* Grey Gardens é uma pequena joia do documentário mundial. Nem tanto pelo que mostra, mas por como ele faz para mostrar.
* A história de Grey Gardens começou com um pequeno escândalo de jornal. Em 1971 o departamento de vigilância sanitário do condado de Suffolk, Nova Iorque, realizou inspeções em uma velha propriedade litorânea, conhecida como Grey Gardens (os Jardins Cinzentos, em vernáculo). Composta por grandes jardins e um velho casarão, a casa estava tomada por lixo, detritos, gatos pestilentos e pulgas… além de duas moradoras idosas, Edith “Edie” Bouvier e sua mãe, Edith Bouvier Beale. Sozinhas na casa e incapazes de sustentar as necessidades de manutenção do casarão, elas deixavam a velha mansão ruir à sua volta enquanto vivam em condições precárias. Mas até aí a história não tinha nada de particularmente inédito. Coisas assim acontecem, em toda parte do mundo. O que conferiu publicidade ao caso e transformou a situação de Grey Gardens em um breve escândalo nacional foram os laços de sangue das Bouvier… elas eram nada menos que tia e prima de Jacqueline Bouvier… que na época já era mais conhecida como Jacqueline Kennedy Onassis.
* Foi aí que entraram na história os Irmãos Maisley. Considerados dois dos melhores documentaristas norteamericanos da época, Albert e David ainda colhiam os louros do sucesso alcançado por seu trabalho anterior, o seminal Gimme Shelter, que cobria a turnê da banda inglesa Rolling Stones que culminou na tragédia de Altamont. Ao tomarem nota do caso das Bouvier e de Grey Gardens, os Maisley acharam que seria interessante partir para a mansão novaiorquina e dedicar algum tempo de câmera para gravar o dia-a-dia daquelas duas mulheres. O documentário resultante alcançou aclamação crítica universal, por expôr não só a estranha e dramática existência das Bouvier, mas a própria natureza dos documentários.
* Na década de 60 e 70 existiam duas principais tendências documentais, que frequentemente se confundiam. O que os Irmãos Maisley faziam era “documentário direto”, um estilo de filme que tomou forma nas experiências do também norteamericano Robert Drew, autor de Crisis e Primárias. A proposta do documentário direto era realizar um registro sem interferência sobre o objeto documentado. Diferente de Robert Flaherty, que encenou passagens do clássico Nanook, o Esquimó, ou de Dziga Vertov que usava recursos visuais e de montagem para criar o objeto do seus documentários, a proposta originada por Drew era usar equipes mínimas de filmagem, gravando tudo da forma mais naturalista possível e sem influenciar o objeto filmado. Isso era possibilitado pelo desenvolvimento tecnológico da época, que proporcionava pela primeira vez acesso à câmeras de filmagem leves o suficiente para serem carregadas de um lado para o outro sem problemas, além da criação do Nagra, uma espécie de gravador do tamanho de uma maleta, que podia ser carregado preso à uma alça e foi o primeiro aparelho capaz de gravar som em cenas externas de forma eficiente.
Junto ao documentário direto, existia na França uma outra vertente documental: o cinéma vérité, ou cinema verdade, capitaneado por Jean Rouch e posto em prática em um dos mais importantes documentários de todos os tempos: Crônica de um Verão. Até hoje, críticos e jornalistas tendem a usar “documentário direto” e “cinéma vérité” como termos intercambiáveis, dado as semelhanças de execução dos mesmos. Mas Grey Gardens torna evidentes as diferenças entre as duas vertentes, por ser o filme que marca a transição dos Maisley de uma para a outra.
* A filmagem dos Maisley em Grey Gardens não pegou duas pobres velhotas desprevinidas que não sabiam muito bem o que estava acontecendo. As Bouvier tinham sido criadas em uma América de sonhos, nos Estados Unidos que hoje só se encontra nos livros de F. Scott Fitzgerald, Tennessee Williams ou filmes de Holywood. Edie mãe cantava, Edie filha tinha sido modelo e tentado ser atriz. Ao serem filmadas pelos Irmãos Maisley, o que elas revelaram não era tanto seu comportamento cotidiano, mas um esforço consciente de recriar uma certa aura de glamour sobre si mesmas. E é a contraposição entre esse senso de estilo anacrônico e datado e a evidente deterioração de Grey Gardens que gera o verdadeiro drama do filme, e torna pungente a situação das Bouvier. Os Maisley resumem bem a coisa ao abusar da imagem da bela pintura a óleo de Edie-mãe, que revela uma jovem de beleza ímpar, e que no momento do filme permanecia jogado em um canto do quarto, servindo como esconderijo para os gatos fazerem cocô.
