Dia desses estava andando por aí quando vi um cartaz que anunciava um debate sobre “Literatura Marginal”. Achei engraçado, sei lá. Afinal, “literatura marginal” é um termo esquisito. Ela indica a produção literária de autores que não fazem necessariamente parte do canône ocidental… Gente da contracultura ou de minorias oprimidas (de de países ricos… maiorias oprimidas pertencentes a nações subdesenvolvidas não são literatura marginal, é literatura “pós-moderna”).
Mas, e se lessêmos “literatura marginal” literalmente? Como a literatura produzida por marginais?
Bom, adivinha só, seria um campo literário razoavelmente vasto, e com vários luminares entre seus membros. Levando a ideia para frente, eu compilei uma lista com diversos autores famosos que, por uma razão ou outra, passaram um tempo no xilindró (ou pior), devido a algum entrevero com a lei. Seja por causa de dissensão política, perseguição por parte dos hômi ou por razões bem menos nobres, esses caras são os verdadeiros marginais da literatura. Vai vendo:
Ovídio (Publius Ovidius Naso)
Quem?: Talvez o mais famoso poeta latino depois de Vergílio, Ovídio é o cara que nos legou o clássico “As Metamorfoses”, base de onze entre dez livros de mitologia de hoje em dia… bem como os poeminhas safados de “A Arte de Amar”.
Acusação: Taí uma boa pergunta.
Pena: Exílio, em caráter permanente, para um buraco esquecido por Jove na Romênia.
Mereceu?: Vai saber. O problema com a história de Ovídio é que ninguém sabe ao certo POR QUÊ ele foi exilado. Simplesmente, um belo dia, o Imperador Augusto, muito de saco cheio da fuça do velho poeta, e sem consultar o Senado, usou da discricionaridade imperial para mandar Ovídio catar seus trapos e tomar o rumo da roça. As razões? Ovídio, que talvez achasse que era muito melhor ser um exilado quieto do que um morto falante, nunca abriu o bico. Teorias, claro, não faltam… é possível que Augusto tenha perdido a paciência com os versos sacanas do poeteiro, ou que Ovídio tenha tido um caso com quem não devia (a neta do imperador?). Uma teoria muito em voga é que Ovídio tivesse conhecimento sobre uma conspiração contra Augusto… e o exílio seria punição por sua participação, ainda que tímida, na intentona. O fato é que não sabemos. Só sabemos que Ovídio morreu no exílio, a verdade sobre sua desgraça caindo no silêncio junto a ele.
Dante Alighieri
Quem?: Escreveu a “Divina Comédia”, talvez o maior poema épico da humanidade. E, para todos os efeitos, criou a língua italiana.
Acusação: Aparentemente, pertencer ao partido errado.
Pena: Exílio perpétuo, com ameaça de morte no fim do período.
Mereceu?: Debatível. Nos dias de hoje, como nossa tradição democrática de pluralismo político, diria que não. Mas a Florença do século XIV era muito mais sangue nos óio. O fato de que Dante era um insigne aliado dos “Guelfos Brancos” fez a coisa ficar pequena para ele quando a cidade foi tomada pelos “Guelfos Pretos”, que defendiam uma forte aliança papal e pouca tolerância com adversários políticos. Por estar em uma missão diplomática em Roma quando a cidade foi tomada, Dante escapou do fio da espada, mas foi exilado de Florença e multado, o que lhe fez perder todas as posses na cidade. De quebra, enviados dos Guelfos Pretos deixaram claro que o retorno de Dante à cidade provavelmente envolveria morte agônica, com o poeta sendo amarrado e incinerado numa estaca. Fazer o quê? Dante morreu em Ravena, ainda exilado de sua amada cidade natal, que só o perdoou em 2008. Hoje em dia, Dante tem dois túmulos. Um em Ravena, onde está seu corpo, e um em Florença, vazio, que ainda aguarda, quem sabe um dia, o retorno do filho que expulsou.
Miguel de Cervantes Saavedra
Quem?: O autor de “Dom Quixote” é considerado o maior escritor da língua espanhola e inventor (ocidental) do gênero do romance.
Acusação: corrupção.
Pena: Alguns meses de cadeia
Mereceu?: Sim! Além de um gênio literário, Cervantes era também muito criativo em questões de contabilidade, principalmente quando envolvia o erário público. Quando trabalhou como fiscal para o rei, a falta constante de um noves fora acabou chamando atenção das autoridades, que o mandaram para o xilindró em pelo menos duas ocasiões distintas. Desagradável, mas nada que desanimasse Cervantes, que já tinha passado três anos como escravo após ser capturado por piratas argelinos. Depois do sucesso do Quixote, Cervantes saiu da falência e, até onde se sabe, fez as pazes com o fisco.
Luís Vaz de Camões
Quem?: Como assim “quem?”. Você não fez segundo grau? O gajo que escreveu “Os Lusíadas”, ora pois.
Acusação: agressão, indecência, apropriação indébita… a lista é vasta.
Pena: No total foram dois exílios, uma multa e algum tempo na prisão.
Mereceu?: Sim. Deixando de lado a visão romanceada do Almeida Garrett, que popularizou a imagem de Camões como herói romântico e um tanto byroniano, o fato é que Luisão era um portuga sacana. Foi exilado pela primeira vez em 1548, para aprender a parar de escrever poesia pornográfica e não se engraçar com mulheres da corte. Voltando a Lisboa, não conseguiu pôr sua disposição erótico-encrenqueira pra descansar e foi se roçar na esposa de um servo real. Uma coisa levou a outra e Camões acabou em um duelo, no qual, militar experiente, venceu facilmente seu opositor corno e almofadinha. O problema é que a vitória rendeu a Camões um processo por agressão, que o botou na cadeia e lhe rendeu vultosa multa. Após muita intervenção de sua família, que também tinha pés firmemente plantados no paço real, a pena de Camões foi reduzida a exílio por três anos em Goa, onde teria que servir nas forças militares. Pensa que o portuga aprendeu a lição? Que nada. Nesse período, o mesmo em que escreveu “Os Lusíadas”, Camões ainda teve as manhas de fraudar as contas da unidade militar que comandava, tentando garantir um pé-de-meia pro futuro. Aliás, foi voltando de seu julgamento em Goa, que Camões sofreu o famoso naufrágio onde perdeu sua amada Dinamene e quase perdeu seu livro.
Christopher Marlowe, vulgo “Kit Marlowe”
Quem?: Maior dramaturgo inglês de sua época, basicamente criou o teatro elizabetano. Autor de “A Tragédia de Doutor Fausto” e “O Judeu de Malta”, além de ser inspiração direta pra o jovem Will Shakespeare.
