos jornalísticos. Uma das mais votadas é de que os blogs teriam a vantagem da agilidade na cobertura, pois não possuíriam o mesmo compromisso ético com credibilidade e averiguação de fatos que os jornais convencionais. Bom, essa parte da credibilidade e averiguação nós sabemos bem que é balela. Eu, por exemplo, não publico qualquer fotomontagem que caiu no minha caixa de e-mails sem verificar sua procedência… o que quer dizer que esse blog aqui já é mais confiável que a Folha. Quanto a agilidade… o Caso Ouro Preto vêem se estendendo já faz oito anos. Não creio que agilidade tenha sido um fator determinante aqui. O que faltou foi postura crítica, valores humanos e coragem da velha mídia para investigar os fatos, questionar a versão oficial, confrontar o que estava errado e reconhecer seus próprios prejuízos e erros. Assim, ouso oferecer uma outra explicação para a futura predominância dos blogs sobre a mídia convencional: não é nenhuma vantagem técnica, ou estrutural. É qualitativa, e embasada na lógica de mercado: Nós fazemos melhor jornalismo.
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Quero agradecer os esforços de Idelber Avelar, sem o qual minha denúncia do Caso Ouro Preto não teria tido tanta visibilidade. Idelber foi uma importante ajuda não só para tornar público o caso, mas também porque sua postura investigativa e corajosa servia como inspiração direta para que eu escrevesse o artigo. Também quero parabenizar aqueles jornalistas que tiveram, sim, a coragem de confrontar desde o princípio o espetáculo de desinformação e manipulação de fatos que foi a investigação do assassinato de Aline. Entre eles, Fernanda Lizardo e Cynthia Semíramis, que escreveu este excelente artigo desmistificando o caráter “perigoso” do RPG.
Continuarei averiguando o Caso Ouro Preto. Em Minas a procuradora Luiza Helena Trócilo Fonseca manifestou pedido para a Corregedoria da Polícia Civil investigar o inquérito realizado em 2001. Não é o suficiente para deixar ninguém aliviado. Da mesma forma como os jornais pressionaram para que Camila, Edison, Cassiano e Maicon fossem julgados com presteza, nós devemos pressionar para que a Corregedoria leve adiante sua investigação e averigue as responsabilidades pelo inquérito mentiroso construído para incriminar quatro inocentes. Escrevam aos jornalões protestando contra sua ineficácia e exigindo satisfações. Passem adiante o texto sobre o Caso Ouro Preto ou o link para esse blog. E entrem em contato com as autoridades corregedoras de Minas Gerais:
SECRETÁRIA ESTADUAL DE JUSTIÇA E DE DIREITOS HUMANOS DO ESTADO DE MINAS GERAIS
Praça da Liberdade, s/nº – Bairro de Lourdes – 1º andar
CEP: 30.140-010
Telefone: (31) 3250-7100
SECRETARIA ESTADUAL ADJUNTA DE DIREITOS HUMANOS DO ESTADO DE MINAS GERAIS
PRAÇA DA LIBERDADE, S/N – BAIRRO LOURDES – 1º ANDAR
CEP: 30.140-010
Telefone : (31) 3250-7121
Fax: (31) 3250-7122
SECRETARIA ESTADUAL DE SEGURANÇA PÚBLICA DO ESTADO DE MINAS GERAIS
Praça da Liberdade, s/nº – Bairro Funcionários – 2º andar
Telefones: (31) 3236-3717 / 3236-3222 / 3236-3016
Fax: (31) 3236-3700
CORREGEDORIA DE POLÍCIA DO ESTADO DE MINAS GERAIS
Praça da Liberdade, s/nº – Bairro Funcionários – 4º andar
BELO HORIZONTE/MG
CEP: 30.140-010
Telefone: (31) 3236-3820
CONSELHO FEDERAL DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL
SAS Quadra 05 – Lote 01 – Bloco M
BRASÍLIA/DF
CEP: 70.070-050
Telefone: (61) 316-9600
Fax da Presidência: (61) 316-9650
ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL (SEÇÃO MINAS GERAIS)
Rua Albita, 250 – Bairro Cruzeiro
BELO HORIZONTE
CEP: 30.310-160
Telefone: (31) 3289-5800
COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL / MINAS GERAIS (OAB/MG)
Rua Ouro Preto, 67 – Barro Preto
BELO HORIZONTE/MG
CEP: 30.170-040
Telefone: (31) 3271-2511 (ramal 233) – Fax: ramal 210






on Jul 11th, 2009 at 4:33 pm
Questão. O que fazemos com esses endereços e telefones? Temos como fazer reclamações formais ou só vamos encher a paciência de uma telefonista?
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on Jul 11th, 2009 at 5:36 pm
Para a OAB e organizações de Direitos Humanos, o melhor é informá-los sobre a situação e pedir providências. Eles também pode orientar sobre como protocolar pedidos formais.
Acho que seria interessante organizar um abaixo-assinado para pedir novas investigações sobre o caso.
Quanto à Corregedoria de Polícia e a Secretaria, é pra ligar enchendo o saco mesmo, pedindo constantes informações sobre o andamento do caso.
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on Jul 12th, 2009 at 1:12 am
Bom, também devemos pedir um ferro no delegado e na promotora.
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