Era uma vez, em um reino muito distante, uma bela e rechonchudinha menina chamada Cinderela. Ela era a filha querida de um nobre e sua esposa e desde cedo tinha demonstrado um grande e feliz apetite. Com cinco anos ela já corria pela grande cozinha de sua casa, provando um pouco da calda do bolo que ainda esquentava no caldeirão, se fartando nos profiteroles que seriam servidos aos convidados da casa (mas que sempre acabavam antes) e saboreando devagar os cheiros vários dos cozidos, dos assados e das frituras que eram feitas na casa.
Mas, um dia, a tragédia mais terrível aconteceu. A mãe de Cinderela, que sempre tinha um biscoitinho na manga para servir sua sempre faminta filha, ficou muito doente e morreu. O pai da menina, que nunca teve cabeça muito boa para negócios logo se viu muito endividado. Incapaz de pagar as contas (principalmente as do padeiro, do confeiteiro, do verdureiro e a do açougueiro) ele se viu obrigado a casar com a mais famosa editora de moda do reino, uma mulher muito, muito rica, mas também muito, muito má, e que só se interessava pelo título de nobreza do pai de Cinderela. Poucos anos depois, outra desgraça aconteceu e o pai da Cinderela também morreu, deixando a pobre menina nas mão da madrasta e de suas malvadas e magérrimas meio-irmãs: Ana e Mia.
A madrasta, que nunca gostou de Cinderela (nem de ninguém) logo a forçou a fazer dieta. A coitadinha da menina, que gostava tanto de bolos e pizzas, de assados e tortas, agora tinha que se contentar só com uma folha de alface por dia, acompanhada de uma azeitona, dia sim, dia não. Cinderela logo perdeu peso e ficou magrinha, magrinha, mas também infeliz. Para piorar a Madrasta sempre insistia que, por mais magra que fosse, Cinderela ainda estava muito gorda, com pneuzinhos ou batatas da perna inchadas. As irmãs de Cinderela também não ajudavam, fazendo brincadeiras malvadas, comentários maldosos e todo tipo de piada humilhante em cima da coitadinha. (Mas coitadas, a Madrasta também dizia que ela eram gordas, apesar de juntas não pesarem mais que quarenta quilos!)
Porém, acontece que nesse Reino havia um príncipe bonachão, que adorava uma boa festa, ainda mais se regada de muita bebida e com muita comida. Glutão famoso, o princípe tinha dedicado sua vida a comer todo prato que existia, importando cozinheiros e chefs dos países mais distantes para preparem refeições para ele e sua corte. E um dia ele decidiu dar uma grande festa, com todos os pratos que mais gostava e mais alguns, feitos pelos melhores cozinheiros do mundo. Tinha sushi e feijoada, mexilhões e churrasco, smorgasbord e batata frita, bratwurst e macarronada. Sem falar nos bolos e nas entradas, nos sorvetes e nas sobremesas, nos aperitivos e nos quitutes. Tinha tanta comida que o Princípe percebeu que nem ele conseguia comer aquilo tudo e convidou todas as pessoas do reino para comerem com ele naquela data tão especial.
A Madrasta, claro, não queria comer nada, mas sabia que o Princípe era solteiro e queria empurrar uma de suas filhas para ele. No dia do grande banquete, ela vestiu as duas com Vera Wang e Prada, Manolo Blahnik e bolsas Birkin e mandou que elas fossem encantadoras e lindas e roubassem o coração do Princípe. A Cinderela, pobrezinha, ficou para trás, porque a Madrasta disse que não tinha sapatos que combinassem com seus “kankles” e, de qualquer forma, sua bunda era muito grande não cabia no carro. A coitadinha da Cinderela, cuja bunda nem estava tão grande assim, ficou em casa chorando num canto, e resolveu procurar um último pacote de biscoitos recheados que escondia para esse tipo de emergência. E foi mexendo no esconderijo, uma rachadura entre duas paredes da casa que a pobre menina percebeu uma coisa estranha… uma pequena vozinha, tão pequenininha que parecia alguém falando de um lugar distante ou cochichando um segredo de adulto para alguém. Com um puxão Cinderela tirou seu pacote de biscoitos de dentro da rachadura na parede, mas agarrado a ele estava um pequeno duende, com uma grande e redonda pança, longos bigodes vermelhos como maçã do amor e bochechas rosadas como leitão assado. “Esse biscoito é meu!” disse o pequeno elfo, ao que Cinderela respondeu que não era dela, mas ela aceitaria dividir (pois Cinderela era gulosa mas nunca foi fominha, e, menina esperta, sempre soube que não come bem quem come sozinho).