Acusação: sodomia, blasfêmia, conspiração… sem mencionar falsificação de moedas. Mas, acima de tudo, saber demais.
Pena: Prisão, mas tem quem diga que foi morte
Mereceu?: Provavelmente não, porque essa história sempre foi muito mal-contada. Tudo começou quando o dramaturgo Thomas Kyd, amigo de Marlowe e autor da “Tragédia Espanhola” que influenciaria “Hamlet”, foi preso sob acusação de blasfêmia, e, sob tortura, confessou fazer parte de um grupo de ateístas do qual Marlowe também seria integrante. Note que, na época, blasfêmia e ateísmo eram crimes gravíssimos, visto que toda a autoridade do rei, que também era o chefe da Igreja, se baseava no direito divino. Considerando ainda que Marlowe tinha considerável ficha corrida, sendo suspeito de sodomia, publicar panfletos espúrios contra a Igreja e, no passado, ter sido preso por falsificar moedas na Holanda, não teve jeito: Marlowe foi levado pra casinha. Agora a parte estranha é que, apesar de todas as evidências (montadas?) contra ele, o cara foi libertado poucos dias depois por ordem do próprio Conselho de Estado da Rainha. E dez dias depois, apareceu morto em uma briga de bar. Sei não. Considerando que, no passado, Christopher Marlowe foi um espião do governo, talvez tenha mais nessa história do que uma infeliz série de azares. Que cheiro de arquivo queimando é esse no ar?
John Milton
Quem?: Maior poeta épico da língua inglesa, e um dos seus maiores escritores. Autor de “Paraíso Perdido”
Acusação: traição, pura e simples.
Pena: Alguns meses de cadeia
Mereceu?: Merecia até mais! Milton foi membro ativo da Revolução Gloriosa que derrubou a monarquia inglesa e decapitou o rei Carlos I. Com o retorno da monarquia ao poder, os membros da Revolução se deram mal, muito mal… Entre prisões, decapitações e outros horrores, o regime restaurado achou tempo até para desenterrar o cadáver do líder da Revolução, Oliver Cromwell, e pendurá-lo como aviso nos portões de Londres. E que fim levou Milton, no meio de toda essa sanha de vingança? Por ser já bastante idoso, já estar cego, mais pra lá do que pra cá e devido a sua imensa popularidade na corte, inclusive a restaurada, o novo velho regime pegou bem menos pesado com ele. Optaram por botá-lo apenas alguns meses na masmorra, só pra ficar esperto. Acabou sendo produtivo… nesse período Milton teve tempo de sobra para imaginar seu grande poema religioso sobre uma revolução que falha miseravelmente… Todos os fatos semelhantes à vida real sendo mera coincidência, claro.
François Villon
Quem?: Simplesmente o fundador da poesia lírica francesa, e um dos pais da literatura moderna.
Acusação: assassinato e roubo. No mínimo.
Pena: Execução pela forca, depois comutada para exílio de Paris. Também passou um ano na prisão.
Mereceu?: E com honra! Talvez um dos tipinhos mais barra-pesada dessa lista, Villon tinha uma verdadeira e consolidada carreira criminosa, sendo inclusive membro de uma gangue de bandidos e assassinos. A primeira notícia que temos de suas desventuras é quando o homem, nada mais nada menos, matou um padre, enfiando um punhal em sua barriga durante uma discussão. Através de bons amigos e muito esforço persuasivo, Villon conseguiu perdão real por esse leve assassinato, mas continuaria na correria pelos anos seguintes, inclusive escrevendo poemas em jobelin, a gíria da bandidagem francesa da época. Nos anos seguintes, temos notícias de Villon se envolvendo em diversas brigas de rua e TRÊS assaltos… duas igrejas (parece que ele tinha um problema com padres) e um roubo à Faculdade de Navarra. A gota d´água foi quando, após ser afiançado pelo terceiro roubo, que o tinha posto na cadeia, Villon teve as manhas de, no mesmo dia de sua liberdade, se envolver em outra briga de rua. De saco cheio de tanta deliquência, e cientes da ficha corrida do homem, as autoridades condenaram Villon à forca. Com um pouco de boa-vontade, a condenação foi reduzida a exílio. E Villon partiu de Paris, sumindo no mundo… mas sumindo mesmo. A sentença de seu exílio é a última notícia que temos até hoje de François Villon.
Torquato Tasso
Quem?: Poeta italiano, autor de “Jerusalém Libertada”, base de uns três séculos de cultura europeia.
Acusação: ser mais maluco que o cavalinho.
Pena: sete anos de prisão
Mereceu?: Sim, senhor. Tasso era um poeta genial, dono de uma capacidade lírica inigualável, mas era também mais doido que o Batman. Dotado de ilusões persecutórias, o homem constantemente era fonte de embaraço e vergonha alheia para seus protetores, a orgulhosa família d´Este do Duque de Ferrara. Depois que Tasso sacou uma faca durante um jantar e tentou matar um servo do Duque, durante um transe paranoico, este decidiu que seu protegido estava indo longe demais, e decidiu mandá-lo pra cadeia, na esperança de que um tempo sozinho melhorasse sua cuca. Não funcionou, e Tasso fugiu, tendo ido vagar pela Itália disfarçado de mendigo. Quando finalmente voltou para Ferrara, Tasso foi novamente preso, desta vez no palácio de Santa Ana, lugar confortável, mas de onde não podia sair para divulgar suas teorias doidas por aí… que muitas vezes eram temperadas com um ou outro segredo de estado da família d´Este. Torquato Tasso só foi liberado anos depois, sem melhoras nas suas condições mentais.
Donatien Alphonse François, Marquês de Sade
Quem?: Aristocrata e militar, é autor de “120 Dias de Sodoma”, “Justine” e outras obras que, por seu conteúdo sexual e violento, geraram interesse e repúdio na sociedade por mais de três séculos.
Acusação: flagelação, sodomia e sacrilégio
Pena: Total de 26 anos encarcerado em diferentes instituições. Pena de morte foi sugerida mais de uma vez.