E é nessa grande sacada de Grey Gardens que está a diferença entre a escola de Drew e a de Jean Rouch. O cineasta francês, ao criar o cinéma vérité, sabia que “documentário direto” não existia. Jean Rouch era antropólogo, tinha toda uma carreira em etnografia. Entendia muito bem que só o ato de observar um grupo de pessoas já bastava para mudar a forma como eles agiam. Observar com uma câmera então… Para Rouch a única forma de capturar o comportamento real de uma pessoa sendo gravada seria revelando o processo de gravação e usar esse processo para provocar reações que revelassem ações e atitudes espontâneas. Crônica de um Verão foi o ensaio da técnica; Grey Gardens sua brilhante aplicação.
Em Grey Gardens os Maisley se afastaram do ideal de objetividade imparcial do mentor Robert Drew. A presença deles na casa das Bouvier é evidente desde o princípio. Eles interpelam as documentadas, e aparecem em frente da câmera. E, em pelo menos em um momento, eles utilizam a montagem para criar uma cena que não existe. É no finalzinho, quando a Edie-filha está tendo uma longa discussão com a mãe, finalmente confrontando as bases da relação das duas que permitiram que a estranha situação de Grey Gardens persistisse. Enquanto Edie responsabiliza a mãe por tê-la obrigado a ficar na casa e afastado dela todos os pretendentes que teve quando jovem, ela olha para o lado e a câmera corta para um quadro na parede, com a imagem de Edie filha adolescente, bela e com um futuro brilhante. Ao voltar para a envelhecida e ressentida Edie da época, sempre coberta por véus que escondem sua calvície, o espectador não pode resistir a associar inconscientemente a cena a uma ideia geral de perda… perda da juventude, da beleza, de um universo de possibilidades. Mas é puro truque. Análise das outras cenas revela que a posição do quadro na parede torna impossível que Edie estivesse olhando para ele naquele momento.
Mas não se trata de enganação. Os Irmãos Maisley tinham percebido, como Jean Rouch, que a verdade não é algo que simplesmente se evidencia quando ninguém está olhando. A verdade tem que ser provocada a sair. A montagem daquela cena é uma inverdade factual; Edie não estava olhando para aquele quadro. Mas que revela uma verdade imanente: Edie sofria porque a vida tinha passado e abandonado ela e a mãe para trás, entre os muros decadentes da decrépita casa da família. Essa é a beleza de Grey Gardens. Quando Edie surge, mais de uma vez, dançando e cantando para as câmeras o que temos não é apenas encenação. É encenação contextualizada, cujo choque com as outras cenas, de briga, de manha, de desolação, forja um panorama completo sobre o desalento das Bouvier. É uma estrutura até romanesca, teatral, mas que é bem mais real e caridosa do que apenas documentar a miséria, o que criaria uma impressão de pena ou repulsa que não faria jus a personalidade rica e intrigante das duas mulheres. E tampouco recai na apologia pura e simples, ao permitir que o próprio espectador descubra, pouco à pouco, quem são as moradoras de Grey Gardens e desvende por si mesmo, por pedaços da história contados aqui e ali, como a situação delas chegou naquele ponto.
* Apenas um aviso final: ao procurarem o filme para assistir, e eu espero que tenha conseguido incentivá-los a isso, cuidado para não se confundir. Grey Gardens, o documentário, é uma obra-prima de 1975 lançado no Brasil pela VideoFilmes. Grey Gardens, a ficção, é um telefilme feito pela HBO com a Drew Barrymore e a Jessica Lange, que conta de forma “acessível” (i.e. mastigada e sem graça) a história das Bouvier, incluindo a produção do documentário dos Maisley. Se você quer melodrama bem-feito, fique com o segundo. Se você quer pungência, prefira o primeiro.






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