O duende, grato pela bondade da menina, ficou curioso em saber porque ela parecia tão triste enquanto saboreava biscoitos tão gostosinhos e com recheio tão cremoso. Cinderela contou sua triste história e o duende, comovido, não hesitou. Com um salto, pulou vários metros no ar até a janela e soltou um assovia tão agudo que todas as janelas da vizinhança tremeram. Quando Cinderela que, assustada, tapara olhos e ouvidos para se proteger de som tão penetrante, abriu novamente os olhos, viu em sua volta todo uma cidade de duendes, todos tão pançudos, sorridentes e bigodudos quanto seu amigo original. “Você vai ao banquete!” disse então o duende! “Não tem como, não tenho carro” respondeu Cinderela. E os duendes saíram correndo para todos os lados e voltaram logo em seguida dentro de um Cadillac Fletwood Sixty Special Sedan Rosa de 1959, com bancos felpudos, buzinando sem parar. “Você vai ao banquete!”, falaram então vários duendes. “Não tem como, não tenho vestido”, disse então Cinderela. E os duendes, em segundos costuraram para ela um largo vestido cheio de babados e cetins e outras firulas. “Você vai ao banquete!” gritaram então vários duendes. “Não tem como, estou magra demais para esse vestido!” choramingou Cinderela. Os duendes então pularam todos em cima dela, a jogaram no chão e encheram sua goela de pastas e recheios e cremes especiais de duendes, até que Cinderela se viu tão cheinha quanto como era quando criança, e cabendo no vestido perfeitamente.
Enquanto isso, no banquete, as irmãs de Cinderela só davam vexame. As pobrezinhas não tinham conseguido mal terminar os ovos de codorna cozidos no azeite com alho e manjericão que servia de entrada, quanto mais encarar um dos vários pratos principais. E ninguém queria ouvir suas histórias chatas sobre Paris. O Príncipe, aborrecido, também ficava decepcionado ao ver que cada vez mais de seus súditos iam embora, ou caiam desabados debaixo das mesas, incapazes de acompanhar seu apetite. E ele nem tinha ainda mandado entrar o cordeiro assado no espeto, com recheio de miúdos cozidos no vinho tinto! Mas foi então que o grande refeitório real ficou todo em silêncio: pelas portas entrara uma linda garota, que ninguém do Reino reconhecia. Ela era fofinha como o Príncipe, seu rosto redondo tinha uma grande e belo sorriso e ela logo atacou os melhores pratos do banquete, enchendo a pança com os chocolatinhos, os pãezinhos, os ensopados, os quiches, os refogados, as carnes, os queijos, os pudins, as geleias, até as saladas não escaparam. Impressionado com tanta disposição para a comilança, o Príncipe pediu para que ela se sentasse logo à sua frente e dividisse com ele a pièce de résistance, o melhor prato da noite: o pernil de cinco quilos no molho picante de ervas. Com um sorriso cheio de bondade, a jovem, que não era ninguém menos que nossa Cinderela, pediu ao Príncipe permissão para comer primeiro. O Príncipe, caridoso deu permissão, achando que aquela menina logo se cansaria de toda aquela carne. Mas nada! Deliciada, Cinderela não só papou todo o pernil sozinha, como ainda esfregou um pãozinho no prato e fez um sanduíche com o molho.
O Príncipe estava apaixonado. As irmãs e a Madrasta de Cinderela, mordidas de fúria. Mas antes que sua Alteza pudesse perguntar o nome daquela jovem tão cheia de apetite, o relógio do castelo deu sua primeira badalada. Lembrando que ficar acordada de madrugada fazia mal para a digestão, Cinderela saiu correndo, ou andando rápido, tanto faz, para fora do castelo, deixando para trás o Príncipe que ficou entalado no trono e não conseguiu se levantar a tempo de impedí-la. Chegando em casa, Cinderela ainda descobriu que estava magrinha de novo… o feitiço dos duendes desaparecera, assim como todos os biscoitos, barras de chocolate e salgadinhos que tinha escondido pela casa, levados pelos duendes tratantes enquanto ela estava na festa!