Mereceu?: Mais ou menos. O Marquês era mesmo um velho safado, mas suas prisões sempre tiveram um conteúdo político por trás (opa!). As primeiras condenações de Sade foram devido ao seu hábito de sodomizar e torturar servos e prostitutas. O embaraço de ter um libertino na família fez com que a madrasta do Marquês, que tinha lá seus interesses econômicos na história, obtivesse uma lettre de cachet junto ao rei, um documento legal que autorizava um nobre à ordenar a prisão de alguém, sem recurso admissível a qualquer instância legal. Sade passaria os próximos anos na cadeia ou fugindo dela, com breves intervalos para abusar sexualmente de empregados e empregadas na França e na Itália. Quando a Revolução chegou, as lettres de cachet foram abolidas, e Sade apreciou um período de liberdade. Seu erro foi ter se envolvido em política, inclusive se tornando membro da Convenção (a câmara dos deputados da francesada revolucionária). Azar. Quando Robespierre tomou o poder, acusou Sade de ser “moderado demais” (quem diria!?) e jogou o Marquês na cadeia, onde passou mais de um ano. O próximo, e mais duradouro, período de encarceramento de Sade seria durante o governo de Napoleão. Inflamado com o conteúdo pornográfico e subversivo dos romances do Marquês, que nessa época vinha se dedicando mais às artes, o imperador ordenou que Sade fosse aprisionado, sem direito a julgamento. Graças a muito dinheiro gasto, e muita saliva, a família do Marquês conseguiu transformar a pena em uma estadia duradoura no ameno asilo de Charenton, onde ele ficaria até o fim de sua vida, e produziria algumas de suas mais ambiciosas obras.
Voltaire
Quem?: Também conhecido no mundinho como François-Marie Arouet, Voltaire é um dos maiores escritores de todos os tempos, tendo produzido romances, poesias, ensaios, peças…
Acusação: injúria
Pena: prisão perpétua, comutada para exílio
Mereceu?: Não, foi tudo um exagero. Veja bem, Voltaire sempre foi um boca frouxa. Em seus escritos políticos, o autor e pensador francês nunca se furtou de expôr, de forma explícita, seus agravos à sociedade francesa… à política francesa… à justiça francesa… e por aí vai. Pior, Voltaire praticava a nem sempre sábia arte de dar nome aos bois, e não deixava insulto sem resposta. Isso irritou a nobreza, alvo constante das críticas de Voltaire, o suficiente para que procurassem uma lettre de cachet contra ele, diligentemente concedida pelo rei Luís XV. Encarando a possibilidade de prisão por tempo indefinido, Voltaire conseguiu convencer seus desafetos a aceitarem um mero exílio de Paris. Após uns anos, quando a poeira tinha baixado, Voltaire voltou, mais cuidadoso com as palavras, mas também imbuído de um espírito de justiça ainda mais firme. Tinha aprendido que a famosa frase de DeGaulle, “não se prende Voltaire”, não representava a realidade dos fatos.
Daniel Defoe
Quem?: Romancista inglês de primeira hora, você deve conhecer Defoe como o autor de “Robison Crusoé” e do genial “Diário do Ano da Peste”.
Acusação: incitação de genocídio, talvez?
Pena: o pelouro.
Mereceu: Não, mas tudo bem. Além de ser um dos primeiros romancistas ingleses, Defoe tinha uma larga produção de panfletos satíricos, muitas vezes com aquele tipo de humor sagaz e cruel que faz gente poderosa tremer nas bases. Hoje em dia, isso dá processo, mas antigamente o pessoal tinha uma aproximação mais, digamos, prática para as coisas. Quando Defoe publicou um panfleto sugerindo (ironicamente) que o jeito mais fácil de lidar com os dissidentes da Igreja Anglicana era matar todos, foi a gota d´água. Alguns partidários dos dissidentes em altas posições de poder arranjaram para que Defoe fosse condenado ao pelourinho, aquele pilar de rocha no centro da cidade onde delinquentes eram por vezes submetidos à humilhação pública. Mas você acha que isso abalou Defoe? Nada disso! Segundo as lendas, em uma das maiores demonstrações de aplomb e superação da história, Defoe aproveitou sua estadia sob o opróbrio das gentes para compor o poema “Hino ao Pelouro”, que tanto comoveu o povão que, ao invés de atirar tomates estragados na cara do escritor, lhe depositou flores aos pés. Tudo bem, pode ser que isso nunca tenha realmente acontecido… mas é fato que Defoe saiu do pelouro mais popular do que antes, e prestes a iniciar uma brilhante carreira.
Johann Schiller
Quem?: Dramaturgo alemão, autor de “Os Bandoleiros” e peça fundamental na construção do movimento Stürm und Dang, que revolucionou a literatura germânica e serviu de estopim para o romantismo.
Acusação: abandono de posto
Pena: Ficou uns meses na cadeia, mas fugiu.
Mereceu?: Sim. Membro do exército, ao invés de permanecer estacionado no posto como deveria, Schiller fugiu para assistir a estréia de uma peça de sua autoria. Só que descobriram e resolveram jogar ele no xadrez, pra deixar de ser besta. Schiller fugiu e passou o resto da vida evitando a área desses acontecimentos, com medo de que resolvessem trancafiá-lo outra vez.
Henry David Thoreau
Quem?: Ensaísta da Gringolândia do Norte, é autor de “Walden”, uma apologia da vida junto à natureza e de “Desobediência Civil”, livro-encrenca que inspirou tipos como Gandhi e Martin Luther King, Jr.
Acusação: sonegação.
Pena: uma noite na prisão.
Mereceu?: É uma questão de princípios. O problema é que Thoreau era um homem de integridade intelectual. Ele acreditava que o bom era morar no mato, então ele morava no mato. Ele acreditava que as pessoas tinham que ser decentes umas com as outras, então ele era reconhecido como o cara mais gente fina da cidade. E ele acreditava que os Estados Unidos deviam abolir a escravidão e não ter iniciado uma guerra contra o México, e por isso ele não pagava o imposto de capitação que existia na época para financiar atividades do governo. Depois de seis anos de sonegação, o fiscal da receita pediu a Thoreu para que saldasse sua dívida, que consistia do absurdo montante de um dólar e uns trocados. Thoreau, fiel a suas crenças, se recusou, e o fiscal foi obrigado a jogá-lo na prisão. Segundo as lendas, Ralph Waldo Emerson, o maior ensaísta norteamericano e amigo de Thoreau, teria ido visitá-lo na prisão e, ao perguntar “Henry, por que você está aqui?”, teria ouvido como resposta apenas um seco “Waldo, por que você não está aqui?”. De qualquer forma, no dia seguinte, Thoreau foi solto, após pagarem uma fiança bem superior aos impostos que o tipinho encrenqueiro se recusara a desembolsar.
Fiodor Dostoiévski
Quem?: Autor de “Irmãos Karamazóvi” e “Crime e Castigo” é considerado o maior romancista da Rússia… e, provavelmente, do mundo.
Acusação: traição e subversão
Pena: Execução (falsa), comutada para quatro anos de prisão na Sibéria.
Mereceu?: Pior que não. Realmente Dostô, em sua juventude, andava com uns tipinhos comunas subversivos, o chamado Círculo de Petrashevski (que levava o nome de seu fundador). Mas só a paranoia feroz do regime czarista conseguia ver naquele bando de estudantes e professores de literatura, muito mais familiarizados com Hegel do que com Molotov, uma ameaça à vida do czar ou de seu regime. Dostoiévski e seus “comparsas” foram capturados, sentenciados à morte e submetidos a uma execução falsa… Foram levados até um descampado congelado, vendados, e lá esperaram enquanto soldados se preparavam para atirar neles com balas de festim. Após essa traumatizante experiência, os terríveis subversivos foram enviados para um campo de trabalhos forçados na Sibéria. Após alguns anos, Dostoiévski voltou com terríveis lembranças, uma esposa e ótimas ideias para livros. Ainda assim, desconfio que Dostô preferiria não ter passado por todo esse perrengue.
Paul Verlaine
Quem?: Poeta francês, de tendências parnasianas. Considerado um dos maiores gênios líricos da França.
Acusação: tentativa de homícidio.
Pena: Dois anos de prisão.
Mereceu?: Ah, sim. Verlaine era um grande poeta, um francês e, como sói nesses casos, uma grande biba. Durante a maior parte de sua vida, as relações homossexuais consistiram apenas de casos passageiros, amantes que não influíram no seu casamento hetero aceitável pela sociedade da época. Até que Verlaine conheceu o jovem, ousado, talentoso e descontrolado poeta Arthur Rimbaud. Apaixonado além de suas forças, Verlaine largou mulher e filho e foi viver com Rimbaud, viajando pela Europa e deixando escândalo por onde passavam. Infelizmente, Rimbaud e Verlaine estavam mais para Sid e Nancy do que para Romeu e Julieta… Ambos dotados de temperamentos irascíveis, as brigas de casal se tornaram constantes, ao ponto que Verlaine começou a beber frequentemente para escapar dos problemas conjugais. A situação chegou ao cúmulo quando um dia, bebaço, Verlaine discutiu mais uma vez com seu paramour e, já de saco cheio das putarias e do papinho cafa de Rimbaud, sacou uma arma e deu-lhe dois tiros. Por sorte, Verlaine atirava mal e estava torto de tanto mé, e Rimbaud saiu do atrito com apenas dois ferimentos leves no punho. O resto é história típica de briga de casal: Rimbaud denunciou o amante, depois mudou de ideia, mas era tarde demais; o juiz sentenciou Verlaine à dois anos de prisão. O namoro acabou, Verlaine virou cristão e Rimbaud abandonaria a literatura para se dedicar ao excitante e promissor ramo do contrabando internacional de armas. Como podem ver, apenas outra bela história de amor.
Oscar Wilde
Quem?: Autor e ensaísta inglês. Foi dele que saiu “De Profundis”, “A Alma do Homem Sob o Comunismo”, “O Fantasma de Canterville”, “O Retrato de Dorian Gray”, “A Importância de Ser Prudente”, e vasta coleção de aforismos…
Acusação: sodomia
Pena: dois anos de trabalhos forçados
Mereceu?: Não. Realmente Oscar Wilde deixava a porta dos fundos sempre aberta, mas se isso era crime metade da Inglaterra devia estar atrás (óia!) das grades. Wilde só foi preso porque cometeu dois erros graves. Primeiro, se envolveu com a pessoa errada: Alfred Douglas, filho do poderoso Marquês de Queensberry (criador das regras do boxe!), que passou a ameaçar continuamente Wilde para que deixasse seu garoto em paz. O segundo erro foi quando Wilde, pouco disposto a suportar as cada vez mais ofensivas e abusivas ameaças de Queensberry, iniciou contra ele um processo de injúria. O problema é que injúria é um crime que admite inversão da prova, ou seja, Queensberry poderia se livrar do processo se provasse em tribunal que Wilde era mesmo uma coisinha rycah do papai. E foi o que ele fez: contratando detetives para devassar a vida de Wilde, e seguí-lo por aí, Queensberry apresentou como sua defesa um belo montante de depoimentos e fotografias provando as relações homossexuais de Wilde com Douglas, bem como diversas outras pessoas, incluindo gigôlos de rua. Considerando que sodomia era um crime segundo a lei inglesa da época, Queensberry foi inocentado e Wilde foi processado logo em seguida, sendo condenado a dois anos de trabalho forçado. Após o término da pena, Wilde abandonou a Inglaterra, morrendo alguns anos depois, talvez como resultado de ferimentos contraídos na prisão.
Euclides da Cunha
Quem É?: Engenheiro, jornalista e escritor, é o autor de uma das maiores obras brasileiras, a monumental descrição da Guerra de Canudos entitulada “Os Sertões”.
Acusação: Homicídio, tentado.
Pena: Nenhuma. A tentativa não acabou bem pra ele.
Mereceu?: A pergunta é prejudicada, porque Euclides da Cunha morreu antes de ser punido pela sua desastrada tentativa de assassinato. Acontece que Euclides, apesar de ser dotado de um gênio intelectual que seria louvado e admirado por todo século XX, não era tão talentoso, ou perceptivo assim, quando se tratavam de assuntos domésticos. Tipo ensimesmado e pouco dado a arroubos de afeto, ele dificilmente seria o marido dos sonhos de Ana Emília Ribeiro, com quem casou mal saída dos cueiros. Tampouco ajudava o relacionamento o fato de que Euclides passava longos períodos distante de casa, envolvido em projetos de engenharia ou pesquisas para seus livros. O resultado disso tudo foi que Ana acabou por se envolver romanticamente com um jovem cadete do exército, amigo de seu filho mais velho, chamado Dilermando de Assis. O caso dos dois perdurou por anos, rendendo inclusive dois filhos que Euclides, na ignorante glória de sua cornice, jurava que eram seus, apesar da escandolosa diferença fisionômica entre ele e as crianças. A desgraça, como sempre nesses casos, só se deu quando Euclides, que como ensina o ditado foi o último a saber, enfim soube. Decidido a acabar com aquela pouca-vergonha à base do chumbo, Euclides surpreendeu Dilermando e Ana em sua própra casa. Plano ruim, diga-se de passagem. Enquanto Euclides era um tipo livresco, mais mortífero em intenção do que habilidade, Dilermando era um soldado treinado e na ativa, campeão de tiro ainda por cima. Euclides errou seu tiro. Dilermando, não. Mais tarde, Dilermando foi inocentado da morte de Euclides alegando legítima defesa, se casou com Ana, daí Ana se separou dele porque descobriu que Dilermando a estava traindo (tudo é muito irônico neste mundo) e o Wolf Maya fez uma mini-série para tv chamada Desejo que resume toda essa história.