Tudo teria acabado assim para Cinderela… se não fosse a obstinação do Príncipe, que não conseguia parar de pensar naquela linda moça, tão vivaz e bem disposta para comer! Ele nem olhava mais para as modelos magrinhas, atrizes de Holywood esqueléticas e princesinhas de dieta que eram enviadas ao palácio para conquistarem sua mão em casamento. Ele só pensava na beleza rechonchuda de Cinderela e no seu estômago sem fundo. Decidido, ele então declarou que iria ele mesmo localizar aquela misteriosa menina, atravessando o país para testar o apetite de cada menina no Reino.
Ao saber disso a Madrasta logo pensou que era essa a oportunidade para desencalhar as filhas e se livrar de vez de Cinderela. Por coisas do destino, a casa de nossa heroína foi justamente a última que o Príncipe visitaria, depois de ter se decepcionado meses à fio, visitando casa após casa habitadas por mocinhas com apetites tão pequenininhos, tão fraquinhos, que não conseguiam comer nem um peruzinho assado inteiro, ou que já se sentiam empapuçados com uma única fornada de empadinhas. A Madrasta, temendo a fome de Cinderela, ordenou que ela fosse mexer um cozido no grande caldeirão da cozinha, antes que o Príncipe chegasse e, quando a menina se inclinou sobre o pesado caldeirão de ferro, a cruel Madrasta a empurrou para dentro, tapando logo depois com a grande e pesada tampa de ferro que Cinderela, justamente por estar de dieta e se sentir tão fraquinha, não conseguia remover. Apresentou então ao Príncipe suas filhas Ana e Mia. O Príncipe, desanimado, ofereceu à Mia um prato de torresminhos com cebolinhas envoltas na sardinha de acompanhamento. A menina comeu um, fez cara de nojo, tentou comer e outro e já na primeira mordida, perdeu o controle, correndo para o banheiro enquanto a Madrasta malvada a xingava. Chegou então a vez de Ana que não teve mais sorte… ao encarar a lasanha quatro queijos com molho branco e carpaccio a pobre meninazinha até tentou e tentou… mas seu estômago não estava pronta para suportar tanto sabor e explodiu, isso mesmo, explodiu, deixando só uns fiapinhos da Ana flutuando no ar.
(”Mas, pelo menos, nunca esteve tão magra”, contemporizou a Madrasta malvada.)
Mais uma vez desapontado, o Príncipe já se conformava com a ideia de passar seu futuro sozinho. Triste, abaixou a cabeça e suspirou… e foi nesse suspiro que ele sentiu um cheiro leve, de algo cozinhando por perto. E como não vale a pena ficar chorando e de barriga vazia, o Príncipe decidiu que não custava fazer uma boquinha antes de ser infeliz para sempre, e correu para a cozinha, onde percebeu que o cheirinho vinha de dentro do caldeirão. Abrindo-o, que surpresa!, ele achou Cinderela que, presa lá dentro, decidiu que pelo menos podia fazer um lanchinho e sacou do bolso um pedacinho de bolo de cenoura e chocolate que guardava para emergências. A Madrasta ainda protestou que Cinderela era apenas uma criada, que não merecia a atenção de sua alteza e que não poderia ser ela a garota procurada, mas o Príncipe nem ligou. Ordenou que servissem logo àquela moça um strogonoff de filé mignon, acompanhado de rodízio de churrasco completo, com maionese e vinagrete. Feliz da vida, Cinderela papou tudo e, para a surpresa do séquito real, para o desgosto da Madrasta e felicidade completa do Príncipe, pediu sobremesa.
Daí, você já sabe. O Príncipe casou com Cinderela e tiveram muitos filhos, todos tão rechonchudinhos e gulosos quanto eles. A Madrasta malvada perdeu seu emprego e passou a trabalhar como vendedora externa de uma loja prêt-à-porter. Ana e Mia se recompuseram, fizeram terapia, ganharam peso, e hoje são casadas, gordinhas e felizes. E os duendes… esses foram presos por direção perigosa, roubo e estelionato, mas foram perdoados pelo rei e hoje trabalham fazendo doces, entradas e pratos magníficos para os concorridos banquetes reais.
E todos foram felizes e satisfeitos para sempre!
(Menos a madrasta).






on Oct 6th, 2009 at 8:56 am
Perfeito como sempre!
masss…. “e de suas três malvadas e magérrimas meio-irmãs: Ana e Mia.”
Ana e Mia são duas…
Beijocas
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on Oct 7th, 2009 at 7:01 am
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on Oct 18th, 2009 at 1:40 am
Os duendes são os melhores.
É isso ai Cindy! Come enquanto vc pode!
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on Nov 17th, 2009 at 11:52 am
Adorei a historia. Ilária parabéns!
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