Isaac Babel
Quem É?: Autor russo, foi o cronista da experiência judaica no Leste Europeu e é considerado um dos melhores contistas da literatura. Autor de “A Cavalaria Vermelha” e “Contos de Odessa”.
Acusação: conspiração, espionagem e sabotagem artística
Pena: Execução e esquecimento.
Mereceu?: Não. O caso de Babel é exemplar com relação aos abusos cometidos contra artistas durante o Grande Expurgo perpetrado pelo regime stalinista. Babel já era então um autor renomado, autor de livros e peças de sucesso, tanto na União Soviética quanto no resto da Europa. Contra ele havia apenas uma acusação de obscenidade, provocada por um conto considerado excitante demais por um censor pudico, e o mau hábito de pular a cerca, principalmente com a esposa de Nikolai Yezhov, então chefe da NKVD, a polícia política que foi antecessora imediata da KGB. Foi o ciúmes de Yezhov que pôs Babel na lista de investigados do governo pra início de conversa… mas o corno em questão não teve muito a ver com a prisão do escritor. Babel foi tirado de cena por causa de seu crescente, e cada vez mais vocal, descontentamento com os rumos do regime stalinista, e pela sua recusa silenciosa em enquadrar sua arte nos ditames do realismo soviético. Finalmente cansados de tolerar a baixa produtividade literária e temerosos da influência de Babel nos círculos intelectuais, o autor foi levado de sua casa uma noite por agentes secretos, no estilo clássico da União Soviética. Na prisão, Babel assinou uma confissão que revelava que ele era um espião francês, envolvido em um plano trotskista para derrubar o regime, e implicando diversas outras personalidades do meio artístico e intelectual soviético. Essa confissão, coberta de manchas de sangue, não foi levada muito a sério nem em sua própria época, mas isso não impediu que Babel fosse condenado em um julgamento de vinte minutos à portas fechadas, no escritório de Lavrentiy Beria, novo chefe da NKVD. No dia seguinte, Babel foi fuzilado, seu corpo enterrado em vala comum e seu nome declarado anátema… No melhor estilo Orwelliano, qualquer informação sobre Isaac Babel, um dos maiores escritores de seu tempo, desapareceu das enciclopédias e dicionários literários de toda URSS, como se ele nunca tivesse existido. O mesmo ocorreu com seus livros, peças e até um filme, que ele tinha roteirizado (e que foi, posteriormente, lançado com seu nome ausente dos créditos). Anos depois, na década de 50, o caso contra Babel foi considerado improcedente, e se iniciou a longa reabilitação que devolveria seu legado ao lugar de direito entre os escritores do século XX. O que é bom, mas está longe de ser um final feliz.
Graciliano Ramos
Quem É?: Autor de “Vidas Secas”, “Angústia” e “Memórias do Cárcere”, é um dos melhores escritores da língua portuguesa e uma das maiores forças literárias brasileiras do século XX, sendo reputado como inventor do regionalismo.
Acusação: na prática, nenhuma. Teoricamente, subversão.
Pena: um ano de prisão
Mereceu?: Não. Graciliano acabou pagando o pato por causa das trapalhadas de outros, em um caso tipicamente brasileiro de punir gente inocente quando gente culpada não está fácil de achar. Nesse caso, Graciliano foi para cadeia por ter sido arrolado entre os conspiradores que teriam apoiado a Intentona Comunista, a tentativa, ocorrida em 1935, de oficiais do exército liderados por Luís Carlos Prestes de derrubar o governo de Getúlio Vargas. Prestes foi prontamente derrotado, e Vargas iniciou uma caçada implacável por políticos, intelectuais e oficiais com tendências comunistas, usando a Intentona como uma desculpa para fazer um expurgo ideológico no país. De alguma forma, Graciliano acabou caindo na lista, apesar de, na época, não ser ainda membro do Partidão e, obviamente, não ter nada a ver com os planos de Prestes. Na verdade, a ligação de Graciliano com a Intentona era tão tênue que o governo Vargas nem sequer chegou a formalizar uma acusação contra o escritor. Durante o ano de detenção que se seguiria, Graciliano ficou preso por razão nenhuma, não sendo indiciado por nada e sendo, portanto, incapaz de se defender. Felizmente, Graciliano foi libertado em 1936, ainda sem nunca ter recebido uma acusação formal.
Bruno Schulz
Quem É?: Considerado por alguns como “o Kafka polonês”, Schulz foi pintor e escritor, autor de dois ótimos livros de contos: “Lojas de Canela” e “Sanatório”.
Acusação: …ser judeu?
Pena: Morte.
Mereceu?: Não, nem um pouco. O mais triste da história de Schulz é que o crime contra ele não foi nem sequer uma injustiça individual. Schulz, um talento promissor, de criatividade complexa e única, morreu vítima da arbitrariedade e ódio nazista, como tantos outros judeus poloneses durante a ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Verdade que Schulz quase escapou desse destino mórbido: aprisionado no gueto de Drohobycz, com tantos outros dos seus, o talento de Schulz para pintura atraiu a admiração do SS Hauptscharführer Felix Landau, que o botou sob sua proteção e encomendava frequentemente a produção de gravuras e murais para o artista. Mantida essa situação, Schulz poderia ter escapado da guerra vivo e cumprido a promessa de grandes feitos literários prometidos pelos seus primeiros trabalhos, incluindo aí a conclusão de seu romance inacabado e perdido, “O Messias”. Mas infelizmente, Landau, além de admirador das artes, era um completo e irremediável monstro. Seu passatempo de escolha no gueto de Drohobycz era atirar com seu rifle em judeus passando pela rua, sem nenhum critério especial além de oportunidade e entretenimento. Em uma dessas matanças aleatórias, Landau assassinou um prisioneiro que servia como dentista para um outro oficial da SS, Karl Günther, que resolveu não deixar o insulto barato. Günther procurou Schulz e o matou em uma esquina, com dois tiros na cabeça. Ao ser questionado por Landau qual a razão para ter feito isso, Günther apenas respondeu: “Você matou meu judeu. Eu matei o seu.”
Ezra Pound
Quem É?: Poeta e crítico norte-americano. Foi fundador de diversos movimentos de vanguarda, como o imagismo e o vorticismo, e influenciou e divulgou os trabalhos de e.e. cummings, T.S. Eliot, Ernest Hemingway. Robert Frost, Gertrude Stein, Ford Madox Ford e James Joyce… nada mal. Nada mal MESMO.
Acusação: alta traição
Pena: 13 anos em um asilo psiquiátrico.
Mereceu?: Provavelmente merecia até mais. O caso de Pound é um tanto complicado. Um gênio de potência intelectual formidável, Ezra Pound foi a força motriz por trás do movimento modernista. Suas críticas, seus ensaios, seu apoio e suas defesas constantes das obras de seus colegas escritores ajudaram toda uma geração de gênios a dar forma e coesão ao movimento artístico mais importante do século XX. No entanto, a potência intelectual de Pound era por vezes perigosamente guiada por paixões discutíveis… Não é nem caso aqui de falar de sua bigamia. O que pegou foi que seu fascínio crescente pelos governos autoritários que pipocaram pela Europa no começo da década de 30. Apesar dos protestos dos amigos, Pound desenvolveu profunda admiração pelo nazismo, e se mudou para a Itália, como partidário entusiasmado do fascismo de Mussolini. E a coisa não se resumiu a um bater de palminhas: quando a guerra estourou, Pound passou a escrever e publicar panfletos apoiando o regime, denunciando os males da conspiração capitalista judaica internacional e exortando os norteamericanos a não entrarem, e depois de Pearl Harbor, a saírem, da guerra. Teve até mesmo um programa de rádio, transmitido em inglês, para colaborar com o esforço de guerra fascista. Claro, nada disso conquistou muita simpatia junto às forças aliadas, que capturaram Pound pouco depois da queda da Itália, em 1945. Submetido a tratamento cruel, que incluiu três semanas na solitária, Pound foi transferido para os Estados Unidos, acusado de traição. O que salvou o brilhante poeta foi a decisão da corte de que Pound estava insano, e portanto inimputável, sendo enviado para um asilo psiquiátrico onde passaria o resto de sua vida. Mas Pound estava mesmo doido? Opiniões divergem. Os médicos do exército o consideravam são o suficiente para saber o que fazia, e o próprio Pound continuou produzindo poesia de qualidade mesmo após sua captura. Por outro lado, logo após cair nas mãos do exército aliado, Pound pediu para enviar um telegrama para o presidente norteamericano Truman, se oferecendo para negociar o fim da guerra com o Japão. Talvez a loucura de Pound fosse só uma manobra legal para lhe salvar de uma pena de prisão perpétua. Mas pelo menos o narcisismo, dá para perceber que era patológico.
Louis-Ferdinand Céline
Quem É?: Um dos grandes autores do século XX, autor de “Viagem ao Fim da Noite” e “Morte À Crédito”
Acusação: colaboracionismo sujo
Pena: exílio e seis anos de prisão que não foram cumpridos.
Mereceu?: Ah, esse mereceu. O pior é que Céline, diferente de Pound, nem era realmente um grande fã de Hitler. Veterano da Primeira Grande Guerra, portador de ferimentos sérios que lhe causaram dor por toda vida, Céline desprezava belicismo, desprezava o nazismo, desprezava Hitler… e, infelizmente, desprezava judeus. Firme seguidor da tradição anti-semita francesa, Céline jogava sob o povo judeu toda a responsabilidade da guerra que se avizinhava, chegando ao ponto até mesmo de denunciar o próprio Hitler como um conspirador sionista. Quando a França foi ocupada, Céline apoiou o governo de Vichy, provavelmente porque ele preferia uma ocupação autoritária e pacífica a ver seu país mais uma vez triturado por uma conflagração da qual não tinha condições de sobreviver. Visão, aliás, que refletia a de muitos outros franceses… exceto até o fim da guerra, quando subitamente o povo da nobre nação gálica recuperou os brios e, com a indignação típica de quem tem vergonha do que fez, começou a punir as figuras públicas que tinham apoiado o governo fantoche. Escolado nessas coisas, Céline já tinha fugido para a Dinamarca, mas isso não impediu que ele fosse julgado in absentia por colaboracionismo, e condenado à seis anos de prisão e exílio. Mais tarde, Céline conquistou anistia e pôde retornar a seu país, mas seu nome passou a carregar um tom de infâmia desde então. Mas quem mandou ser um vacilão preconceituoso e arregão?
Brendan Behan
Quem?: Dramaturgo e poeta irlandês, escreveu “Borstal Boy” e “Confissões de um Irlandês Revoltado”.
Acusação: sabotagem, terrorismo, tentativa de homícidio
Pena: três anos no reformatório, além de 14 anos de prisão (comutados para quatro anos)
Mereceu?: E muito! Enquanto alguns escritores iniciaram suas vidas profissionais como marinheiros, soldados, funcionários públicos, etc, Behan começou a vida como terrorista! Com meros 16 anos de idade o petiz se juntou ao Exército Republicano Irlandês, ou IRA, a organização clandestina que lutava para findar, através do meio que fosse necessário, a dominação inglesa na Irlanda do Norte. Jovem, cheio de esperanças, Behan logo partiu em uma missão independente, apenas com sonhos de liberdade na cabeça e explosivos na mala, com o objetivo de detonar o cais de Liverpool. Capturado, foi enfiado no reformatório, onde seu ódio pela autoridade inglesa maturou. Atingindo a maioridade, Behan retornou à Iralanda do Norte, e se envolveu em outra operação do IRA, desta vez sancionada, visando o assassinato de dois detetives de polícia ingleses. Novamente a missão foi mal-fadada, e dessa vez Behan foi condenado à 14 anos de prisão. Permaneceu encarecerado até que uma anistia geral à membros do IRA, em 1946, permitiu sua saída. Com 23 anos de idade, e seis anos de xilindró nas costas, Behan ainda passaria mais um tempinho na cadeia por conta de uma tentativa de libertar um colega do IRA da prisão, no ano seguinte. Após esse último fracasso no campo da insurreição política, Behan saiu do IRA e decidiu se dedicar à literatura, dramaturgia e ao alcoolismo, áreas onde seu talento era significativamente superior
Jean Genet
Quem É?: Escritor e dramaturgo francês, é o autor de “Nossa Senhora das Flores”, “Pompas Fúnebres”.
Acusação: Muitas, mas, principalmente, furto e prostituição.
Pena: Diversas penas de um ou dois anos, entre 1919 e 1947.
Mereceu?: Sim. Genet era um corticeiro, um ótimo exemplo daquilo que a psicopatologia forense chama de “personalidade voltada ao crime”. Desde pequeno o sementinha do mal dedicava seu tempo livre para a prática de pequenos furtos, tornando um inferno a vida de seus pais adotivos. Adolescente, Genet decidiu incluir a prática de prostituição na lista de seus hobbies, o que lhe renderia um bom período no reformatório. Chegando na idade adulta, Genet se alistou na Legião Estrangeira, sendo expulso de forma desonrosa sob a acusação de “indecência”. Seguiram-se anos de breves aprisionamentos por conta das diversas atividades marginais de Genet, que continuava cometendo furtos, vagabundagem e vendendo a pipoquinha na rua. Ao chegar na décima(!!!) condenação, o homem foi seriamente ameaçado de ser jogado na prisão em caráter perpétuo, como pedia a lei francesa. O que o salvou foi seu imenso e indiscutível talento literário, que já na época tinha chegado até e impressionado artistas do calibre de Jean Cocteau e Jean-Paul Sartre. Após um lobby a favor de sua libertação ter garantido que escapasse da perpétua, Genet deixou de ser bagunça, tomou rumo na vida, e construiu uma admirável carreira literária, sem nunca voltar a ser preso.
Yukio Mishima
Quem É?: Um dos maiores talentos literários japoneses, Mishima é o autor de “Confissões de Uma Máscara” e “O Templo do Pavilhão Dourado”, além de peças, ensaios, poesias, roteiros, e por aí vai.
Acusação: nenhuma, já que ele morreu antes de ser pego… mas acho que teria sido, sei lá, tentativa individual de golpe de estado?
Pena: Vai saber.
Mereceu?: Se mereceu não sei, mas ele certamente pediu por isso. Mishima era tão genial quanto atormentado. Dotado de problemas de auto-imagem sérios, sofrendo com o fato de que era homossexual em uma sociedade intolerante e machista, Mishima se perdeu em uma retórica militarista e reacionária. Seus romances eram de uma sensibilidade artística profunda e vanguardista, mas sua posição política era composta por uma admiração retrógrada do Império Japonês pré-guerra, com uma exaltação irreal dos samurais e de um ideal de supremacia autoritária e belicista. A coisa começou a ficar feia quando Mishima reuniu um grupo de jovens estudantes ao seu redor, e fundou a Tatenokai, ou Sociedade do Escudo, um grupo de agitação política e “disciplina física”. Mas o esculacho final foi quando Mishima, com apoio dos seus seguidores, invadiu a base das forças de Auto-Defesa japonesas (que era tudo que restara do exército no pós-guerra), amarrou o comandante, fez uma barricada nos escritórios centrais e, da sacada do prédio, tentou incitar os milicos locais a realizarem um golpe de estado, instituindo um novo Império Japonês. A coisa não deu certo, o pessoal ficou só na risada e Mishima, seguindo seu plano maluco, realizou o seppuku, ou suicídio ritual, bem ali no gabinete invadido. Como Mishima queria, o mundo ficou chocado. Mas provavelmente não da forma, nem pelas razões, que ele desejava. Triste fim para uma triste história.
William S. Burroughs
Quem É?: Autor de “Almoço Nu”, um dos maiores clássicos da literatura, ele é também um dos fundadores do movimento beat, que revolucionou a arte e a sociedade no século XX.
Acusação: falsificação, tráfico de drogas, homicídio
Pena: prisão domiciliar, além de dois anos de prisão por conta do homicídio, dos quais cumpriu apenas 13 dias
Mereceu?: Infelizmente, sim. Por mais que Burroughs fosse um escritor genial, dotado de uma capacidade literária estelar, o cara tinha uma tendência significativa a fazer o que não presta. Começou quando Burroughs foi preso ao tentar usar uma receita médica forjada para obter drogas. Condenado à prisão domiciliar, ele cumpriu a pena, mas deixou a polícia esperta e de olho em suas atividades. Não demorou muito, e eles conseguiram um mandado para revistar sua casa, onde localizaram cartas trocadas com o poeta beat Allen Ginsberg, que indicavam a intenção de obter maconha contrabandeada. Encarando a possibilidade de ser preso por tráfico de drogas, Burroughs fugiu com a esposa para o México, onde pretendia esperar a pena prescrever tranquilamente, bebendo tequilas e se divertindo com os amigos. Pena que a diversão mencionada envolvia uma demonstração estupidamente perigosa de perícia com armas de fogo, na qual Burroughs usava um rifle para atirar em uma maçã colocada na cabeça de sua então esposa, a igualmente temerária Jean Vollmer. Imagino que vocês já sabem o que aconteceu. Certa noite, manguazado, tentando acertar a maçã, Burroughs atirou em cheio nos cornos da esposa, que morreu na hora. Burroughs foi preso, mas a sua família, que era da turma da grana, não só afiançou sua saída da cadeia, como comprou um julgamento “parceiro”, no qual Burroughs foi condenado a apenas dois anos de reclusão por homicídio culposo. Mas é claro que, nessa hora, ele já tinha voltado aos Estados Unidos, e nunca cumpriria mais nenhum dia da sentença mexicana. Ainda assim, embora tenha fugido de sua pena, Burroughs confessadamente nunca superou a culpa por sua ideia de jerico e seus resultados funestos. Como ele mesmo declarou mais de uma vez, a morte de Jean foi o evento que mudou sua vida, levando-o a começar a escrever como forma de lidar com os aspectos mais sombrios de sua existência… entre elas, a culpa de ter matado a própria mulher.
Reinaldo Arenas
Quem É?: Escritor e dissidente cubano, é o autor do pungente “Antes Que Anoiteça”.
Acusação: “desvio ideológico”, seja lá o que for isso.
Pena: Prisão.
Mereceu?: Ninguém merece ser preso por discordar do próprio governo. Para azar de Arenas essa minha opinião de caráter pessoal não encontrava eco na posição do governo de Fidel Castro, que não apreciava nada as críticas nem um pouco veladas que Arenas fazia ao regime progressivamente despótico de Cuba, tanto em suas novelas quanto em ensaios satíricos em que atacava com humor mordaz membros e apoiadores da ditadura castrista. Para piorar, e muito, a situação, Arenas era homossexual assumido e pouco disposto a esconder suas preferências, uma atitude que não se coadunava com a ideologia machista que a propaganda oficial defendia como sendo a mais adequada para o povo cubano. Cansados da baitolice e da insubmissão política, Arenas foi jogado na prisão, onde permaneceria por três anos, se ocupando com diversas tentativas de fuga e de contrabandear seu trabalho para fora. Arenas foi libertado em 1976, sob a condição de se manter longe da literatura e da viadagem, duas condições que ele não tinha nenhuma intenção de cumprir. Sob séria ameaça de morte, Arenas escapou de Cuba em 1980. Dez anos depois, se suicidou em Nova York, tentando evitar o sofrimento da debilitação progressiva causada pela AIDS. Sua carta-testamento mantinha o mesmo teor crítico de suas primeiras obras, encerrando-se com o anúncio confiante de que, um dia, “Cuba será livre. Eu já sou.”
Hector Oesterheld
Quem É?: Escritor de histórias em quadrinhos, é o criador de O ETERNAUTA, um dos maiores, mais legais e mais duradouros sucessos dos quadrinhos argentinos de todos os tempos, bem como de CHE, a biografia do revolucionário cubano Che Guevara.
Acusação: subversão
Pena: desaparecimento, provavelmente morte.
Mereceu?: Não enfático. Oesterheld era um quadrinhista bastante reputado… O ETERNAUTA, seu trabalho mais famoso, era uma saga de ficção científica de profundidade e criatividade formal inédita nas tiras da época, que conquistou toda a nação e é até hoje um dos mais significativos símbolos da Argentina. O problema é que Oesterheld, além de um grande escritor, tinha também opiniões políticas… e pior ainda, opiniões políticas de esquerda! Ao invés de só produzir ficção científica “isenta”, Oesterheld insistia em dar ao seu trabalho relevância social e suscitar pensamento crítico. A coisa começou a ficar feia em 1968, quando Oesterheld escancarou seu apoio à esquerda com a publicação de CHE, logo retirada das livrarias do país por ordem do governo. Ao invés de interpretar isso como um sinal para maneirar, Oesterheld resolveu é pisar fundo: ele e suas filhas se aliaram aos Montoneros, a organização de guerrilha de esquerda que lutava contra os regimes cada vez menos democráticos que vinham se sucedendo no país. Ao mesmo tempo, Oesterheld decidiu retornar ao seu personagem mais famoso, publicando O ETERNAUTA, PARTE II, um trabalho abertamente em oposição à crescente onda ditatorial argentina. Infelizmente, o timing não podia ter sido pior… O ETERNAUTA, PARTE II começou a ser publicado no mesmo ano que uma ditadura militar arrancou Isabel Péron do poder e, de pronto, resolveu iniciar uma limpeza ideológica no país. Como terroristas de verdade são difíceis de achar, coisa que todo militar golpista e incompetente pode referendar, o bruto do processo caiu nas costas de intelectuais, estudantes e… artistas. Oesterheld e as filhas, uma delas grávida, foram levados de suas casas em 1977. Não se iniciou nenhum processo formal contra nenhum deles, nem se informou onde eles estavam, do que eram acusados ou qual seria seu destino. Tentativas por parte da esposa de Oesterheld, Elsa, de descobrir que fim levara sua família só conseguiram que lhe fosse entregue um bebê, seu neto nascido em cativeiro. Embora, já no período democrático, ex-prisioneiros da ditadura hermana tenham relatado ter visto Oesterheld em centros de detenção secretas, até o presente momento o governo argentino nunca forneceu nenhuma resposta sobre qual foi o destino final de Oesterheld e de suas quatro filhas. Nem precisa.
Por fim, vamos dar uma salva de palmas especial para escritores que foram ao tribunal, acusados de ofensa moral ou obscenidade: Charles Baudelaire, Gustave Flaubert, Henry Miller, D.H. Lawrence e James Joyce. Também não podemos esquecer de Orhan Pamuk, que foi acusado e processado por “anti-turquicidade”, devido a ter denunciado o genocídio armênio (o caso não foi adiante), Elie Wiesel (sobrevivente dos campos de concentração nazistas) e Salman Rushdie, condenado à morte por ter sido irreverente com o Islã (mas cuja história completa não conto aqui por que… bom, porque eu acho ele chato.)
A lição que aprendemos? Nenhuma, espero. Mas se vocês me forçarem, podemos resumir assim: sejam bons homens em má situação, ou maus homens em situação pior, escritores tem uma longa, e muitas vezes admirável, tradição de problemas com a lei. Então você, amigo marginal, não desanime: se tudo mais falhar, você ainda pode tentar conseguir um nobel de literatura. E vocês, crianças, que acham literatura uma coisa de tiozinhos respeitáveis, podem aprender: a turma dos escritores é bem mais barra-pesada do que qualquer ajuntamento de astros de rock, cheios de atitude e fichas limpas.
Agora, me passa sua carteira.

on Dec 12th, 2010 at 3:00 am
Caralho, onde você acha essas coisas?
on Dec 12th, 2010 at 10:26 pm
Um bocado disso é resultado de anos de interesse por literatura, colecionando anedotas aqui e ali, principalmente em prefácios de livros ou ensaios críticos em cadernos de literatura (os mais vagabundos costumam conter mais fofocas). As datas, locais e detalhes mais específicos foram retirados da Wikipedia, onde chequei as historias.
Aliás, muita coisa e muita gente ficou de fora desse artigo (Federico Garcia-Lorca foi um esquecimento imperdoável da minha parte). Eu recomendaria a leitura de biografias de escritores na Wikipedia para quem quer conhecer mais fatos chocantes sobre a vida de grandes autores. Outra pedida interessante é um livro chamado “Secret Lives of Great Athors”, cujo autor não me recordo, que é só sobre os babados escândalo dos grandes nomes da literatura (mas que tem uma ênfase mais norteamericanocêntrica).
on Dec 24th, 2010 at 12:12 pm
a propósito de thoreau, criei um blog chamado “lendo walden”, com notas de leitura e pesquisas que fiz durante a tradução da obra.
se quiser visitá-lo, o endereço é http://lendowalden.blogspot.com
abraço
denise
on Feb 28th, 2011 at 12:21 pm
…é pena que a atividade tenha ficado tão escriturária, tão mercadológica!… e os caras marginas pareçam não existirem mais! Gostei muito do seu texto, como sempre! A pesquisa também comprova que a atividade da livre expressão acaba por criar o mesmo destino para todos!
Um abraço!
on Jun 25th, 2011 at 12:46 pm
Literatura marginal.. Nice